quinta-feira, 11 de setembro de 2014

José&Maria


Dividindo o ar e rompendo as vertentes ela vem fumegando, dançando em trilhos, há exatos 133 anos!
Impávido e estático muro de rocha, ele espera silencioso desde sempre.
Ela anuncia sua passagem em bruma leve das paixões que vem dentro... E com o estridente som de seu apito talvez faça um chamado.
Maria: Velha louca e menina ativa, locomotiva!
À vapor, à amor é movida, de partida, serpenteando o vale, ritmada qual batida de coração.
José: Disciplinado, altivo, de quartzito, em tons negros e azuis, sublime elevação!
Uma grande concha ou talvez uma onda petrificada, no seu lugar ele a vê passar em curva!
Maria, uma composição, alguns vagões, emoções, acenos e tantas saudades. 
Vai e volta, até a estação, de Tiradentes, de São João del Rei.
Ele, quieto, admirando, zelando, compondo a paisagem da linha de ferro. Entre os meses de agosto e setembro, oferta a ela buquês em forma de majestosos ipês amarelos, assim é José.
Maria, Maria,
É um dom,
Uma certa magia... em brasa
Uma força que nos alerta... e carrega
Uma mulher que merece
Viver e amar
José, José
É uma moldura
Um certo guardião da vila
Uma fortaleza que nos abraça e abriga
Um ser que merece
Viver e desejar
Em alguns instantes convivem no mesmo cenário, ela fugaz, ele constante.
José e Maria, um par divino, e entre eles um leito de rio, de nome ‘das Mortes’, é testemunha.
Eu sei, todo são-joanense e tiradentino também, embora afastados,
eles se completam exatamente naquela curva porque assim quis a geografia!
Maria, Maria
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que rí
Quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta
José, José
Uma energia que nos alenta
De um gigante que chora (cachoeira)
Quando deve ser sólido
E não caminha, apenas enfeita
Maria é Fumaça!
José é São e também Serra!
Apenas isso e esse trem todo!


Foto1:Trilhos de Minas
Foto2:Revista Sagarana
Foto3:Luis Macedo

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Dona da lua


Eu já fui dona da lua! É isso mesmo, a lua era minha, em todas as fases, mais especificamente a lua cheia e todo seu brilho envolvente, todo seu misterioso poder. Era eu quem apontava e dizia, vem cá, olha que linda a lua esta noite! Eu era soberana diante daquele disco de prata e a exibia orgulhosa. Era meu código, meu trunfo, um elo, uma sempre testemunha, uma mensagem, uma admiração mútua, uma vã certeza, uma esperança, a realidade do sonho, um sentimento satélite, uma poesia, um olhar, uma busca, um segredo. E como assim ela não é mais minha?
Pois a vida expôs as escolhas cruéis, a sociedade fez sua pressão hipócrita e o tempo foi implacável como é. Eu não estava pronta para ter a propriedade da lua e talvez nem ela estivesse pronta para ser minha (minha?!). Ela se escondeu na nuvem da dúvida, durante a tempestade das vaidades. Ela foi encoberta pelas mangueiras do jardim da solidão, e eu ainda fechei a janela para o rastro do seu brilho não me alcançar, tamanho era o medo do incerto!
A lua pertence aos amantes, aos que seguem o caminho que dita o coração, aos corajosos de plantão! Hoje ela ilumina outro rosto, está sobre outra sintonia, mesmo que o céu seja o mesmo, que sua órbita esteja inalterada, a lua inspira outro sussurro, acelera outro coração, invade outra alma. Eu aceito a condição e fico com as estrelas (e estrelas não são migalhas!), a lua já não me pertence mais. Mas um dia foi minha, legalmente e naturalmente, e ela reinou nas minhas noites, ela vigiou meus sonhos para torná-los real, eu lembro bem e essas coisas não se esquece. Vai lua cheia, a revelar as entranhas, a saudar os telhados, a pratear o córrego, a varrer os campos, a despertar as paixões, que eu na condição de ex-proprietária, não posso sentir inveja dos que a possuem agora (e talvez pra sempre) no olhar, só desejo que continue a ser chama suave entre os abraços e faça muitos outros amantes conhecerem a plenitude dos bons momentos!

terça-feira, 18 de março de 2014

‘Os Caveiras’ e a Colombina– Um conto de carnaval

Segunda-feira de carnaval (de um ano de sua preferência).

A música ritmada por tambores inebriava os foliões que se lançavam à chuva de confetes sob uma noite pontilhada de estrelas e carregada de suspiros e brisas amenas. Em meio a multidão, uma Colombina vive sua fantasia e sorri naturalmente, é carnaval, o salão do clube está cheio de alegria. O par da menina, claro, é um altivo Pierrô.  Os dois vão dançando enlaçados ou sambando lado a lado, se cortejando e compondo aquela atmosfera. Uma história está para ser contada, para alguns se tornará uma lenda...


Eis que de repente, o som de muitos guizos desconcerta os olhares. Os sinos adornam a fantasia de um garoto que adentrou o baile, é o colorido Arlequim, vestido de desordem e liberdade. Ele tem o brilho das coisas verdadeiras, o amor lhe cerca e o banjo lhe completa. Os aguçados ouvidos da inveja rapidamente o ouviram e olhos medrosos o avistaram. Como num truque barato, malvado, assaltado pela insegurança, o ciumento Pierrô muda o ritmo, rodopia estupidamente seu par e com movimentos bruscos conduz a Colombina para fora do salão. Ela cai no chão...
Tolo Pierrô, foi o temor de que o sorriso do Arlequim pudesse iluminar o rosto de sua amada ou talvez (quem um dia irá saber) de que o coração da Colombina redescobrisse a contagiante presença do Arlequim. Mas o que se deu foi que a menina não entendeu a insensatez, porque as coisas quando toscas não tem razão. Estava tão feliz, apenas se deixava levar pela magia do carnaval, o que a mais ela fez? Se perguntava com os olhinhos perdidos.
Pierrô, palhaço triste, viu a decepção no rosto pálido da Colombina e não aguentou fita-la mais, deixou-a ali no chão e saiu correndo com sua fantasia de covardia.
Sem graça, a Colombina se ergueu com a ajuda de outros, tinha algumas dores, mas não sabia onde, estava machucada, mas não havia feridas à mostra. E agora? Como voltar à dança? Melhor descer as escadas da realidade e deixar o salão. Nem sua fantasia esconderia sua desilusão.
 Ao chegar à rua ela ouviu uma marcha sombria e conhecida, estava prestes a desfilar na avenida um bloco típico. O cortejo era o qual na sua infância ela mais gostava, embora tivesse enorme pavor! Era um bloco, muito antigo, tradicionalíssimo na cidade, onde os foliões se fantasiavam de criaturas da noite, bizarras, mal assombradas, vivos-mortos, vampiros asquerosos, fantasmas medonhos, caveiras horrendas, almas penadas que talvez desfilassem desde sempre, como convém às coisas eternas.


A Colombina, exímia dançarina que dança conforme a música, sem pensar e apenas sentindo, foi assim se juntar àquela procissão de horrores. Desfilando suavemente sua dor no meio do bloco, foi desenhando sua coreografia, deixando cair sua mãozinha e outrora a levantando ao som mais agudo de um clarinete (o/), como se fosse um balé de uma pequena bailarina de antigas caixinhas de música.
E assim com coragem e leveza, integrada estranhamente ao bloco, desceu a avenida jurando aprender a seguir sozinha, pois passista não significa passiva! O desfile na avenida foi sua viagem, sua catarse, um legítimo enterro daquilo que ela não desejava mais, daquelas sensações mesquinhas, das ofensas, da solidão maquiada. Eram todas aquelas caveiras...


O Pierrô está chorando pelo amor da Colombina, no meio da multidão, na estrada da vida, e sua lágrima pendente se eternizou tal como tatuagem embaixo do olho esquerdo.

O Arlequim? Se vai ou não vai um dia tomar a cintura de Colombina numa sexta-feira, descendo a ladeira, não importa agora. Isso é assunto para outros carnavais, caros foliões! Já adentramos aos ritos quaresmais...

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Habitantes do centro histórico


Ah esses seres únicos do centro histórico! Indivíduos mansos, incomuns, de hábitos singulares, seculares e severos consigo mesmos. Vivem rodeados de sobrados, sombras, gradios portugueses rebuscados, beiras, seveiras e sob telhados coloniais. São animais que praticam a amizade, a temperança, a bondade e a solidariedade por longos 300 anos. Os vejo caminhando sem pressa pelas ruas de tortos paralelepípedos, nas esquinas, nos becos e nas alcovas das suas casas. Habitam também torres, guardam e zelam pelas capelas dos Passos. Se refugiam em bando nas igrejas para reza de terços, missas, novenas solenes e Te Deum Laudamos (Te Deum então, adoram! Com muito ajoelha-levanta) Não que sejam, ou querem ser santos, não se trata disso, porque eles carregam sim seus pecados, seus passados e espiam uns aos outros através de janelas baixas. Às 15h das sextas-feiras, sob o dobre dos sinos dos Passos, ascendem incensos no interior de seus estabelecimentos comerciais. Alimentam-se de frangos ensopados, rapadura, pão de queijo, queijo, doces em compota com queijo, doce de leite com queijo, goiabada com queijo, bolinho de feijão, amêndoas de cartuchos, e de toda a sorte de quitandas de padarias antigas. Só tomam café Tamandaré ou Soberano, só cozinham arroz soltinho se for Albarusca e só varrem a casa com vassoura piaçava Rossi! Estranhos... Que não se tente enjaula-los em belas mansões de condomínios no Alphaville ou em impessoais apartamentos do alto Leblon! Esses seres não serão felizes, apenas sobreviverão, eles precisam de horta para cultivar rosmaninho e ora pro nobis, precisam sentir o cheiro do adobe, da madeira de demolição, do ferro fundido e da Dama da Noite. Nas procissões, orgulham-se de vestir uma opa de irmandade e carregar uma lanterna, curvar-se diante de andores e lhes jogar pétalas de rosas. Querem apreciar os fogos iluminarem o céu e ver passar a banda no final. Que ninguém os julguem como segregadores, mas é que quem nasceu no centro histórico de São João del Rei nos arredores dos Largos das Mercês, Carmo, Rosário, da Cruz e do São Francisco, tem raízes mais profundas, proporcionais à altura de palmeiras imperiais, possuem ouvidos afinados por badaladas de bronze e violinos de bicentenárias orquestras. A vida não lhes é diferente, é hora difícil e hora leve, mas a fé é tradição e esperança do amanhã assim como uma peculiar alegria simples! 

terça-feira, 23 de julho de 2013

'Painando' no ar...


É um inverno poderoso o de São João del Rei, mas não, neve, nunca caiu! Porém um outro fenômeno mágico enche de encantamento os lugares, nos arredores do Largo das Mercês, campus Santo Antônio e onde uma paineira imponente orquestrar uma chuva de painas que levarão longe suas sementes. Assim, pairando no ar, ao sabor dos ventos, flocos de fino ‘algodão’ embelezam jardins e os caminhos, nossa neve são-joanense.
Na minha casa tinha um travesseiro de painas, coberto com fronha já muito gasta cujo branco já tinha perdido o tom e as tantas lavagens lhe conferiram um toque de seda. Eu lembro de ficar ‘catando’ as sementes enquanto o sono não vinha. E quando finalmente vinha, sonhos lindos o acompanhavam. Porque não sonho mais aqueles sonhos antigos? Será talvez porque os travesseiros são outros? Feitos de assustadores e misteriosos materiais sintéticos? Onde vai parar toda aquela paina das paineiras se não mais em artesanais travesseiros de cidadezinhas? Onde caem hoje as sementes que a paina, qual uma asa delta, carrega com a ajuda do vento frio de julho?
Eu já fiquei horas na janela daquele sobrado assistindo o voo daqueles blocos de pequenas nuvens. Ou seriam pedacinhos de algodão doce voadores? Os pardais sabiam muito bem, aquelas painas eram o aconchego do ninho, o forro perfeito para botar os ovinhos e depois, a caminha ideal para seus filhotinhos, enfim eram o amenizar das rudezas da vida. Por isso a pardoquinha, esperta como a natureza a fez, ficava no telhado só observando o deslizar da paina no céu de intenso azul e quando chegava a hora, num mergulho preciso, tomava o floco macio no bico e levava para seu ninho.
O sobrado ainda está lá, soberano daquela praça, mas a janela que agora tem grades, não é mais minha. As paineiras ainda florescem todo inverno e enchem de beleza os lugares. E os sonhos, alguns não me pertencem mais, mesmo assim ainda sismo de sonhar. Mas há de ter um dia, do mês de julho, perto do dia de Nossa Senhora do Carmo, quando o sol estiver brilhando forte num céu sem nuvens, e amenizando o frio, um vento irá soprar diferente. Ele começará a bater suavemente, fará uma curva na esquina e se tornará forte, bem diante da antiga paineira que existe atrás do cemitério de Nossa Senhora das Mercês. Vai então soprar com rigor e arrancar da casca do fruto do mais alto galho, um chumaço de paina com uma semente especial, ela vai viajar e cair em solo fértil.
Assim eu sonho, e sonhos - segundo Milton Nascimento, Lô e Márcio Borges - não envelhecem! Eles atravessam invernos, travesseiros sintéticos, grades, são testemunhas do brotar de outra paineira, seu crescimento ao longo dos anos e o amadurecimento de seus frutos. Vejo tudo, sinto a maciez das painas na leveza do ar, me reinvento num olhar da janela da alma daquele sobrado, e igual passarinho, forro o ninho. Que o meu e o seu caminho assim seja no inverno da jornada, repleto de pontinhos brancos encantados diante dos olhos, a plainar, a confortar, a amenizar!

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Estou indo

Não sabia se ia ou não, mas decidi! Vou! Eu vou para te ouvir os sinos às 6 horas da tarde, para ver tuas ruas com o brilho dos lampiões, eu vou porque lá minha alma canta. O caminho do Espirito Santo à Minas é longo, dispendioso, custoso, complicado para quem vai só e carrega consigo uma filha de dois anos. Mas teu entardecer tom laranja mesclado com azul e cheio de poesia me conclama. Não posso passar julho sem te ver envolta em translúcida neblina pela manhã, à tarde meu coração se enche de contentamento vendo no teu céu a dança das pipas, e as tuas aconchegantes noites frias me trazem estranha alegria!

Então eu vou, para rezar um terço na capela do Santíssimo, para passear distraída e encantada por tuas ruas, recordando do quanto fui feliz e sonhando com o quanto ainda poderei ser. Quero te respirar a exclusiva essência barroca, num aroma que é mistura de adobe molhado com os jasmins dos seus canteiros e centenárias madeiras dos seus sobrados. Assistir uma missa das 10 horas nas Mercês, com homilia de padre Geraldo e abrilhantada com os hinos tocados pela orquestra Lira São-Joanense! Vou porque tenho saudades das quitandas que só suas antigas padarias ainda assam em forno à lenha. Vou porque eu tenho um pedaço de mim que senta em um dos bancos da praça Barão de Itambé e chora de saudades. Nesta mesma praça vou caminhar-te sobre tapetes vermelhos que foram delicadamente tecidos pelas flores caídas de velhos conhecidos flamboyants! Estou indo te olhar como estão crescendo as novas palmeiras do largo de São Francisco, conferir se floriu teus ipês amarelos, rir com meus amigos, escutar o vento uivando no morro do Bonfim.
E é claro, renovar meu estoque de pacotes de cafés são-joaneneses! Vou deixar aflorar a menina que só existe quando está nos largos do seu centro histórico e aproveitar intensamente cada minuto nesta terrinha, com a força que só os ausentes conhecem. Vou aos shows e teatros do seu Inverno Cultural, vou agradecer e também pedir outras graças na noite do dia 16, quando Nossa Senhora do Carmo, rodeada de flores, passará por teus becos!


Eu vou, e quem me ver passando, provavelmente de cabeça baixa (só ando assim) apressada e encolhida num casaco, com um cachecol enrolado no pescoço, saiba que estou em casa, poderá constatar no brilho do meu olhar que estou em estado de graça, completamente feliz! Vou porque apesar de tanto caminhar longe de ti, meu olhar nunca se afastou, tamanho é meu amor! Estou chegando, e bem sei que me esperas atrás da Serra do Lenheiro, sempre!
Foto1: As torres da Matriz do Pilar, a igreja do Carmo e a neblina de inverno por Marcinho Lima
Foto2: Queima de fogos no Largo de São Francisco durante procissão de Nossa Senhora do Carmo/2008 por KK Freitas

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Esta estante



Nasci num simpático sobrado de tamanho satisfatório para uma família de seis pessoas.  Na sala, havia uma estante que chegou para nossa casa doada por alguma tia. Esta estante não era muito grande, tinha apenas três longas prateleiras de compensado revestido que se equilibravam em seis blocos. Mas para olhinhos que veem tudo da altura de uma criança, ela era enorme, linda, imponente, importante, cheia de classe, design e destaque!
Muitos eram os títulos, clássicos nacionais, internacionais , de muitos autores famosos dentre filósofos alemães, físicos americanos, romancistas populares, escritores consagrados, premiados, edições raras. Muitos livros infanto-juvenis, didáticos, dicionários e toda a sorte de manuais de televisão, rádio, e dezenas de outros aparelhos domésticos e até de máquinas industriais. Havia também os livros de autores são-joanenses, um ou outro livro de anedotas, alguns exemplares de antigas revistas, livros de culinária, ervas medicinais e a bíblia com capa de madeira! Não lembro de nenhum livro de autoajuda, mas devia ter algum. E ocupando grande espaço, as rainhas das antigas estantes: as enciclopédias!!! Sim, porque naquele tempo o senhor Google nem sonhava em ser concebido e nos restava, para pesquisa de todas as coisas, as limitadas páginas daqueles enfileirados e grossos livros com capas duras de cores vivas, letras douradas e encadernação de brochura.
Era assim nossa biblioteca particular, muitas eram as cores, as texturas das capas, os tamanhos, tudo com aquele cheiro de livro que eu não sei explicar, só quem lê sabe deste aroma!
Quando mudamos de casa para apartamento, a estante foi ocupar um corredor. E todos os livros continuaram conosco, crescendo cada vez mais em exemplares, e nós em conhecimento, desenvolvendo nossas preferências e afirmando nossas aversões. Mas o tempo foi corroendo aquelas prateleiras e um dia a estante foi desfeita, os livros guardados em caixotes. Ora! Lugar de livros é na estante! Livros não são apenas para serem lidos, consultados esporadicamente, precisam ser vistos, notados para não sejam esquecidos e nem roídos por abomináveis traças. Não que os livros sejam enfeites, não, eles são mais que isso, tem memória, alma, presença! Engraçado que eu nunca fui uma leitora assim tão assídua, mas conhecia bem cada um deles, sejam eles lidos por mim ou não.
Meus pais se foram, os filhos estão cada um num canto e a maioria dos livros da estante da minha família se perdeu, o tempo os levou, viraram pó, que triste, que pecado! Livro é bem precioso precisa ser conservado, respeitado! Onde foram parar todos aqueles livros? Para onde foi o ’Tronco do Ipê’ como todo aquele rebuscamento de José de Alencar? ‘Contam que...’ de Lincoln de Souza, ’Reinações de Narizinho’ de Monteiro Lobato? ‘O caso da Borboleta Atíria’ com aqueles olhos que tanto me olharam e eu nunca consegui ler, onde anda? Ah que pesar, porque eu não li todos eles? Até os manuais de televisão poderia ter lido, aprendido!
Felizmente alguns sobreviveram, foram cuidados, mantidos. Que honra poder ter hoje, na estante da minha casa, na biblioteca particular que agora eu monto aos poucos, a ‘Divina Comédia’ de Dante Alighieri, toda a Enciclopédia Século XIX, adquiridos por meu pai, alguns exemplares de capa dura de Machado de Assis, que foram da minha bisavó! Adoro folear o livro ‘Fogão de Lenha’ de Maria Stella Libanio Christo, que orgulho da bíblia de capa de madeira e dos livros sobre São João del Rei!!!
Se meu pai foi um grande leitor não sei, nas poucas vezes que o vi debruçado sobre algum livro, com certeza era um manual de um aparelho que ele ainda não dominava bem. Já minha mãe lia mais, devorava os famosos romances populares da coleção Sabrina e também outros títulos famosos da época como a série ‘Operação Cavalo de Tróia’ de J.J. Benítez.  O fato é que na minha casa existiu uma estante com muitos livros, e eles foram coadjuvantes na escrita da minha própria história. Hoje sou eu que tenho esta consciência ‘estante’, coleciono e leio livros, já tenho muitos e vou comprando mais outros porque quero deixa-los como uma herança.
Esta semana, por exemplo, me tomei de saudades pelos livros de Monteiro Lobato que li quando muito nova e me lembrei do quanto eles tornaram minha infância ainda mais encantadora. Como não fazem parte dos livros que resistiram ao desmoronamento da estante, quis comprar um daqueles títulos, fui à internet e vi de tudo, mas um exemplar de ‘A Chave do Tamanho’ de 1962, num sebo virtual me chamou a atenção. Parecia-se muito com aquele velho livro da nossa estante. Então comprei, fiquei ansiosa por sua chegada, e quando ele chegou voltei no tempo, eu era novamente aquela menina lendo encantada Monteiro Lobato, se identificando com a Emília e suas peripécias! Que assim aconteça com minha filha quando ela começar a ler porque a ‘A chave do Tamanho’, estará na estante!

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Dos vazios

À viver a vida à fora e à dentro de nós, vamos percebendo desalinhos que não se aprumam fácil ou que nunca se erguerão! Estou a te falar dos vazios que não se preenchem mais, e que doem dor fina e cortante, de dia e de noite, madrugada também, e sem avisar. Recordo-te das fomes de sabores suaves perdidos no tempo, dos lugares da infância da gente que não vai voltar mais e das pessoas carinhosas, entes amados e apaixonados que se foram para lá. São manhãs amenas sem esperança de dias vivos. Vazios que não se pode preencher. Você corre tanto atrás, compra sapatos de salto alto e finas sandálias, degusta um brigadeiro e depois uma barra de chocolate e ainda um pedaço de bolo, sente dores na barriga e um vazio imenso. Como dói o abraço que não alcança aqueles braços, que triste não ouvir mais a ternura em voz, onde está o colorido sentimento que te deu forças e te elevou a face naquela bonita foto? Vazio que não se consegue preencher, não te situa em lugar nenhum, ele te expõe a tristeza camuflada, a cicatriz debaixo do queixo, e você queixa-se do dia, do tempo, das olheiras, da palidez, e se vê em melancolia, à beira do mar salgado do passado que nunca aconteceu, ou à beira-seveira de enfileirados casarios do passado que você queria que fosse agora. O seu sofá parece um barco à deriva, a sua sala um grande lago plácido que não se vê a margem, você está mudo, insatisfeito, olhar que nada vê, e coração que insiste em bater o ritmo dos desacreditados. Não se preenche vazios sólidos, aprenda! Muitos são os frutos do abacateiro, encorpados, viçosos, viscosos e outros menores que não vão gerar novos frutos porque a semente simplesmente não vai germinar ou porque no lugar da semente há um vazio, e a culpa não é sua! E então, mágica e cíclica como somente a vida é, você estará distraída, de chinelos, de cabelo solto, conversando besteiras, numa tarde vazia como esta de hoje e o sol incendiará novamente sua alma, e seu sorriso atravessará o largo do Carmo novamente! Acredita? Os vazios continuarão lá em alguma esquina, mas você inconscientemente os deixará ignorados. Vazios não são bons lugares para se visitar enfim!

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Intocáveis e inesquecíveis

Tão bom chegar ao cinema cheia de vontade para ver um filme super bem indicado, diferente do que vinha ocorrendo. Eu assistia dentre os ‘blockbusters’ americanos em cartaz, cheios de faz de contas viajantes demais, releituras engraçadinhas de super-heróis, muito efeito especial, muito soco, e pouca poesia, àquele que julgasse o “menos pior”. E o francês (viva!) ‘Intocáveis’ correspondeu às boas expectativas! Driss (Omar Sy) é um sujeito que não teve oportunidades, criado num subúrbio francês, mas nos ensina, ao cuidar do aristocrata tetraplégico Philippe (François Cluzet), o que deveria pautar todas as relações humanas: simplicidade, franqueza, bom humor e igualdade de tratamento. A história desta relação se dá à medida que o personagem vivido com perfeição por Cluzet, ‘Philippe’ se deixa seduzir com o despojamento do rapaz e esta nova presença traz mudanças significativas àquela casa, seus moradores e funcionários. Por outro lado o, às vezes indócil e abrutalhado, Driss é convidado pelo aristocrata à experimentar um pouco de sensatez, civilidade e compostura. Mas o refinamento para ouvir uma ópera, Philippe não conseguiu passar ao seu ajudante, e é nesta hora que você deve aproveitar para dar uma boa gargalhada junto com Driss! À essa altura, diante da bela amizade construída com abundante generosidade gratuita entre dois homens de mundos opostos, eu pessimista que sou, já estava me preparando para um fim em que me debulharia em lágrimas. Mas como pude pensar assim? O filme baseado em fatos reais, com pinta de drama é uma comédia! Enchanté! È ótima a interpretação de Driss por Omar Sy, um jovem e envolvente ator, um gigante que parece descender da linhagem do norte-americano Michael Clarke Duncan, de ‘À espera de um milagre’, falecido há pouco tempo. Enfim, a prova de que esse tipo de filme agrada muito e estava sumido das telonas, está no sucesso de bilheteria, 20 milhões só no ano passado. Eu que o diga, com a sala lotada, assisti na primeira fila, com o pescoço erguido o tempo todo, e como valeu à pena!!! Se ainda não viu, faça um favor a si mesmo, corra aos cinemas antes que um novo monstro blockbuster descartável o tire de cartaz! Embora ‘Intocáveis’ (segunda maior bilheteria de um longa francês) já tenha entrado pra lista daqueles filmes inesquecíveis que a gente gosta de citar!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Há malas que vão para o além

Dentre alguns defeitos, apegada. Nunca dei importância ao trecho do poema que eu adoro, “Instantes”, atribuído ao escritor argentino Jorge Luís Borges, que diz: ‘Se voltasse a viver novamente, viajaria mais leve’! Mas eu sempre carreguei coisas demais, não arrastava bagagens pelas rodoviárias e aeroportos, mas verdadeiros baús, tanto que vez ou outra pagava por excessos. Nos dias que antecedem viagens em ocasiões pra mim especiais, na hora de arrumar as malas, me acompanha a dúvida do que usar, a instabilidade do tempo, a minha instabilidade. Será que vai combinar? Com isso, ao invés de uma calça, acabo levando três. Espero com ansiedade peculiar às vésperas de carnaval, semana santa e fim de ano, também a terceira semana de julho em São João del Rei. São dias lindos que carregam a sina de ter as mais baixas temperaturas do inverno, com prováveis charmosas neblinas ao amanhecer. É a semana da bela festa de Nossa Senhora do Carmo, dia 16, e depois é aniversário de uma amiga muito querida, oportunidade pra reencontrar velhos conhecidos e comemorar. Sem falar que é período de férias escolares e ‘Inverno Cultural’ pipocando eventos por todos os cantos, música, teatro e dança que colorem a cidade. Então eu crio expectativas, faço planos, combino almoços, passeios, visitas e outros encontros com familiares e amigos. Pensando em cada um destes momentos vou preparando a mala. Com zelo, escolho a dedo as melhores roupas e sapatos, metodicamente, criteriosamente e bem devagar pra nada faltar, nem aquela bota, nem o cachecol, e a jaqueta nova que comprei na liquidação. Tem que ter espaço pra nécessaire com as bijuterias, a outra com os cremes e perfumes, e ainda uma terceira com toda a parafernália da maquiagem. Tudo que você quer levar tem que estar ali dentro daquele espaço retangular, para mim sempre pequeno. O volume fica enorme, precisa fechar, e eu apelo pro velho hábito de sentar em cima de tudo para compactar. Quem nunca? O resultado é a reclamação de quem carrega a mala e o limite ultrapassado para a cota que cabe a cada passageiro. Foram cobrados 40 reais por excesso de bagagem, que eu nem me importei de pagar. O que interessa é que tudo estava ali e ia chegar comigo... ou não! A gente acha que nunca vai acontecer com a gente, mas um dia você desembarca feliz por chegar ao seu destino, e fica aguardando sua bagagem desfilar na esteira. Fica aguardando, aguardando, dezenas de malas, maletas, arcas, trouxas, sacolas, embrulhos, caixas, tudo vai passando, menos sua mala, até que a esteira pára. Dói, sua mala não veio, foi deixada em algum lugar, se perdeu, caiu no buraco horrendo das malas equivocadas. Extraviou! Que desespero! E agora? No meu caso, como o aeroporto Prefeito Octaviano de Almeida Neves é (ainda!) pequeno, não há esteira, o carrinho com as bagagens chega e você logo descobre que está nua, sem bagagem, sem chão, sem um pedaço de você. Preenchi um formulário e no item que pedia para descrever o que havia dentro da mala, a minha vontade foi escrever: minha alma, minha vida, o brinco que eu mais amava, o blusa que me caía bem e a jaqueta, ah a jaqueta que eu nem cheguei a usar! Mas não somos fúteis e nem materialistas, não é? Minha descrição foi simples, roupas e sapatos. Os funcionários da empresa aérea foram solícitos e políticos, prometeram minha bagagem de volta o quanto antes. Os dias foram passando e nada, eu ligava e eles ainda sem notícia do paradeiro da mala. E cada coisa que eu lembrava que estava lá dentro era uma fincada no peito, será que eu nunca mais iria ver minhas coisinhas? Os eventos não esperaram, foram acontecendo, e foi aí que comecei a entender Borges... ‘viajaria mais leve’! Diante do andor florido que parou em frente à janela que eu estava, abraçada à minha filha que batendo palmas e balançando as perninhas assistia pela primeira vez uma procissão, fui às lagrimas. Foi uma emoção única, inesquecível, e não fez diferença alguma eu estar vestida com um casaco de três invernos atrás que achei no armário.
Porque eu sentiria falta de um anel precioso se realmente o que me era caro era a consideração da amiga-comadre, o papo com as primas, o carinho das sobrinhas e priminho com minha filha? É de valor imensurável matar a saudade de estar com meus irmãos pra um almoço de domingo ou ter a casa cheia de amigos para a ‘Noite da Batata’! A felicidade tem luz própria, e eu a irradiava quando acordava de manhã e via da janela a cidade inteira abraçada numa bruma aconchegante, ou quando eu contemplava um pôr-do-sol cor de alaranjado ardente sobre a Serra do Lenheiro. Eu tinha brilho nos olhos quando simplesmente degustava uma broa de coalhada no café da tarde ou quando eu bebericava um quentão na barraquinha e curtia, depois do último dia da novena, um bom e inusitado samba na porta do cemitério, coisas que só minha São João del Rei tem! Nestes acontecimentos eu estava iluminada naturalmente não se fazia necessário o truque de passar em pontos do rosto o meu iluminador cremoso de marca famosa.
E então, eis que surge, três dias antes do meu regresso, a mala! Pesada, gorda, com tudo dentro! Senti alívio, não vou negar, mas eu já estava leve com alma lavada, e jurava pra mim mesma que dali em diante ‘viajaria mais leve’! Bom, tsc, mas isto é assunto para outra viagem, não para essa de retorno! É que eu carregava, além de todos os meus pertences, quatro pacotes dos cafés são-joanenses, Tamandaré e Soberano, para reabastecer meu estoque até a próxima vinda pra terrinha. Com esta valiosíssima carga a mais, não gosto nem de imaginar minha mala extraviada novamente! A prática do desapego, meu caríssimo Borges, fica adiada para o inverno de 2013! Foto 1: Ana Helena presenciando pela primeira vez a procissão de Nossa Senhora do Carmo por Bia Viegas Foto 2: Projeto ‘Samba na Praça’por Guia das Vertentes