No início dos anos 90, quando eu tinha 20 e poucos anos, uma amiga me chamou para uma viajem de excursão com uma turma de professores. O destino era Fortaleza, no Ceará, íamos de ônibus, coisa de um dia e meio de viagem. Uma aventura com baixo custo, e uma grande empolgação de conhecer as praias daquele estado. A viagem que já parecia cansativa, ficou ainda mais quando o ônibus quebrou no início da Bahia, atrasando meio-dia de viagem. Para mim, uma jovem que só conhecia as praias de Piúma e Cabo Frio, tudo valia a pena! Ônibus concertado, seguimos viagem. A grande expectativa do caminho era atravessar o Rio São Francisco, tão famoso dos meus livros de geografia! Lembro de passar por uma grande ponte e ficar maravilhada com tamanha extensão de água, um tom de azul que parecia
mesmo um mar. Logo depois de atravessar o famoso rio, paramos na cidade de Salgueiro, Pernambuco, ainda no Vale do São Francisco. A parada era muito simples, como todas aquelas cidadezinhas do interior por onde passávamos. Lanchamos e voltamos para o ônibus. Um dos passageiros, um militar aposentado muito simpático e brincalhão, voltou da parada com um copo descartável na mão, feliz da vida, saboreando uma iguaria local. ‘Vocês não fazem ideia do quanto isto está bom’ e ia mostrando o conteúdo do copo para os curiosos. Tratava-se de um caldo de tom avermelhado, grosso e gorduroso, de cheiro muito bom. ‘É buchada de bode e está uma delícia, vocês tinham que provar’ dizia ele sorvendo em colheradas o tal caldo. Salivei, mas não tive coragem de provar.
Então foi isso: região do Rio Francisco = buchada de bode. Pegou a referência? Eu peguei!
Ainda nos anos 90 comecei a acompanhar o bloco do Copo Sujo, levada pela Fabiana e a Lu, irmãs mais velhas das amigas. Era ainda um bloco pequeno, que descia do Bonfim do outro lado da igreja de São Francisco. Alguns anos depois meu irmão também começou a acompanhar o bloco, e me falou entusiasmado, dos sambas antigos que eram cantados durante o trajeto, eram da extinta Escola de Samba São-joanense “Qualquer Nome Serve” (QNS). Foi aí que tive o primeiro contato com o samba “Vale do São Francisco” de 1974. E de tanto ouvir aquele samba lindo, decorei a letra, só de ouvir! Depois ganhei o CD da QNS, “Um sonho em vermelho e branco” e segui ouvindo o samba do Rio São Francisco, mas sem encarte com a letra impressa para acompanhar, continuei cantando a letra como eu bem achava. Deste modo, no dia do bloco, eu estava com a letra na ponta da língua, e com algumas cervejinhas já ingeridas, me dependurava na corda perto dos ritmistas da bateria, me gabando de cantar o samba que nem todo mundo conhecia. Enchia a boca e cantava bem alto… “tem marujada, maculelê, tem “BUCHADA DE BODE”, tem cateretê” ahhh que alegria cantar este samba antigo!!! Nem tudo da letra eu sabia o significado, marujada, maculelê, cateretê… fazia uma ideia só. Mas a buchada de bode, ah essa eu conhecia da região do São Francisco, já tinha passado por lá e visto com meus olhos, lembrava bem até do cheiro!
O tempo passou e todo ano no bloco do Copo Sujo lá estava eu, possuída pelo meu eu “Maria Bateria” (no bom sentido!) dependurada na corda, cantando orgulhosa, junto aos ritmistas, a minha “buchada de bode”! Mas… mal sabia eu o que me esperava na estante lá de casa: num belo dia achei o livro “Subsídios para a História do Carnaval de São João del Rei“ de Jota Dangelo. Um livro incrível cheio de história de bastidores e informações dos gloriosos carnavais de 1950 a 2000. Eu estava me deliciando com as histórias e de deparei com a descrição do carnaval de 1974, o enredo do Vale do Rio São Francisco, onde o autor conta, dentre outros detalhes, que naquele ano a QNS não competiu, que ele, compositor do samba, não achava que a melodia tinha empolgado tanto a avenida durante o desfile, mas que achava interessante como o samba caiu no gosto dos são-joanenses ao longo dos anos. E aí vinha descrita também a letra do samba! Ah que legal, tinha a letra finalmente, e aí que eu fiquei sem chão!!! No lugar da buchada de bode, li que na verdade era “PUXADA DE REDE”! Que vexame! Claro, Cacá!!! “Tem marujada, maculelê, tem “puxada de rede”, tem cateretê”! Estamos falando do Vale de um grande rio, e trajeto deste rio, com suas tradições, até onde encontra o mar, onde tem peixe e onde várias famílias ribeirinhas e de aldeias de pescadores sobreviveram (e sobrevivem) da pesca, do ritual da puxada de rede, e não da buchada de bode! Mas é que eu, que adoro uma dobradinha, fiquei foi aguada para experimentar a buchada de bode que nunca me saiu da mente! Então a todos os ritmistas, e puxadores de samba do bloco Copo Sujo, que com certeza devem ter ouvido em algum ano a doída “buchada” no lugar da “puxada”, e também ao autor, nosso talentoso compositor Jota Dangelo, peço humildemente desculpas, desculpas de uma empolgada, mas atrapalhada foliã que cantou errado este samba, por tantos anos, descendo a ladeira da Ribeiro Bastos! Eu que só queria exaltar a alegria de cantar um samba nosso, tão bem cadenciado, belíssimo, de letra tão linda que até hoje (mesmo extinto o Copo Sujo), embala a multidão nas ruas históricas da nossa terrinha em dias de carnaval, com intérpretes do bloco Unidos da Cambalhota e da Chácara!
Termino aqui a confissão do meu mico momesco, reforçando meu sincero pedido de perdão [risos]!
Na sequência, a encantadora letra correta (!) do samba da QNS de 1974, “Vale do Rio São Francisco”.
Vem como um risco de prata
Lá da serra Canastra
Vai em busca da mata
Rio São Francisco
lendas, tradições do meu País
barranqueiro, ê gaioleiro,
canta o teu canto que diz:
Ê, ê, ê - ê a, a
olha o rio correndo pro mar
Como vai menina, tá boa?
Quede a sua trança, morena?
Vê se prende nela a canoa,
que é pra me prender
A sandália dela é de couro,
A Sinhá tem brinco de ouro,
ela veste chita e Sá Dona
veste cetinê
La-la-ia-la-ai, la-la-ia-la-ia, la-la-ia-la-ia, la-ia-la-ia
Segue cortando a Bahia
olha o congado e o Boi Andá.
Festa do Divino,
repica o sino em comemoração,
Alagoas, Sergipe,
é onde o mar encontra o seu irmão,
tem marujada, maculelê,
tem puxada de rede, tem cateretê.
Marinheiro sou, marinheiro,
vim buscando o mar, meu navio,
vim subindo as águas do rio,
vim só pra te ver,
marinheiro sou, marinheiro,
Marinheiro sou, marinheiro,
marinheiro sou, marinheiro
marinheiro sou.
📸: Capa do livro de Jota Dangelo
O relógio holandês da matriz fez soar doze pancadas! Meia-noite. Espere, espere, calma! Que pancadas são estas? Alguém percebeu que elas estão aceleradas? Preste atenção! Estão sim! Quem reajustou isto? Que agonia! Não se pode mudar o ritmo deste marcador do tempo são-joanense! Ou pode? Só porque é uma tradição? Só porque é como eu ouço desde pequena e não quero que mude nunca? Algumas coisas mudam...
O tempo não acelera como nas marteladas no sino da torre esquerda da Matriz, mas é implacável. Disse Caetano na canção 'Oração ao Tempo':
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo, (...) é um dos deuses mais lindos. Ele "é" contínuo, corretíssimo em ser contínuo!
E como atrelados ao ciclo do tempo nós estamos, fomos sentenciados às modificações físicas e também nos foi permitido a evolução intelectual, as etapas da adaptação, a nos moldarmos, nos foram dadas estas inconvenientes rugas e abomináveis fios brancos mas também outras possibilidades. O colágeno se despediu e partiu, o metabolismo diminui o ritmo, a gordura localizada se instalou de vez no abdômen, até no braço rente ao cotovelo. E o relógio da matriz continua a lembrar: O tempo é contado, contínuo, e agora acelerou suas pancadas!
Não tenho dúvidas que tens agora todas as incertezas, e isso, acredite, é sabedoria. Porque o tempo passado te fez amadurecer sem ainda cair podre ao chão. Você está quase no ponto de colher e ser apreciado. É o tal queijo gorgonzola de que fala a atriz e escritora Maitê Proença. Há de se aceitar, resignar-se, afinal algumas mudanças vieram pra ficar. Outras se reciclam e voltam!
John Lennon por exemplo, regressou à esquina do Kibom com seu violão cantando 'All you need is love'! Em outras proporções é verdade, mas ele está de volta! E o que dizer da Rua da Zona? Num passado não muito distante foi tão difamada, descriminada por ser a rua onde se localizava o baixo meretrício da cidade, pequenos bordéis e prostíbulos. O tempo passou, tudo se acabou e hoje está revisitada, reformulada, cheira a tinta fresca, tem polêmica, tem restaurante, Centro de referência da música, centro de artesanato,
studios e até galeria de arte! Neste Inverno Cultural foi o grande ponto de encontro de artistas, turistas, gente bonita, pensante, interessante, gente nova que eu nunca vi, em movimentadas noites de boêmia
cool! Isso que é levantar do chão de paralelepípedos, sacudir a poeira e dar a volta por cima com todos os lampiões, sinuosidades e casarios lindos e coloridos desta interessante rua da Cachaça!
No Largo vizinho, uma procissão com Nossa Senhora de roca ou de madeira, antigos registros em preto e branco ou sofisticadas imagens feitas com drone, revelam que a fé é a mesma, não importam as mudanças! Qual algodão-doce e pipoca, tem o mesmo sabor de sempre!
Sei não, mas parece que não faz mais tanto frio nestas noites de julho, acho que o vento perdeu as forças e parou de uivar. Algumas coisas estão diferentes, no meu e no seu coração. Mas continuamos indo aos shows de boas bandas no Inverno Cultural, com a alegre turma de amigos de sempre.
Se está para acontecer uma grande mudança, entre na dança, na roda, não adianta muito ser do contra, se manter inflexível. A vida é salpicada de açúcar (pra mudar docemente) ou sal (pra mudar com força) e assim vai até a mudança definitiva, aquela da passagem do material para o espiritual, tão amarga para quem fica. Enquanto ela não chega, para todo inesperado desvio de rota, tenha peito aberto, experimente os novos sabores, tenha olhos curiosos e mente esponja! De mala e cuia para outro país ou enchendo mais um caminhão e partindo para outra cidade, salve a 'mu-dança' e toda a renovação, desapego e movimento que ela traz!
As pancadas das horas do relógio da matriz sempre teremos! Sentidas de pertinho ou imaginadas nos ouvidos aguçados do são-joanense que está longe! Se elas estão mesmo aceleradas? Não sei, pode ser só impressão... de que alguma coisa mudou!
Foto: Rua da Cachaça em noite de Inverno Cultural 2015, por Babi Diláscio
Vou mesmo escrever sobre o longa “50 tons de
cinza”? Ousarei? Logo eu? A menina que cresceu no interior da virtuosa Minas
Gerais, numa cidade colonial de antigos costumes preservados, numa rua ao lado
da Catedral, sob o olhar vigilante do vigário mais tradicional da cidade, que
teve a educação religiosa mais rígida nas salas de catecismo com a professora
mais severa que já existiu? Logo eu, católica praticante, que vai a missa
sempre, que carrega um terço na bolsa, que adora uma procissão, uma romaria,
uma festa de santo padroeiro? Eu, toda introspectiva de olhar sério, que exibe
na sala de casa um oratório onde não tem mais espaço pra nenhuma imagem de
Nossa Senhora, que tem tatuado nas costas o escapulário de Nossa Senhora do
Carmo (tatuado!), e que atende pelo mesmo nome da mãe de Jesus??? Tímida e que,
como a protagonista, ruboriza a toa?... Vou escrever sim!
Adélia Prado tem um adorável questionamento: “De que
modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?”
Mas no caso do livro, e agora filme, acho que não se trata de ser doida (ou
santa!) para ler, gostar, assistir e comentar com as amigas entre risinhos. É
literatura e não adianta torcer o nariz, franzir a testa, porque literatura pra
mim é arte, e arte é algo que te toca, te inquieta, te desconcerta, seja pela
forma de atração ou repulsa! Se o livro ou o filme é raso, é profundo de alguma
forma ao sensibilizar os milhões de leitores, expectadores e adoradores de
Cristhian Grey e Anastasia Steele. E.L. James não é Adélia Prado, mas eu gostei
do livro e do filme também! No entanto só vejo as pessoas comentando mais por
causa das cenas de sexo, e dos estranhos métodos de prática que envolve o ato.
É obvio que as tais cenas são intensas e ninguém deve ficar totalmente à
vontade na poltrona do cinema, por outro lado vi mais que isso! No livro então
muito mais, me chama a atenção uma narrativa muito bem feita e que ainda
envolve outros dois narradores secundários, a ‘deusa interior’ e a
‘consciência’ que travam conflitos interessantes ao longo da trama. Mas talvez
todo o lado apimentado da coisa chame mais atenção pelo apelo diferenciado,
extremamente sedutor, que muito foge do casual, do habitual, é o irrecusável
convite da fantasia, da dupla ‘cavalheirismo encantador’ e ‘brutalidade
repugnante’, do que há de mais secreto e instintivo nos pensamentos de cada um.
Não, não, não! As mocinhas que suspiram por Christian Grey não querem tapas,
puxões ou surras (só as muito doidas!), elas querem o lado explícito, cordial e
totalmente apaixonado do personagem. O resto, ah todo o resto você sabe bem,
guarde em algum lugar mais escondidinho da sua memória, talvez possa ser útil
para relembrar durante um ‘clímax’ da vida!
O que ficou mesmo do
que eu li e assisti (e ainda espero assistir a sequência) é uma história de
amor triste, das mais intensas e antigas, porque envolve exatamente dois dos
ingredientes clássicos do gênero: duas pessoas que se amam muito, mas que por
algum motivo seja ele atípico, estranho, racional, acaso ou trágico, não vão
ficar juntas para sempre!
Pode parecer meio
mórbido, muitos não vão entender e podem me julgar, mas velório também é um lugar
que dá fome. Desculpem-me todos os falecidos, os meus mais sinceros respeitos e
saudades, espero que estejam todos gozando da paz celestial.
O costume é antigo, bem
mineiro, mas com ocorrência também em outras regiões do país, e principalmente
em áreas rurais: servir quitandas durante as noites em que se velava o morto,
para dar sustança aos presentes que muitas vezes viam de longe. Tem até livro
de receitas com o tema, ‘Os comes e bebes nos velórios das Gerais e outras
histórias’ de Déa Rodrigues da Cunha Rocha (Auana Editora), traz 21 receitas e
18 histórias sobre a tal tradição.
E mesmo que os atuais
velórios não se estendam mais à noite, o costume ainda persiste em pequenas
cidades do interior. Tradicional como ela só, São João del Rei ainda guarda
este hábito.
Após a confirmação do
local do velório do ente querido, alguns familiares e amigos próximos, já providenciam
duas garrafas de café, uma já adoçado e outra não, e para acompanhar roscas, pães,
biscoitos, bolos, e toda sorte de produtos das nossas fartas e tradicionais
padarias são-joanenses.
Eu comecei a reparar
nesta tradição no triste dia que levou, inesperadamente, meu pai. O velório
teve início no começo da noite e foi se estendendo madrugada adentro. De vez em
quando alguém dizia ao pé do meu ouvido, ‘você precisa comer alguma coisa, vai
lá na copa, tem café, biscoitos’... Eu achei aquilo estranho, mas fui lá e me
servi de um forte café e comi algumas rosquinhas de polvilho, é o que recordo,
e fiquei pensando qual das minhas bondosas tias teria tido esta preocupação de
abastecer a copa, levado aquele café e aquelas rosquinhas.
Certa vez, num outro triste
dia, no velório do pai de uma amiga muito querida, eu fiquei impressionada. A
família era muito grande e com vários parentes fazendeiros de São Tiago, cidade
próxima e conhecida como a ‘terra do biscoito’. E essa fama da cidade ficou
evidente quando um dos parentes chegou num Gol daqueles antigos ainda
quadrados, abriu o porta-malas e tirou de lá sacos enormes com todo tipo de
biscoitos que se possa imaginar. Mais tarde, num dado momento, com a desculpa
de ir ao toalete, fui até a copa conferir os tais biscoitos. E eram realmente
deliciosos, diversos, abundantes, doces e salgados, uns mais durinhos, outros
de desmanchar na boca!
Numa outra tarde
muito dolorosa, velávamos minha mãe, no pequeno velório do Carmo, que não havia
copa. Entre uma conversa e outra, sussurros e lágrimas, uma amiga sugeriu
comprar alguma coisa pra comer na padaria do Carmo. Eu achava que nem estava
com fome, mas quando ela voltou com um pacote de ‘enroladinho de presunto e
queijo’, não resisti. E fomos aos poucos esvaziando o pacote, ao final restava
apenas um, eu e esta minha amiga, nos entreolhamos numa pergunta calada: ‘quem
fica com o último’? Fiz uma cara de filha que perdeu a mãe, e minha amiga não
teve alternativa senão me oferecer aquele último salgadinho. Você já provou o
enroladinho de presunto e queijo da padaria do Carmo? Não? Pois então prove, a
vida é uma só! Este da padaria do Carmo, tem no recheio além do presento e do
queijo, salsinha no lugar de orégano, que na minha opinião, faz toda a
diferença.
Quando faleceu a mãe de
uma outra amiga muito querida, eu estava fora de São João del Rei e cheguei às
pressas no velório recém-reformado da Confraria de Nossa Senhora das Mercês,
cansada da viagem e com fome. Após consolar a amiga, escutar as conversas de
como tudo se deu, me informaram que na copa eu poderia fazer um lanche. Não
aceitei prontamente, claro, mas mais tarde, com a desculpa do toalete... Foi
nesta ocasião que provei uma inesquecível e perfeita combinação de um
maravilhoso pão de queijo com mortadela! Era um pão de queijo muito macio, destes
mais tradicionais, feito com legítimo polvilho azedo e pedações generosos de
queijo bem branquinho. Dentro, finíssimas, quase transparentes, fatias de
mortadela da boa, dessas que você pede ao funcionário da sessão de frios para
cortar beeeeem fininha e ele te lança um olhar intolerante. A dupla casou muito
bem, qual goiabada com queijo e olha que eu particularmente nem aprecio muito
mortadela. Mais tarde ouvi alguém comentando que o delicioso pão de queijo foi
feito pela senhora Nair Said, uma velha amiga da falecida, muito conhecida na
cidade por sua bondade, educação, elegância e dom com as quitandas caseiras.
Recentemente subiu
aos céus um anjo, a tia de uma amiga, que era como uma segunda mãe para ela. O
velório que aconteceu no São Francisco, estava cheio de parentes e familiares,
e já quase na hora do enterro, precisei ir ao toalete... Na copa, tomei um
cafezinho bem forte e descobri que atualmente a própria funerária se encarrega
da merendinha, o que deixa tudo um pouco sem graça. Mas me deparei com uma mesa
razoável, um bolo simples, alguma outra coisa que não me lembro, e um prato com
um tipo de salgadinho que me chamou a atenção, não sei bem se era uma rosquinha
ou um salgadinho com algum tipo de recheio. Eu precisava conferir aquele,
estiquei o braço e quando já estava prestes a pega-lo, alguém me puxou o braço.
Era a irmã da falecida, mãe da minha amiga, ela estava preocupada com a filha
que chegara de viagem e pediu que eu a chamasse para comer alguma coisa ali na
copa. Atendendo ao seu pedido fui atrás da amiga que disse que já havia
lanchado na estrada, e então eu fiquei sem graça de retornar à copa, fiquei só
no cafezinho e na vontade daquele salgadinho-rosquinha que eu jamais saberei de
fato o que era.
Quero deixar claro
que não aguardo o próximo velório para conferir a copa, por favor, longe de
mim. Gosto muito de levar meu abraço a quem carece nestas horas, de verdade, de
coração, é um carinho que conforta como eu mesma já pude sentir nas ocasiões
que faleceram meus pais. Desejo muita saúde a todos que me cercam!
Eu amo viver e não
gosto de falar do dia em que eu deixarei este plano, mas me agradaria muito que no
dia da minha despedida, os familiares escolhessem um velório com estrutura de
copa, e que alguém se encarregasse de montar uma bela mesa ali, com bolos bem
feitos, biscoitos de desmanchar na boca, broas macias, pão de queijo com fartos
pedaços de queijo, salgadinhos tradicionais e um café muito cheiroso! Assim sendo eu não
sei se vou conseguir me segurar e quem sabe eu não me levante do caixão para um
ultimo deleite...

Somos o resultado do nosso meio, das nossas vivências e também das nossas preferências. Nosso modo de relacionar é moldado assim também e contém deslizes, etapas de sensatez, momentos intempestivos e atitudes erradas e outras certas, momentos de reflexão intensa e que podem tanto acarretar em bons resultados ou verdadeiros desastres. Mas o pior ( ou necessário) fator de desequilíbrio é a paixão, e eu me rendo, confesso de joelhos como em um confessionário do século XVIII na sacristia de uma tradicionalíssima igreja barroca do interior de Minas: Sim! Sou movida por paixões! E nesta semana estou apaixonada... Pelas eleições para presidente em segundo turno! Estou achando tudo extraordinário, mas também pesado e tenho críticas à respeito principalmente nas redes sociais (uma outra paixão minha). Mas o saldo é positivo eu acho, porque mesmo aos trancos e barrancos estamos exercendo a cidadania, estamos fazendo o que deve fazer um eleitor em vésperas de votação e aos mais atuantes e engajados estamos em campanha pelo voto dos indecisos e ainda outros mais audaciosos em busca de reverter um voto adversário. Fantástico isto, mas... somente até o momento da luta no âmbito das ideologias, quando esgotados os argumentos racionais, vem ela, a paixão falar mais alto e é aí que muitos escorregam (até eu, sim!), nós viramos de costas, usamos de agressividade, alguns de palavreado baixo, e atacamos na esfera do pessoal com ofensas imponderadas, externando essência primitiva, expondo a inveja às vezes, aquelas guardadas à sete chaves da tolerância nas profundas gavetas das iniquidades.
Mas voltando a minha paixão, como boa apaixonada leio tudo sobre as eleições, cada opinião, e veja bem, leio com cuidado opiniões favoráveis ao meu candidato e desfavoráveis também, cada texto polêmico de blogueiro polêmico partidário e apartidário (que são poucos), acompanho pesquisas e suas interessantes margens de erro, fico nervosa em debates na TV. Leio também o que sai na imprensa e esta parte é das mais tristes porque ela deveria ser isenta, como aprendi na faculdade, mas ela anda pobre e medíocre. No entanto é na loucura das redes sociais onde mais mergulho, e absorvo tudo, as artes em design tosco, as mais primorosas e inteligentes àquelas onde erraram feio na informação, no checar dos dados, e foram compartilhadas automaticamente. Tem de tudo! Tem o 'preto no branco' pra conferir pronunciamentos ditos com verdade nos olhos que não passam de mentiras descaradas. E alto lá, tem 'preto no branco' favorável a cada candidato porque como já disse a isenção na imprensa passa longe. Fantástico! É uma corrida maluca onde a maioria já escolheu um dos pilotos, e os defende aguerridamente porque foram escolhidos de acordo com suas convicções que por sua vez foram construídas a partir das suas vivências, do meio em que você viveu e das suas preferências. Numa destas leituras de depoimentos próprios (aqueles que dou mais atenção porque vieram de um pouco de reflexão pessoal mesmo que contenha algum índice ou foto de compartilhamento), uma professora quase me conquistou, ela chamava a atenção para a distorção exagerada, para a manipulação a todo custo, mas no fim, veio o desastre, ela declarou seu voto e fui analisar o porquê. O porque da maioria da classe médica ter escolhido um candidato é a mesma coisa da maioria dos professores terem escolhido o outro. A mesma coisa no fundo! Escolhas baseadas na vivência, no meio, nas preferências, nos estudos que fizeram durante a vida, dos autores que se identificavam e leram sempre, é individual, é e sempre foi consciente ou não um voto egoísta. Consciente ou não! Nós assimilamos o que nos convém de acordo com nossa bagagem, de acordo com nosso nível de conhecimento e acesso a este conhecimento, uns com mais capacidade, outros com menos. Somos todos diferentes e iguais ao mesmo tempo. No fim a minha verdade é igual a sua verdade e embora sejam diferentes verdades não somos mentirosos. Acreditamos na nossa certeza do que elegemos ser o melhor para nós e ao país ao mesmo tempo, equação longa daquelas que o x foi obtido de acordo com os anos vividos. Esta é nossa maior influência, o resto é blábláblá, mimimi. Desde que consciente e jamais vendido, não existe voto errado. Mas existe voto certo! Qual é o certo? Daqui a quatro anos conversaremos novamente sobre o assunto, isso se eu estiver apaixonada! Ah claro, e depois de quatro anos ainda assim poderemos discordar...
Dividindo o ar e
rompendo as vertentes ela vem fumegando, dançando em
trilhos, há exatos 133 anos!
Impávido e estático
muro de rocha, ele espera silencioso desde sempre.
Ela anuncia sua
passagem em bruma leve das paixões que
vem dentro... E com o estridente
som de seu apito talvez faça um chamado.
Maria: Velha louca
e menina ativa, locomotiva!
À vapor, à amor é
movida, de partida, serpenteando o vale, ritmada qual batida de coração.
José: Disciplinado,
altivo, de quartzito, em tons negros e azuis, sublime elevação!
Uma grande concha
ou talvez uma onda petrificada, no seu lugar ele a vê passar em curva!
Maria, uma
composição, alguns vagões, emoções, acenos e tantas saudades.
Vai e volta, até a
estação, de Tiradentes, de São João del Rei.
Ele, quieto, admirando,
zelando, compondo a paisagem da linha de ferro. Entre os meses de agosto e
setembro, oferta a ela buquês em forma de majestosos ipês amarelos, assim é
José.
Maria,
Maria,
É
um dom,
Uma
certa magia...
em brasa
Uma
força que nos alerta...
e carrega
Uma
mulher que merece
Viver
e amar
José, José
É uma moldura
Um certo guardião
da vila
Uma fortaleza que
nos abraça e abriga
Um ser que merece
Viver e desejar
Em alguns instantes
convivem no mesmo cenário, ela fugaz, ele constante.
José e Maria, um
par divino, e entre eles um leito de rio, de nome ‘das Mortes’, é testemunha.
Eu sei, todo
são-joanense e tiradentino também, embora afastados,
eles se completam
exatamente naquela curva porque assim quis a geografia!
Maria,
Maria
É
a dose mais forte e lenta
De
uma gente que rí
Quando
deve chorar
E
não vive, apenas aguenta
José, José
Uma energia que nos
alenta
De um gigante que
chora (cachoeira)
Quando deve ser
sólido
E não caminha,
apenas enfeita
Maria é Fumaça!
José é São e também
Serra!
Apenas isso e esse
trem todo!
Foto1:Trilhos de Minas
Foto2:Revista Sagarana
Foto3:Luis Macedo
Eu já fui dona da lua! É isso mesmo, a lua era minha, em todas as fases, mais especificamente a lua cheia e todo seu brilho envolvente, todo seu misterioso poder. Era eu quem apontava e dizia, vem cá, olha que linda a lua esta noite! Eu era soberana diante daquele disco de prata e a exibia orgulhosa. Era meu código, meu trunfo, um elo, uma sempre testemunha, uma mensagem, uma admiração mútua, uma vã certeza, uma esperança, a realidade do sonho, um sentimento satélite, uma poesia, um olhar, uma busca, um segredo. E como assim ela não é mais minha?
Pois a vida expôs as escolhas cruéis, a sociedade fez sua pressão hipócrita e o tempo foi implacável como é. Eu não estava pronta para ter a propriedade da lua e talvez nem ela estivesse pronta para ser minha (minha?!). Ela se escondeu na nuvem da dúvida, durante a tempestade das vaidades. Ela foi encoberta pelas mangueiras do jardim da solidão, e eu ainda fechei a janela para o rastro do seu brilho não me alcançar, tamanho era o medo do incerto!
A lua pertence aos amantes, aos que seguem o caminho que dita o coração, aos corajosos de plantão! Hoje ela ilumina outro rosto, está sobre outra sintonia, mesmo que o céu seja o mesmo, que sua órbita esteja inalterada, a lua inspira outro sussurro, acelera outro coração, invade outra alma. Eu aceito a condição e fico com as estrelas (e estrelas não são migalhas!), a lua já não me pertence mais. Mas um dia foi minha, legalmente e naturalmente, e ela reinou nas minhas noites, ela vigiou meus sonhos para torná-los real, eu lembro bem e essas coisas não se esquece. Vai lua cheia, a revelar as entranhas, a saudar os telhados, a pratear o córrego, a varrer os campos, a despertar as paixões, que eu na condição de ex-proprietária, não posso sentir inveja dos que a possuem agora (e talvez pra sempre) no olhar, só desejo que continue a ser chama suave entre os abraços e faça muitos outros amantes conhecerem a plenitude dos bons momentos!
Segunda-feira
de carnaval (de um ano de sua preferência).
A música
ritmada por tambores inebriava os foliões que se lançavam à chuva de confetes sob
uma noite pontilhada de estrelas e carregada de suspiros e brisas amenas. Em
meio a multidão, uma Colombina vive sua fantasia e sorri naturalmente, é
carnaval, o salão do clube está cheio de alegria. O par da menina, claro, é um
altivo Pierrô. Os dois vão dançando
enlaçados ou sambando lado a lado, se cortejando e compondo aquela atmosfera. Uma
história está para ser contada, para alguns se tornará uma lenda...

Eis que de
repente, o som de muitos guizos desconcerta os olhares. Os sinos adornam a
fantasia de um garoto que adentrou o baile, é o colorido Arlequim, vestido de
desordem e liberdade. Ele tem o brilho das coisas verdadeiras, o amor lhe cerca
e o banjo lhe completa. Os aguçados ouvidos da inveja rapidamente o ouviram e
olhos medrosos o avistaram. Como num truque barato, malvado, assaltado pela
insegurança, o ciumento Pierrô muda o ritmo, rodopia estupidamente seu par e
com movimentos bruscos conduz a Colombina para fora do salão. Ela cai no
chão...
Tolo Pierrô,
foi o temor de que o sorriso do Arlequim pudesse iluminar o rosto de sua amada
ou talvez (quem um dia irá saber) de que o coração da Colombina redescobrisse a
contagiante presença do Arlequim. Mas o que se deu foi que a menina não entendeu
a insensatez, porque as coisas quando toscas não tem razão. Estava tão feliz,
apenas se deixava levar pela magia do carnaval, o que a mais ela fez? Se
perguntava com os olhinhos perdidos.
Pierrô,
palhaço triste, viu a decepção no rosto pálido da Colombina e não aguentou
fita-la mais, deixou-a ali no chão e saiu correndo com sua fantasia de covardia.
Sem graça, a
Colombina se ergueu com a ajuda de outros, tinha algumas dores, mas não sabia
onde, estava machucada, mas não havia feridas à mostra. E agora? Como voltar à
dança? Melhor descer as escadas da realidade e deixar o salão. Nem sua fantasia
esconderia sua desilusão.
Ao chegar à rua ela ouviu uma marcha sombria e
conhecida, estava prestes a desfilar na avenida um bloco típico. O cortejo era
o qual na sua infância ela mais gostava, embora tivesse enorme pavor! Era um
bloco, muito antigo, tradicionalíssimo na cidade, onde os foliões se
fantasiavam de criaturas da noite, bizarras, mal assombradas, vivos-mortos,
vampiros asquerosos, fantasmas medonhos, caveiras horrendas, almas penadas que
talvez desfilassem desde sempre, como convém às coisas eternas.
A Colombina,
exímia dançarina que dança conforme a música, sem pensar e apenas sentindo, foi
assim se juntar àquela procissão de horrores. Desfilando suavemente sua dor no
meio do bloco, foi desenhando sua coreografia, deixando cair sua mãozinha e
outrora a levantando ao som mais agudo de um clarinete (o/), como se fosse um
balé de uma pequena bailarina de antigas caixinhas de música.
E assim com
coragem e leveza, integrada estranhamente ao bloco, desceu a avenida jurando
aprender a seguir sozinha, pois passista não significa passiva! O desfile na
avenida foi sua viagem, sua catarse, um legítimo enterro daquilo que ela não
desejava mais, daquelas sensações mesquinhas, das ofensas, da solidão maquiada.
Eram todas aquelas caveiras...
O Pierrô
está chorando pelo amor da Colombina, no meio da multidão, na estrada da vida,
e sua lágrima pendente se eternizou tal como tatuagem embaixo do olho esquerdo.
O Arlequim?
Se vai ou não vai um dia tomar a cintura de Colombina numa sexta-feira,
descendo a ladeira, não importa agora. Isso é assunto para outros carnavais,
caros foliões! Já adentramos aos ritos quaresmais...

Ah esses seres únicos do centro histórico! Indivíduos mansos, incomuns, de hábitos singulares, seculares e severos consigo mesmos. Vivem rodeados de sobrados, sombras, gradios portugueses rebuscados, beiras, seveiras e sob telhados coloniais. São animais que praticam a amizade, a temperança, a bondade e a solidariedade por longos 300 anos. Os vejo caminhando sem pressa pelas ruas de tortos paralelepípedos, nas esquinas, nos becos e nas alcovas das suas casas. Habitam também torres, guardam e zelam pelas capelas dos Passos. Se refugiam em bando nas igrejas para reza de terços, missas, novenas solenes e Te Deum Laudamos (Te Deum então, adoram! Com muito ajoelha-levanta) Não que sejam, ou querem ser santos, não se trata disso, porque eles carregam sim seus pecados, seus passados e espiam uns aos outros através de janelas baixas. Às 15h das sextas-feiras, sob o dobre dos sinos dos Passos, ascendem incensos no interior de seus estabelecimentos comerciais. Alimentam-se de frangos ensopados, rapadura, pão de queijo, queijo, doces em compota com queijo, doce de leite com queijo, goiabada com queijo, bolinho de feijão, amêndoas de cartuchos, e de toda a sorte de quitandas de padarias antigas. Só tomam café Tamandaré ou Soberano, só cozinham arroz soltinho se for Albarusca e só varrem a casa com vassoura piaçava Rossi! Estranhos... Que não se tente enjaula-los em belas mansões de condomínios no Alphaville ou em impessoais apartamentos do alto Leblon! Esses seres não serão felizes, apenas sobreviverão, eles precisam de horta para cultivar rosmaninho e ora pro nobis, precisam sentir o cheiro do adobe, da madeira de demolição, do ferro fundido e da Dama da Noite. Nas procissões, orgulham-se de vestir uma opa de irmandade e carregar uma lanterna, curvar-se diante de andores e lhes jogar pétalas de rosas. Querem apreciar os fogos iluminarem o céu e ver passar a banda no final. Que ninguém os julguem como segregadores, mas é que quem nasceu no centro histórico de São João del Rei nos arredores dos Largos das Mercês, Carmo, Rosário, da Cruz e do São Francisco, tem raízes mais profundas, proporcionais à altura de palmeiras imperiais, possuem ouvidos afinados por badaladas de bronze e violinos de bicentenárias orquestras. A vida não lhes é diferente, é hora difícil e hora leve, mas a fé é tradição e esperança do amanhã assim como uma peculiar alegria simples!
É
um inverno poderoso o de São João del Rei, mas não, neve, nunca caiu! Porém um
outro fenômeno mágico enche de encantamento os lugares, nos arredores do Largo
das Mercês, campus Santo Antônio e
onde uma paineira imponente orquestrar uma chuva de painas que levarão longe
suas sementes. Assim, pairando no ar, ao sabor dos ventos, flocos de fino ‘algodão’
embelezam jardins e os caminhos, nossa neve são-joanense.
Na
minha casa tinha um travesseiro de painas, coberto com fronha já muito gasta
cujo branco já tinha perdido o tom e as tantas lavagens lhe conferiram um toque
de seda. Eu lembro de ficar ‘catando’ as sementes enquanto o sono não vinha. E
quando finalmente vinha, sonhos lindos o acompanhavam. Porque não sonho mais
aqueles sonhos antigos? Será talvez porque os travesseiros são outros? Feitos
de assustadores e misteriosos materiais sintéticos? Onde vai parar toda aquela
paina das paineiras se não mais em artesanais travesseiros de cidadezinhas?
Onde caem hoje as sementes que a paina, qual uma asa delta, carrega com a ajuda
do vento frio de julho?
Eu
já fiquei horas na janela daquele sobrado assistindo o voo daqueles blocos de
pequenas nuvens. Ou seriam pedacinhos de algodão doce voadores? Os pardais
sabiam muito bem, aquelas painas eram o aconchego do ninho, o forro perfeito
para botar os ovinhos e depois, a caminha ideal para seus filhotinhos, enfim
eram o amenizar das rudezas da vida. Por isso a pardoquinha, esperta como a natureza
a fez, ficava no telhado só observando o deslizar da paina no céu de intenso azul
e quando chegava a hora, num mergulho preciso, tomava o floco macio no bico e
levava para seu ninho.
O
sobrado ainda está lá, soberano daquela praça, mas a janela que agora tem
grades, não é mais minha. As paineiras ainda florescem todo inverno e enchem de
beleza os lugares. E os sonhos, alguns não me pertencem mais, mesmo assim ainda
sismo de sonhar. Mas há de ter um dia, do mês de julho, perto do dia de Nossa
Senhora do Carmo, quando o sol estiver brilhando forte num céu sem nuvens, e
amenizando o frio, um vento irá soprar diferente. Ele começará a bater
suavemente, fará uma curva na esquina e se tornará forte, bem diante da antiga
paineira que existe atrás do cemitério de Nossa Senhora das Mercês. Vai então soprar
com rigor e arrancar da casca do fruto do mais alto galho, um chumaço de paina com
uma semente especial, ela vai viajar e cair em solo fértil.
Assim
eu sonho, e sonhos - segundo Milton Nascimento, Lô e Márcio Borges - não
envelhecem! Eles atravessam invernos, travesseiros sintéticos, grades, são
testemunhas do brotar de outra paineira, seu crescimento ao longo dos anos e o
amadurecimento de seus frutos. Vejo tudo, sinto a maciez das painas na leveza
do ar, me reinvento num olhar da janela da alma daquele sobrado, e igual
passarinho, forro o ninho. Que o meu e o seu caminho assim seja no inverno da
jornada, repleto de pontinhos brancos encantados diante dos olhos, a plainar, a
confortar, a amenizar!
Não sabia se ia ou não, mas decidi! Vou! Eu vou para te
ouvir os sinos às 6 horas da tarde, para ver tuas ruas com o brilho dos
lampiões, eu vou porque lá minha alma canta. O caminho do Espirito Santo à
Minas é longo, dispendioso, custoso, complicado para quem vai só e carrega
consigo uma filha de dois anos. Mas teu entardecer tom laranja mesclado com
azul e cheio de poesia me conclama. Não posso passar julho sem te ver envolta
em translúcida neblina pela manhã, à tarde meu coração se enche de
contentamento vendo no teu céu a dança das pipas, e as tuas aconchegantes noites
frias me trazem estranha alegria!

Então eu vou, para rezar um terço na capela
do Santíssimo, para passear distraída e encantada por tuas ruas, recordando do
quanto fui feliz e sonhando com o quanto ainda poderei ser. Quero te respirar a
exclusiva essência barroca, num aroma que é mistura de adobe molhado com os jasmins
dos seus canteiros e centenárias madeiras dos seus sobrados. Assistir uma missa
das 10 horas nas Mercês, com homilia de padre Geraldo e abrilhantada com os
hinos tocados pela orquestra Lira São-Joanense! Vou porque tenho saudades das
quitandas que só suas antigas padarias ainda assam em forno à lenha. Vou porque
eu tenho um pedaço de mim que senta em um dos bancos da praça Barão de Itambé e
chora de saudades. Nesta mesma praça vou caminhar-te sobre tapetes vermelhos
que foram delicadamente tecidos pelas flores caídas de velhos conhecidos flamboyants!
Estou indo te olhar como estão crescendo as novas palmeiras do largo de São
Francisco, conferir se floriu teus ipês amarelos, rir com meus amigos, escutar
o vento uivando no morro do Bonfim.
E é claro, renovar meu estoque de pacotes
de cafés são-joaneneses! Vou deixar aflorar a menina que só existe quando está
nos largos do seu centro histórico e aproveitar intensamente cada minuto nesta
terrinha, com a força que só os ausentes conhecem. Vou aos shows e teatros do seu
Inverno Cultural, vou agradecer e também pedir outras graças na noite do dia
16, quando Nossa Senhora do Carmo, rodeada de flores, passará por teus becos!
Eu vou, e quem me ver passando, provavelmente de cabeça baixa (só ando assim)
apressada e encolhida num casaco, com um cachecol enrolado no pescoço, saiba
que estou em casa, poderá constatar no brilho do meu olhar que estou em estado
de graça, completamente feliz! Vou porque apesar de tanto caminhar longe de ti,
meu olhar nunca se afastou, tamanho é meu amor! Estou chegando, e bem sei que
me esperas atrás da Serra do Lenheiro, sempre!
Foto1: As torres da Matriz do Pilar, a igreja do Carmo e a neblina de inverno por
Marcinho Lima
Foto2: Queima de fogos no Largo de São Francisco durante procissão de Nossa Senhora do Carmo/2008 por KK Freitas
Nasci num simpático sobrado de tamanho satisfatório para uma
família de seis pessoas. Na sala, havia
uma estante que chegou para nossa casa doada por alguma tia. Esta estante não
era muito grande, tinha apenas três longas prateleiras de compensado revestido
que se equilibravam em seis blocos. Mas para olhinhos que veem tudo da altura
de uma criança, ela era enorme, linda, imponente, importante, cheia de classe,
design e destaque!
Muitos eram os títulos, clássicos nacionais, internacionais
, de muitos autores famosos dentre filósofos alemães, físicos americanos,
romancistas populares, escritores consagrados, premiados, edições raras. Muitos
livros infanto-juvenis, didáticos, dicionários e toda a sorte de manuais de
televisão, rádio, e dezenas de outros aparelhos domésticos e até de máquinas
industriais. Havia também os livros de autores são-joanenses, um ou outro livro
de anedotas, alguns exemplares de antigas revistas, livros de culinária, ervas
medicinais e a bíblia com capa de madeira! Não lembro de nenhum livro de
autoajuda, mas devia ter algum. E ocupando grande espaço, as rainhas das
antigas estantes: as enciclopédias!!! Sim, porque naquele tempo o senhor Google
nem sonhava em ser concebido e nos restava, para pesquisa de todas as coisas, as
limitadas páginas daqueles enfileirados e grossos livros com capas duras de
cores vivas, letras douradas e encadernação de brochura.
Era assim nossa biblioteca particular, muitas eram as cores,
as texturas das capas, os tamanhos, tudo com aquele cheiro de livro que eu não
sei explicar, só quem lê sabe deste aroma!
Quando mudamos de casa para apartamento, a estante foi
ocupar um corredor. E todos os livros continuaram conosco, crescendo cada vez
mais em exemplares, e nós em conhecimento, desenvolvendo nossas preferências e
afirmando nossas aversões. Mas o tempo foi corroendo aquelas prateleiras e um
dia a estante foi desfeita, os livros guardados em caixotes. Ora! Lugar de
livros é na estante! Livros não são apenas para serem lidos, consultados esporadicamente,
precisam ser vistos, notados para não sejam esquecidos e nem roídos por
abomináveis traças. Não que os livros sejam enfeites, não, eles são mais que
isso, tem memória, alma, presença! Engraçado que eu nunca fui uma leitora assim
tão assídua, mas conhecia bem cada um deles, sejam eles lidos por mim ou não.
Meus pais se foram, os filhos estão cada um num canto e a maioria
dos livros da estante da minha família se perdeu, o tempo os levou, viraram pó,
que triste, que pecado! Livro é bem precioso precisa ser conservado,
respeitado! Onde foram parar todos aqueles livros? Para onde foi o ’Tronco do
Ipê’ como todo aquele rebuscamento de José de Alencar? ‘Contam que...’ de
Lincoln de Souza, ’Reinações de Narizinho’ de Monteiro Lobato? ‘O caso da Borboleta
Atíria’ com aqueles olhos que tanto me olharam e eu nunca consegui ler, onde
anda? Ah que pesar, porque eu não li todos eles? Até os manuais de televisão
poderia ter lido, aprendido!
Felizmente alguns sobreviveram, foram cuidados, mantidos. Que
honra poder ter hoje, na estante da minha casa, na biblioteca particular que agora
eu monto aos poucos, a ‘Divina Comédia’ de Dante Alighieri, toda a Enciclopédia
Século XIX, adquiridos por meu pai, alguns exemplares de capa dura de Machado
de Assis, que foram da minha bisavó! Adoro folear o livro ‘Fogão de Lenha’ de
Maria Stella Libanio Christo, que orgulho da bíblia de capa de madeira e dos
livros sobre São João del Rei!!!
Se meu pai foi um grande leitor não sei, nas poucas vezes
que o vi debruçado sobre algum livro, com certeza era um manual de um aparelho
que ele ainda não dominava bem. Já minha mãe lia mais, devorava os famosos romances
populares da coleção Sabrina e também outros títulos famosos da época como a
série ‘Operação Cavalo de Tróia’ de J.J. Benítez. O fato é que na minha casa existiu uma estante
com muitos livros, e eles foram coadjuvantes na escrita da minha própria
história. Hoje sou eu que tenho esta consciência ‘estante’, coleciono e leio
livros, já tenho muitos e vou comprando mais outros porque quero deixa-los como
uma herança.
Esta semana, por exemplo, me tomei de saudades pelos livros
de Monteiro Lobato que li quando muito nova e me lembrei do quanto eles
tornaram minha infância ainda mais encantadora. Como não fazem parte dos livros
que resistiram ao desmoronamento da estante, quis comprar um daqueles títulos,
fui à internet e vi de tudo, mas um exemplar de ‘A Chave do Tamanho’ de 1962,
num sebo virtual me chamou a atenção. Parecia-se muito com aquele velho livro
da nossa estante. Então comprei, fiquei ansiosa por sua chegada, e quando ele
chegou voltei no tempo, eu era novamente aquela menina lendo encantada Monteiro
Lobato, se identificando com a Emília e suas peripécias! Que assim aconteça com
minha filha quando ela começar a ler porque a ‘A chave do Tamanho’, estará na
estante!
À viver a vida à fora e à dentro de nós, vamos percebendo desalinhos que não se aprumam fácil ou que nunca se erguerão! Estou a te falar dos vazios que não se preenchem mais, e que doem dor fina e cortante, de dia e de noite, madrugada também, e sem avisar. Recordo-te das fomes de sabores suaves perdidos no tempo, dos lugares da infância da gente que não vai voltar mais e das pessoas carinhosas, entes amados e apaixonados que se foram para lá. São manhãs amenas sem esperança de dias vivos. Vazios que não se pode preencher. Você corre tanto atrás, compra sapatos de salto alto e finas sandálias, degusta um brigadeiro e depois uma barra de chocolate e ainda um pedaço de bolo, sente dores na barriga e um vazio imenso. Como dói o abraço que não alcança aqueles braços, que triste não ouvir mais a ternura em voz, onde está o colorido sentimento que te deu forças e te elevou a face naquela bonita foto? Vazio que não se consegue preencher, não te situa em lugar nenhum, ele te expõe a tristeza camuflada, a cicatriz debaixo do queixo, e você queixa-se do dia, do tempo, das olheiras, da palidez, e se vê em melancolia, à beira do mar salgado do passado que nunca aconteceu, ou à beira-seveira de enfileirados casarios do passado que você queria que fosse agora. O seu sofá parece um barco à deriva, a sua sala um grande lago plácido que não se vê a margem, você está mudo, insatisfeito, olhar que nada vê, e coração que insiste em bater o ritmo dos desacreditados. Não se preenche vazios sólidos, aprenda! Muitos são os frutos do abacateiro, encorpados, viçosos, viscosos e outros menores que não vão gerar novos frutos porque a semente simplesmente não vai germinar ou porque no lugar da semente há um vazio, e a culpa não é sua!
E então, mágica e cíclica como somente a vida é, você estará distraída, de chinelos, de cabelo solto, conversando besteiras, numa tarde vazia como esta de hoje e o sol incendiará novamente sua alma, e seu sorriso atravessará o largo do Carmo novamente! Acredita?
Os vazios continuarão lá em alguma esquina, mas você inconscientemente os deixará ignorados. Vazios não são bons lugares para se visitar enfim!
Tão bom chegar ao cinema cheia de vontade para ver um filme super bem indicado, diferente do que vinha ocorrendo. Eu assistia dentre os ‘blockbusters’ americanos em cartaz, cheios de faz de contas viajantes demais, releituras engraçadinhas de super-heróis, muito efeito especial, muito soco, e pouca poesia, àquele que julgasse o “menos pior”. E o francês (viva!) ‘Intocáveis’ correspondeu às boas expectativas!
Driss (Omar Sy) é um sujeito que não teve oportunidades, criado num subúrbio francês, mas nos ensina, ao cuidar do aristocrata tetraplégico Philippe (François Cluzet), o que deveria pautar todas as relações humanas: simplicidade, franqueza, bom humor e igualdade de tratamento.
A história desta relação se dá à medida que o personagem vivido com perfeição por Cluzet, ‘Philippe’ se deixa seduzir com o despojamento do rapaz e esta nova presença traz mudanças significativas àquela casa, seus moradores e funcionários. Por outro lado o, às vezes indócil e abrutalhado, Driss é convidado pelo aristocrata à experimentar um pouco de sensatez, civilidade e compostura. Mas o refinamento para ouvir uma ópera, Philippe não conseguiu passar ao seu ajudante, e é nesta hora que você deve aproveitar para dar uma boa gargalhada junto com Driss!
À essa altura, diante da bela amizade construída com abundante generosidade gratuita entre dois homens de mundos opostos, eu pessimista que sou, já estava me preparando para um fim em que me debulharia em lágrimas. Mas como pude pensar assim? O filme baseado em fatos reais, com pinta de drama é uma comédia!
Enchanté! È ótima a interpretação de Driss por Omar Sy, um jovem e envolvente ator, um gigante que parece descender da linhagem do norte-americano Michael Clarke Duncan, de ‘À espera de um milagre’, falecido há pouco tempo.
Enfim, a prova de que esse tipo de filme agrada muito e estava sumido das telonas, está no sucesso de bilheteria, 20 milhões só no ano passado. Eu que o diga, com a sala lotada, assisti na primeira fila, com o pescoço erguido o tempo todo, e como valeu à pena!!! Se ainda não viu, faça um favor a si mesmo, corra aos cinemas antes que um novo monstro blockbuster descartável o tire de cartaz! Embora ‘Intocáveis’ (segunda maior bilheteria de um longa francês) já tenha entrado pra lista daqueles filmes inesquecíveis que a gente gosta de citar!
Dentre alguns defeitos, apegada.
Nunca dei importância ao trecho do poema que eu adoro, “Instantes”, atribuído ao escritor argentino Jorge Luís Borges, que diz: ‘Se voltasse a viver novamente, viajaria mais leve’! Mas eu sempre carreguei coisas demais, não arrastava bagagens pelas rodoviárias e aeroportos, mas verdadeiros baús, tanto que vez ou outra pagava por excessos.
Nos dias que antecedem viagens em ocasiões pra mim especiais, na hora de arrumar as malas, me acompanha a dúvida do que usar, a instabilidade do tempo, a minha instabilidade. Será que vai combinar? Com isso, ao invés de uma calça, acabo levando três.
Espero com ansiedade peculiar às vésperas de carnaval, semana santa e fim de ano, também a terceira semana de julho em São João del Rei. São dias lindos que carregam a sina de ter as mais baixas temperaturas do inverno, com prováveis charmosas neblinas ao amanhecer. É a semana da bela festa de Nossa Senhora do Carmo, dia 16, e depois é aniversário de uma amiga muito querida, oportunidade pra reencontrar velhos conhecidos e comemorar. Sem falar que é período de férias escolares e ‘Inverno Cultural’ pipocando eventos por todos os cantos, música, teatro e dança que colorem a cidade.
Então eu crio expectativas, faço planos, combino almoços, passeios, visitas e outros encontros com familiares e amigos. Pensando em cada um destes momentos vou preparando a mala. Com zelo, escolho a dedo as melhores roupas e sapatos, metodicamente, criteriosamente e bem devagar pra nada faltar, nem aquela bota, nem o cachecol, e a jaqueta nova que comprei na liquidação. Tem que ter espaço pra nécessaire com as bijuterias, a outra com os cremes e perfumes, e ainda uma terceira com toda a parafernália da maquiagem. Tudo que você quer levar tem que estar ali dentro daquele espaço retangular, para mim sempre pequeno. O volume fica enorme, precisa fechar, e eu apelo pro velho hábito de sentar em cima de tudo para compactar. Quem nunca? O resultado é a reclamação de quem carrega a mala e o limite ultrapassado para a cota que cabe a cada passageiro. Foram cobrados 40 reais por excesso de bagagem, que eu nem me importei de pagar. O que interessa é que tudo estava ali e ia chegar comigo... ou não!
A gente acha que nunca vai acontecer com a gente, mas um dia você desembarca feliz por chegar ao seu destino, e fica aguardando sua bagagem desfilar na esteira. Fica aguardando, aguardando, dezenas de malas, maletas, arcas, trouxas, sacolas, embrulhos, caixas, tudo vai passando, menos sua mala, até que a esteira pára. Dói, sua mala não veio, foi deixada em algum lugar, se perdeu, caiu no buraco horrendo das malas equivocadas. Extraviou! Que desespero! E agora?
No meu caso, como o aeroporto Prefeito Octaviano de Almeida Neves é (ainda!) pequeno, não há esteira, o carrinho com as bagagens chega e você logo descobre que está nua, sem bagagem, sem chão, sem um pedaço de você.
Preenchi um formulário e no item que pedia para descrever o que havia dentro da mala, a minha vontade foi escrever: minha alma, minha vida, o brinco que eu mais amava, o blusa que me caía bem e a jaqueta, ah a jaqueta que eu nem cheguei a usar! Mas não somos fúteis e nem materialistas, não é? Minha descrição foi simples, roupas e sapatos. Os funcionários da empresa aérea foram solícitos e políticos, prometeram minha bagagem de volta o quanto antes.
Os dias foram passando e nada, eu ligava e eles ainda sem notícia do paradeiro da mala. E cada coisa que eu lembrava que estava lá dentro era uma fincada no peito, será que eu nunca mais iria ver minhas coisinhas?
Os eventos não esperaram, foram acontecendo, e foi aí que comecei a entender Borges... ‘viajaria mais leve’!
Diante do andor florido que parou em frente à janela que eu estava, abraçada à minha filha que batendo palmas e balançando as perninhas assistia pela primeira vez uma procissão, fui às lagrimas. Foi uma emoção única, inesquecível, e não fez diferença alguma eu estar vestida com um casaco de três invernos atrás que achei no armário.

Porque eu sentiria falta de um anel precioso se realmente o que me era caro era a consideração da amiga-comadre, o papo com as primas, o carinho das sobrinhas e priminho com minha filha? É de valor imensurável matar a saudade de estar com meus irmãos pra um almoço de domingo ou ter a casa cheia de amigos para a ‘Noite da Batata’!
A felicidade tem luz própria, e eu a irradiava quando acordava de manhã e via da janela a cidade inteira abraçada numa bruma aconchegante, ou quando eu contemplava um pôr-do-sol cor de alaranjado ardente sobre a Serra do Lenheiro. Eu tinha brilho nos olhos quando simplesmente degustava uma broa de coalhada no café da tarde ou quando eu bebericava um quentão na barraquinha e curtia, depois do último dia da novena, um bom e inusitado samba na porta do cemitério, coisas que só minha São João del Rei tem! Nestes acontecimentos eu estava iluminada naturalmente não se fazia necessário o truque de passar em pontos do rosto o meu iluminador cremoso de marca famosa.

E então, eis que surge, três dias antes do meu regresso, a mala! Pesada, gorda, com tudo dentro! Senti alívio, não vou negar, mas eu já estava leve com alma lavada, e jurava pra mim mesma que dali em diante ‘viajaria mais leve’!
Bom, tsc, mas isto é assunto para outra viagem, não para essa de retorno! É que eu carregava, além de todos os meus pertences, quatro pacotes dos cafés são-joanenses, Tamandaré e Soberano, para reabastecer meu estoque até a próxima vinda pra terrinha. Com esta valiosíssima carga a mais, não gosto nem de imaginar minha mala extraviada novamente!
A prática do desapego, meu caríssimo Borges, fica adiada para o inverno de 2013!
Foto 1: Ana Helena presenciando pela primeira vez a procissão de Nossa Senhora do Carmo por Bia Viegas
Foto 2: Projeto ‘Samba na Praça’por Guia das Vertentes