quinta-feira, 27 de junho de 2013

Estou indo

Não sabia se ia ou não, mas decidi! Vou! Eu vou para te ouvir os sinos às 6 horas da tarde, para ver tuas ruas com o brilho dos lampiões, eu vou porque lá minha alma canta. O caminho do Espirito Santo à Minas é longo, dispendioso, custoso, complicado para quem vai só e carrega consigo uma filha de dois anos. Mas teu entardecer tom laranja mesclado com azul e cheio de poesia me conclama. Não posso passar julho sem te ver envolta em translúcida neblina pela manhã, à tarde meu coração se enche de contentamento vendo no teu céu a dança das pipas, e as tuas aconchegantes noites frias me trazem estranha alegria!

Então eu vou, para rezar um terço na capela do Santíssimo, para passear distraída e encantada por tuas ruas, recordando do quanto fui feliz e sonhando com o quanto ainda poderei ser. Quero te respirar a exclusiva essência barroca, num aroma que é mistura de adobe molhado com os jasmins dos seus canteiros e centenárias madeiras dos seus sobrados. Assistir uma missa das 10 horas nas Mercês, com homilia de padre Geraldo e abrilhantada com os hinos tocados pela orquestra Lira São-Joanense! Vou porque tenho saudades das quitandas que só suas antigas padarias ainda assam em forno à lenha. Vou porque eu tenho um pedaço de mim que senta em um dos bancos da praça Barão de Itambé e chora de saudades. Nesta mesma praça vou caminhar-te sobre tapetes vermelhos que foram delicadamente tecidos pelas flores caídas de velhos conhecidos flamboyants! Estou indo te olhar como estão crescendo as novas palmeiras do largo de São Francisco, conferir se floriu teus ipês amarelos, rir com meus amigos, escutar o vento uivando no morro do Bonfim.
E é claro, renovar meu estoque de pacotes de cafés são-joaneneses! Vou deixar aflorar a menina que só existe quando está nos largos do seu centro histórico e aproveitar intensamente cada minuto nesta terrinha, com a força que só os ausentes conhecem. Vou aos shows e teatros do seu Inverno Cultural, vou agradecer e também pedir outras graças na noite do dia 16, quando Nossa Senhora do Carmo, rodeada de flores, passará por teus becos!


Eu vou, e quem me ver passando, provavelmente de cabeça baixa (só ando assim) apressada e encolhida num casaco, com um cachecol enrolado no pescoço, saiba que estou em casa, poderá constatar no brilho do meu olhar que estou em estado de graça, completamente feliz! Vou porque apesar de tanto caminhar longe de ti, meu olhar nunca se afastou, tamanho é meu amor! Estou chegando, e bem sei que me esperas atrás da Serra do Lenheiro, sempre!
Foto1: As torres da Matriz do Pilar, a igreja do Carmo e a neblina de inverno por Marcinho Lima
Foto2: Queima de fogos no Largo de São Francisco durante procissão de Nossa Senhora do Carmo/2008 por KK Freitas

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Esta estante



Nasci num simpático sobrado de tamanho satisfatório para uma família de seis pessoas.  Na sala, havia uma estante que chegou para nossa casa doada por alguma tia. Esta estante não era muito grande, tinha apenas três longas prateleiras de compensado revestido que se equilibravam em seis blocos. Mas para olhinhos que veem tudo da altura de uma criança, ela era enorme, linda, imponente, importante, cheia de classe, design e destaque!
Muitos eram os títulos, clássicos nacionais, internacionais , de muitos autores famosos dentre filósofos alemães, físicos americanos, romancistas populares, escritores consagrados, premiados, edições raras. Muitos livros infanto-juvenis, didáticos, dicionários e toda a sorte de manuais de televisão, rádio, e dezenas de outros aparelhos domésticos e até de máquinas industriais. Havia também os livros de autores são-joanenses, um ou outro livro de anedotas, alguns exemplares de antigas revistas, livros de culinária, ervas medicinais e a bíblia com capa de madeira! Não lembro de nenhum livro de autoajuda, mas devia ter algum. E ocupando grande espaço, as rainhas das antigas estantes: as enciclopédias!!! Sim, porque naquele tempo o senhor Google nem sonhava em ser concebido e nos restava, para pesquisa de todas as coisas, as limitadas páginas daqueles enfileirados e grossos livros com capas duras de cores vivas, letras douradas e encadernação de brochura.
Era assim nossa biblioteca particular, muitas eram as cores, as texturas das capas, os tamanhos, tudo com aquele cheiro de livro que eu não sei explicar, só quem lê sabe deste aroma!
Quando mudamos de casa para apartamento, a estante foi ocupar um corredor. E todos os livros continuaram conosco, crescendo cada vez mais em exemplares, e nós em conhecimento, desenvolvendo nossas preferências e afirmando nossas aversões. Mas o tempo foi corroendo aquelas prateleiras e um dia a estante foi desfeita, os livros guardados em caixotes. Ora! Lugar de livros é na estante! Livros não são apenas para serem lidos, consultados esporadicamente, precisam ser vistos, notados para não sejam esquecidos e nem roídos por abomináveis traças. Não que os livros sejam enfeites, não, eles são mais que isso, tem memória, alma, presença! Engraçado que eu nunca fui uma leitora assim tão assídua, mas conhecia bem cada um deles, sejam eles lidos por mim ou não.
Meus pais se foram, os filhos estão cada um num canto e a maioria dos livros da estante da minha família se perdeu, o tempo os levou, viraram pó, que triste, que pecado! Livro é bem precioso precisa ser conservado, respeitado! Onde foram parar todos aqueles livros? Para onde foi o ’Tronco do Ipê’ como todo aquele rebuscamento de José de Alencar? ‘Contam que...’ de Lincoln de Souza, ’Reinações de Narizinho’ de Monteiro Lobato? ‘O caso da Borboleta Atíria’ com aqueles olhos que tanto me olharam e eu nunca consegui ler, onde anda? Ah que pesar, porque eu não li todos eles? Até os manuais de televisão poderia ter lido, aprendido!
Felizmente alguns sobreviveram, foram cuidados, mantidos. Que honra poder ter hoje, na estante da minha casa, na biblioteca particular que agora eu monto aos poucos, a ‘Divina Comédia’ de Dante Alighieri, toda a Enciclopédia Século XIX, adquiridos por meu pai, alguns exemplares de capa dura de Machado de Assis, que foram da minha bisavó! Adoro folear o livro ‘Fogão de Lenha’ de Maria Stella Libanio Christo, que orgulho da bíblia de capa de madeira e dos livros sobre São João del Rei!!!
Se meu pai foi um grande leitor não sei, nas poucas vezes que o vi debruçado sobre algum livro, com certeza era um manual de um aparelho que ele ainda não dominava bem. Já minha mãe lia mais, devorava os famosos romances populares da coleção Sabrina e também outros títulos famosos da época como a série ‘Operação Cavalo de Tróia’ de J.J. Benítez.  O fato é que na minha casa existiu uma estante com muitos livros, e eles foram coadjuvantes na escrita da minha própria história. Hoje sou eu que tenho esta consciência ‘estante’, coleciono e leio livros, já tenho muitos e vou comprando mais outros porque quero deixa-los como uma herança.
Esta semana, por exemplo, me tomei de saudades pelos livros de Monteiro Lobato que li quando muito nova e me lembrei do quanto eles tornaram minha infância ainda mais encantadora. Como não fazem parte dos livros que resistiram ao desmoronamento da estante, quis comprar um daqueles títulos, fui à internet e vi de tudo, mas um exemplar de ‘A Chave do Tamanho’ de 1962, num sebo virtual me chamou a atenção. Parecia-se muito com aquele velho livro da nossa estante. Então comprei, fiquei ansiosa por sua chegada, e quando ele chegou voltei no tempo, eu era novamente aquela menina lendo encantada Monteiro Lobato, se identificando com a Emília e suas peripécias! Que assim aconteça com minha filha quando ela começar a ler porque a ‘A chave do Tamanho’, estará na estante!

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Dos vazios

À viver a vida à fora e à dentro de nós, vamos percebendo desalinhos que não se aprumam fácil ou que nunca se erguerão! Estou a te falar dos vazios que não se preenchem mais, e que doem dor fina e cortante, de dia e de noite, madrugada também, e sem avisar. Recordo-te das fomes de sabores suaves perdidos no tempo, dos lugares da infância da gente que não vai voltar mais e das pessoas carinhosas, entes amados e apaixonados que se foram para lá. São manhãs amenas sem esperança de dias vivos. Vazios que não se pode preencher. Você corre tanto atrás, compra sapatos de salto alto e finas sandálias, degusta um brigadeiro e depois uma barra de chocolate e ainda um pedaço de bolo, sente dores na barriga e um vazio imenso. Como dói o abraço que não alcança aqueles braços, que triste não ouvir mais a ternura em voz, onde está o colorido sentimento que te deu forças e te elevou a face naquela bonita foto? Vazio que não se consegue preencher, não te situa em lugar nenhum, ele te expõe a tristeza camuflada, a cicatriz debaixo do queixo, e você queixa-se do dia, do tempo, das olheiras, da palidez, e se vê em melancolia, à beira do mar salgado do passado que nunca aconteceu, ou à beira-seveira de enfileirados casarios do passado que você queria que fosse agora. O seu sofá parece um barco à deriva, a sua sala um grande lago plácido que não se vê a margem, você está mudo, insatisfeito, olhar que nada vê, e coração que insiste em bater o ritmo dos desacreditados. Não se preenche vazios sólidos, aprenda! Muitos são os frutos do abacateiro, encorpados, viçosos, viscosos e outros menores que não vão gerar novos frutos porque a semente simplesmente não vai germinar ou porque no lugar da semente há um vazio, e a culpa não é sua! E então, mágica e cíclica como somente a vida é, você estará distraída, de chinelos, de cabelo solto, conversando besteiras, numa tarde vazia como esta de hoje e o sol incendiará novamente sua alma, e seu sorriso atravessará o largo do Carmo novamente! Acredita? Os vazios continuarão lá em alguma esquina, mas você inconscientemente os deixará ignorados. Vazios não são bons lugares para se visitar enfim!

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Intocáveis e inesquecíveis

Tão bom chegar ao cinema cheia de vontade para ver um filme super bem indicado, diferente do que vinha ocorrendo. Eu assistia dentre os ‘blockbusters’ americanos em cartaz, cheios de faz de contas viajantes demais, releituras engraçadinhas de super-heróis, muito efeito especial, muito soco, e pouca poesia, àquele que julgasse o “menos pior”. E o francês (viva!) ‘Intocáveis’ correspondeu às boas expectativas! Driss (Omar Sy) é um sujeito que não teve oportunidades, criado num subúrbio francês, mas nos ensina, ao cuidar do aristocrata tetraplégico Philippe (François Cluzet), o que deveria pautar todas as relações humanas: simplicidade, franqueza, bom humor e igualdade de tratamento. A história desta relação se dá à medida que o personagem vivido com perfeição por Cluzet, ‘Philippe’ se deixa seduzir com o despojamento do rapaz e esta nova presença traz mudanças significativas àquela casa, seus moradores e funcionários. Por outro lado o, às vezes indócil e abrutalhado, Driss é convidado pelo aristocrata à experimentar um pouco de sensatez, civilidade e compostura. Mas o refinamento para ouvir uma ópera, Philippe não conseguiu passar ao seu ajudante, e é nesta hora que você deve aproveitar para dar uma boa gargalhada junto com Driss! À essa altura, diante da bela amizade construída com abundante generosidade gratuita entre dois homens de mundos opostos, eu pessimista que sou, já estava me preparando para um fim em que me debulharia em lágrimas. Mas como pude pensar assim? O filme baseado em fatos reais, com pinta de drama é uma comédia! Enchanté! È ótima a interpretação de Driss por Omar Sy, um jovem e envolvente ator, um gigante que parece descender da linhagem do norte-americano Michael Clarke Duncan, de ‘À espera de um milagre’, falecido há pouco tempo. Enfim, a prova de que esse tipo de filme agrada muito e estava sumido das telonas, está no sucesso de bilheteria, 20 milhões só no ano passado. Eu que o diga, com a sala lotada, assisti na primeira fila, com o pescoço erguido o tempo todo, e como valeu à pena!!! Se ainda não viu, faça um favor a si mesmo, corra aos cinemas antes que um novo monstro blockbuster descartável o tire de cartaz! Embora ‘Intocáveis’ (segunda maior bilheteria de um longa francês) já tenha entrado pra lista daqueles filmes inesquecíveis que a gente gosta de citar!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Há malas que vão para o além

Dentre alguns defeitos, apegada. Nunca dei importância ao trecho do poema que eu adoro, “Instantes”, atribuído ao escritor argentino Jorge Luís Borges, que diz: ‘Se voltasse a viver novamente, viajaria mais leve’! Mas eu sempre carreguei coisas demais, não arrastava bagagens pelas rodoviárias e aeroportos, mas verdadeiros baús, tanto que vez ou outra pagava por excessos. Nos dias que antecedem viagens em ocasiões pra mim especiais, na hora de arrumar as malas, me acompanha a dúvida do que usar, a instabilidade do tempo, a minha instabilidade. Será que vai combinar? Com isso, ao invés de uma calça, acabo levando três. Espero com ansiedade peculiar às vésperas de carnaval, semana santa e fim de ano, também a terceira semana de julho em São João del Rei. São dias lindos que carregam a sina de ter as mais baixas temperaturas do inverno, com prováveis charmosas neblinas ao amanhecer. É a semana da bela festa de Nossa Senhora do Carmo, dia 16, e depois é aniversário de uma amiga muito querida, oportunidade pra reencontrar velhos conhecidos e comemorar. Sem falar que é período de férias escolares e ‘Inverno Cultural’ pipocando eventos por todos os cantos, música, teatro e dança que colorem a cidade. Então eu crio expectativas, faço planos, combino almoços, passeios, visitas e outros encontros com familiares e amigos. Pensando em cada um destes momentos vou preparando a mala. Com zelo, escolho a dedo as melhores roupas e sapatos, metodicamente, criteriosamente e bem devagar pra nada faltar, nem aquela bota, nem o cachecol, e a jaqueta nova que comprei na liquidação. Tem que ter espaço pra nécessaire com as bijuterias, a outra com os cremes e perfumes, e ainda uma terceira com toda a parafernália da maquiagem. Tudo que você quer levar tem que estar ali dentro daquele espaço retangular, para mim sempre pequeno. O volume fica enorme, precisa fechar, e eu apelo pro velho hábito de sentar em cima de tudo para compactar. Quem nunca? O resultado é a reclamação de quem carrega a mala e o limite ultrapassado para a cota que cabe a cada passageiro. Foram cobrados 40 reais por excesso de bagagem, que eu nem me importei de pagar. O que interessa é que tudo estava ali e ia chegar comigo... ou não! A gente acha que nunca vai acontecer com a gente, mas um dia você desembarca feliz por chegar ao seu destino, e fica aguardando sua bagagem desfilar na esteira. Fica aguardando, aguardando, dezenas de malas, maletas, arcas, trouxas, sacolas, embrulhos, caixas, tudo vai passando, menos sua mala, até que a esteira pára. Dói, sua mala não veio, foi deixada em algum lugar, se perdeu, caiu no buraco horrendo das malas equivocadas. Extraviou! Que desespero! E agora? No meu caso, como o aeroporto Prefeito Octaviano de Almeida Neves é (ainda!) pequeno, não há esteira, o carrinho com as bagagens chega e você logo descobre que está nua, sem bagagem, sem chão, sem um pedaço de você. Preenchi um formulário e no item que pedia para descrever o que havia dentro da mala, a minha vontade foi escrever: minha alma, minha vida, o brinco que eu mais amava, o blusa que me caía bem e a jaqueta, ah a jaqueta que eu nem cheguei a usar! Mas não somos fúteis e nem materialistas, não é? Minha descrição foi simples, roupas e sapatos. Os funcionários da empresa aérea foram solícitos e políticos, prometeram minha bagagem de volta o quanto antes. Os dias foram passando e nada, eu ligava e eles ainda sem notícia do paradeiro da mala. E cada coisa que eu lembrava que estava lá dentro era uma fincada no peito, será que eu nunca mais iria ver minhas coisinhas? Os eventos não esperaram, foram acontecendo, e foi aí que comecei a entender Borges... ‘viajaria mais leve’! Diante do andor florido que parou em frente à janela que eu estava, abraçada à minha filha que batendo palmas e balançando as perninhas assistia pela primeira vez uma procissão, fui às lagrimas. Foi uma emoção única, inesquecível, e não fez diferença alguma eu estar vestida com um casaco de três invernos atrás que achei no armário.
Porque eu sentiria falta de um anel precioso se realmente o que me era caro era a consideração da amiga-comadre, o papo com as primas, o carinho das sobrinhas e priminho com minha filha? É de valor imensurável matar a saudade de estar com meus irmãos pra um almoço de domingo ou ter a casa cheia de amigos para a ‘Noite da Batata’! A felicidade tem luz própria, e eu a irradiava quando acordava de manhã e via da janela a cidade inteira abraçada numa bruma aconchegante, ou quando eu contemplava um pôr-do-sol cor de alaranjado ardente sobre a Serra do Lenheiro. Eu tinha brilho nos olhos quando simplesmente degustava uma broa de coalhada no café da tarde ou quando eu bebericava um quentão na barraquinha e curtia, depois do último dia da novena, um bom e inusitado samba na porta do cemitério, coisas que só minha São João del Rei tem! Nestes acontecimentos eu estava iluminada naturalmente não se fazia necessário o truque de passar em pontos do rosto o meu iluminador cremoso de marca famosa.
E então, eis que surge, três dias antes do meu regresso, a mala! Pesada, gorda, com tudo dentro! Senti alívio, não vou negar, mas eu já estava leve com alma lavada, e jurava pra mim mesma que dali em diante ‘viajaria mais leve’! Bom, tsc, mas isto é assunto para outra viagem, não para essa de retorno! É que eu carregava, além de todos os meus pertences, quatro pacotes dos cafés são-joanenses, Tamandaré e Soberano, para reabastecer meu estoque até a próxima vinda pra terrinha. Com esta valiosíssima carga a mais, não gosto nem de imaginar minha mala extraviada novamente! A prática do desapego, meu caríssimo Borges, fica adiada para o inverno de 2013! Foto 1: Ana Helena presenciando pela primeira vez a procissão de Nossa Senhora do Carmo por Bia Viegas Foto 2: Projeto ‘Samba na Praça’por Guia das Vertentes

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Pra botar o bloco na rua em 2013

Despede-se o mês de fevereiro, apaga-se todo o brilho de qualquer purpurina remanescente. Restam as recordações e o carnaval foi tão bom que alguns recortes ainda estão bem vivos no coração. Eu vou pensando, lembrando de outros anos e me pergunto quando aflorou esta paixão momesca. Ainda muito pequena, lembro de assistir das arquibancadas, as escolas desfilarem na avenida com meus pais, minha tia, comendo milho verde. Lembro do ano em que meu avô Lindolfo de Freitas, fundador do Rancho Qualquer Nome Serve foi homenageado na decoração da avenida com seu rosto pintado num imenso pandeiro. Lembro das matinês no Minas, as fantasias cheias de plumas. Mais adiante me vejo cortando e amarrando as pontas das fronhas velhas para vestir de gatinho. Depois os anos dos primeiros bailes, Vermelho e Branco no Athletic, e Hawaí na praça de esportes. E como parecia infinita a sexta-feira de carnaval, com o ‘Pão Molhado’ e ‘Alvorada’ no final. Foi neste ponto que em meio a tantas boas lembranças me entristeceu lembrar que a Banda do Pão Molhado não existe mais.
Era um bloco tão grande, mostrava-se tão forte, pulsante, com entusiasmo inesgotável, perene. Saia do Tijuco, arrastando uma multidão que invadia as ruas e desfilava num caminhão seu enorme pão, teoricamente molhado (seja com caldo de galinha ou cachaça), e ainda com distribuição de outros pãezinhos menores aos foliões!
Com início nos anos 70, desfilou por mais de 30 anos, mas acabou. O que faltou? Faltou passar o bastão, fazer despertar nos jovens o amor à batucada, faltou alimentar a magia de celebrar a vida com os amigos. Não faltou farinha, mas o fermento da renovação. Faltou entregar o anel de bamba a quem merecesse usar.
Não! Não ouso nem imaginar ver meus dois blocos mais queridos, ‘Copo Sujo’ e ‘Unidos da Cambalhota’ virar lembrança de um carnaval pro outro. Não! Não se pode deixar órfãos os foliões de hoje, não podemos desmerecer nossa riqueza cultural, nosso tradicional carnaval. Se a voz está cansada ensine alguém a cantar, mas veja bem, com a mesma emoção! Deixe a direção para alguém que também carregue o espírito do bloco, não cabe vaidade no samba. Deixe outro ritmista tomar seu lugar na bateria se seu braço não tem mais a mesma força pra tocar o surdo. Espontaneamente queira botar seu bloco na rua, chore sem vergonha de mostrar sua paixão, mas quando a bateria não mais te deixar arrepiado com as tradicionais paradinhas, é hora de dar um passo atrás e deixar passar à frente outro irmão ainda contagiado.
Para ser bloco de carnaval são-joanense é preciso amor incondicional e alegria, entender de harmonia, ter serpentinas e confetes escondidos em algum lugar durante o ano todo. Ser conjunto, massa, mas com algo de peculiar, seja um pão gigante ou um colchonete no chão para dar cambalhotas; um trocadilho com a ‘praia’ local; uma alegria inexplicável contida num refrão! Seus foliões podem estar de fraldas e chupetas; há de ser de faz de conta para homem vestir-se de mulher ou ainda unir a juventude pelo abadá cheio de cor. Abraçar uma respeitável velha guarda, outrora da ‘bandalheira’, com espírito infantil! Precisa desfilar na contramão da primeira hora da manhã ou protestar contra a política num deboche de que tudo continua sempre a mesma... ‘lerda’!
Não! Só não pode se deixar morrer, achar ridícula a fantasia e assim esquecê-la em casa, deixar cair pela ladeira ou da ponte da cadeia, o entusiasmo num samba menor, porque aí, não só cantaremos as lágrimas que o Roberto derramou, mas também as de centenas e centenas de arrebatados foliões. Pense nisso, você tem a quaresma, o ano inteiro, até o próximo fevereiro... se ascender!
Samba do Pão Molhado:
“Eu vim de longe só pra te ver
Dei a volta por cima e voltei pra você
Eu quero poder ainda ser feliz
Ouvir o sino da Matriz
Oh minha terra querida
Eu andei vagando por aí
Mas nunca me esqueci do meu lado verde e branco
Oh Pão Molhado
Esperei o ano inteiro
Pra chegar em fevereiro e reviver minha raiz”
Fonte: Vídeo 'Bloco do Pão Molhado'

sábado, 10 de dezembro de 2011

Meio 'Clarisse'


Se uma ousada coragem me dominasse por completo... ah, que dia diferente seria! Levantaria da cama e esqueceria ainda dormindo a boa educação que a Dona Edna me deu e mandava logo às favas quem viesse com injustos desaforos pro meu lado. Vestiria calça, camiseta, um All Star. Não pentearia os cabelos, nem esconderia minhas olheiras com maquiagem. Falaria de futebol com muita propriedade e muitos palavrões com boca cheia, daqueles só proferidos dentro de estádio em final de campeonato. Fingiria nunca ter assimilado o rigoroso catecismo da Dona Célia Sena na paróquia de Nossa Senhora do Pilar e não me arrependeria de pecados tão bons de cometer, nem teria compaixão dos que atravancassem esse meu dia. E por suposto não esperaria benevolência divina.
Muito espirituosa e desinibida sentaria sozinha num boteco pé sujo, pediria uma cerveja e uma porção de fígado acebolado! Contaria casos extraordinários estilo ‘Floduardo Pinto Rosa’ (pai de Guimarães Rosa) para quem estivesse ao redor! Pularia carnaval sem o menor bom senso e não lembraria um instante sequer da possibilidade de uma ressaca física ou moral. Sem medo de qualquer conseqüência falaria tudo que eu sinto, pra quem eu amo e também pra quem desprezo. Traduziria minha raiva em verbetes chulos impronunciáveis a uma moça de boa família e em certos casos partiria também para murros bem acertados e chutes em traseiros merecidos, porque não? Iria decididamente despir de todo meu olhar acanhado, do véu de santinha e exibiria orgulhosa minha carcaça de escorpiana com veneno mortal.
Compraria brigas de pessoas queridas, participaria de passeatas com bandeiras ecológicas, cuspiria em políticos, e teria sempre boas respostas na ponta da língua. Vomitaria todos os sapos que engoli e ressuscitaria antigas discussões só pra ter o gostinho da frase final. Vingaria-me satisfatoriamente e com requintes de crueldade de todas as pessoas que um dia me fizeram sofrer. Desde a professora do primário que gritou comigo na aula de matemática, passando pelo fora daquele amor não-correspondido, até a amiga hipócrita que mexeu com afetos sagrados. Enfim vagaria perdida sem dar satisfações, sem estabelecer metas, sem regras, sem horários, seguindo só o coração, rumo ao futuro, até encontrar com ela, Clarisse, e obter resposta à pergunta: Valeu à pena?

P.S.: Este texto fi inspirado na crônica "Se eu fosse eu" do livro "Clarice na cabeceira" e antes de postá-lo aqui no blog percebi que havia escrito 'Clarisse' com dois 's'. Resolvi deixar assim propositalmente, como se minha Clarisse com dois 's' fosse diferente desta tão popular 'Clarice' de hoje. É como se eu fosse uma admiradora diferenciada, fosse mais íntima dela, um ato egoísta eu sei, mas essa minha 'Clarisse' é só minha! Hoje ela completaria 91 anos. Minha homenagem!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Águas do Lenheiro



Quisera eu parar o tempo, estando no meio da ponte dos Suspiros, em noites de luar, e contemplar o brilho oscilante dos reflexos em tuas águas! Em harmonia e como testemunhas, os prédios da Câmara e Prefeitura, mais atrás as palmeiras do Centro Cultural do 11º-BI. Se por descuido lhe deixar cair uma lágrima de saudade, de tristeza ou de felicidade, favor conduzi-la ate o mar para que seja uma eterna prova das emoções vividas aqui. Apascenta alguma angustia minha com o burburinho de sua pequena queda ao declinar junto com a avenida, no coração de São João.
Corre córrego do Lenheiro, passa dia e noite sem pedir licença e sem cessar, desde a nascente na Serra ao desaguar em outras águas. Vedes os filhos desta terra de geração em geração, daqueles garimpeiros que de teu misterioso âmago fez surgir ouro, àqueles que inconfidente, presidente, ou simples gente somente sonharam.
Tento acompanhar-te no olhar a deslizar por este verdejante leito, placidamente, ou por vezes mau caráter, abundante e indignado quando lhe ordena os céus! Poluentes e detritos não te tirem a perenidade nem a saúde de teus peixes, nem a transparência de sua alma. Que terras clandestinas não te assoreiem as margens e percurso. Sejais sempre teimosa serpente enveredando por estas vertentes, buscando algum sentido. És encantadora praia ao nosso modo são-joanense de enxergar, inspiração das brumas de inverno e razão destas imponentes pontes de pedra com arcos romanos. Pra findar o Tijuco, te atravessa Rosário e pra reviver a lenda de quem assenta, Cadeia!
No teu destino, segues dividindo, segregando, rasgando, partindo ao meio minha cidade, és dela o sangue, a seiva, a vida que não ousou jamais descansar!
Ah, pouco me importa se és um moleque filete d'água e não há barcos charmosos a desfilar sobre tuas águas como no Sena, mesmo assim São João del Rei é, e sempre será, minha cidade luz!
É somente nas tuas águas Lenheiro, que mato minha sede de viver!


Foto 1: Luar e Córrego do Lenheiro por José Antônio de Àvila Sacramento
Foto 2: Ponte da Cadeia por Bárbara Diláscio

domingo, 31 de julho de 2011

Sony, a babá

A babá da minha filha Aninha é uma figura! O nome dela é Sony. Ela é super na dela e muito competente no que faz, disso não posso reclamar. Ela me deixa super segura, principalmente à noite. É que às vezes estamos cansadas e o sono é pesado, pode ser que a gente não escute o choro do bebê, mas com a Sony por perto fico tranqüila, qualquer choramingo da Aninha ela avisa. Ela está conosco desde o nascimento da nossa pequena.
Mas Sony é só babá mesmo, não ajuda em nenhuma outra tarefa de casa, nada. Passa o dia todo me olhando andar pra lá e pra cá, com aquele ar meio soberbo como se soubesse a hora exata em que minha filha irá chorar. O pior é que estranhamente ela sabe mesmo, mais que eu que sou mãe, isso me aborrece um pouco. Outra coisa que me irrita bastante na Sony é uns sons estranhos que ela faz, tipo ruído de avião, e também aquele som de interferência de celular. E quando estou ouvindo música? Ela cisma em cantar junto, sabe todas as letras e imita até os instrumentos, que raiva. Pode ser implicância minha, mas às vezes eu pego ela me olhando sinistramente com uma expressão assim como quem diz: ‘Aninha pode chorar a qualquer momento, mas não foi desta vez’!
Numa destas madrugadas em claro, de chororô sem fim da Aninha, ela estava comigo o tempo todo, me fez companhia na angustia de não saber o motivo do choro. Lá pelas três da manhã, depois de muito desespero, depois de rezar para todos os santos, e de tentar de tudo, da troca da fralda à chupeta de funchicória, quando eu quase caía exausta, Aninha finalmente adormeceu. Fui aliviada dormir e sabia que a Sony estaria atenta por mim, a pilha dela é forte, agüenta a noite toda! Mas antes que eu me deitasse e apagasse a luz do abajur ao lado da minha cama, ouvi a Aninha rindo, e a Sony sussurrar alguma coisa, num timbre de voz igualzinho ao da minha já falecida e querida mãe. Era como um resto de frase que poderia ter sido: ‘Durma bem meu amor’! Aquilo me deixou arrepiada! Olhei pra Sony admirada e ela muda, imóvel, como se não tivesse dito nada. Fui, com um certo medo, até o quarto da Aninha e ela estava no berço bem serena, linda, dormindo como um anjinho, tranquila como se estivesse mesmo sob o olhar protetor e carinhoso da avó. Bom, ainda bem que a Sony nunca mais resolveu imitar a voz da minha mãe, eu hein? Mas também pode ter sido coisa da minha cabeça, efeito de tamanho cansaço e estresse daquela noite.
Enfim sou grata à Sony, mesmo com suas esquisitices, ela é fiel, obstinada, séria e até hoje nunca me decepcionou, nunca ficou sem energia, está sempre alerta, seja dia ou seja noite! Só quem já precisou de uma babá para ajudar com os filhos entende o que é a Sony pra nós. O meu marido é que vive se confundindo e a chama de secretária eletrônica! É engraçado, mas Sony é babá!

sábado, 12 de março de 2011

Alma barroca, sagrada e profana

Sexta-feira depois do carnaval, é dia de trocar os cds dos compositores Jota Dangelo, Agostinho França, e outros tantos da nova geração de sambistas, pelos cds com os motetos, cânticos, matinas, laudes, e outras composições sacras dos são-joanenses como Padre José Maria Xavier e Maestro Ribeiro Bastos. É dia da primeira Via Sacra na rua, dia de contemplar a melodia dos dobres do sino dos Passos ao invés de tamborins, repeniques e tantãs de outrora. Eu sou são-joanense, adoro ser, minha alma é barroca, sagrada e profana!
Profano quer dizer tudo que não é sagrado, aquilo que é popular, da nossa gente, como as manifestações carnavalescas. Esta vertente tem raiz no fim do século XIX com os Ranchos ‘Boi Gordo’ e ‘Qualquer Nome Serve’, e mais tarde com as Escolas de Samba no século XX. Mas é chegado o tempo do sagrado, da outra vertente mais tradicional, vinda do século XVIII com a Lira Sanjoanense e a Orquestra Ribeiro Bastos. É a ocasião propícia do erudito, de se recolher contido e não mais de exibição, de desfrute, exaltação, hoje é dia também de Encomendação de Almas!

Fantasias e abadás que ontem nos vestiam dão lugar às opas roxas da Irmandade dos Passos. No lugar do bloco com seus coloridos estandartes, o cortejo da Via Sacra com sua cruz de madeira escura. As mãos que lançavam serpentinas, esguichavam espumas e jogavam confetes, agora carregam lanternas de prata e velas acesas. Aquele músico que comandava a eufórica bateria no sopro estridente do apito, passa a integrar a orquestra soprando passivamente as notas graves de seu trompete.
A imagem mágica da performance da bateria do ‘Unidos da Cambalhota’ nas escadarias da Matriz dá passagem para o desfile piedoso dos irmãos que irão refazer a via crucis de Jesus. No primeiro ato os sinos mudos nas torres apenas olham, e no segundo momento são protagonistas da devoção cristã (“pois o sineiro é o ritmista de São João!”). A paixão como sentimento que correu solta e inocentemente desavergonhada no coração dos foliões tem seu signo totalmente transformado, refletindo a dor, sofrimento e resignação pelo qual passou Nosso Senhor.

Eu sou são-joanense, do carnaval à quaresma, do samba à meditação, do enredo à oração, do ‘pular carnaval’ à contemplação, da alegria à ponderação, da razão ao coração!
Recolha-te folião, o tempo agora é de procissão, de terço na mão e não mais um copo de cerveja. Revele sua fé à luz de um lampião, abra sua alma, reconheça seus tropeços nestas ruas históricas, e peça perdão. Mas também perdoe porque todos nós às vezes sambamos na contramão e atravessamos no antigo refrão. Somos enfim todos barrocos, vivemos ainda debaixo destas telhas coloniais, cercados por paredes de adobe, mesmo que tenhamos deixado a terrinha, seguimos sagrados e profanos, são-joanenses!
Uma quaresma de reflexão, humildade, caridade, abstinência e oração para todos!
Foto 1: Bateria do bloco 'Unidos da Cambalhota' na escadaria da Matriz do Pilar, por Babi Diláscio
Foto 2: Um dos cortejos sacros da quaresma, por Adrianna Neves