segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Café fúnebre

Pode parecer meio mórbido, muitos não vão entender e podem me julgar, mas velório também é um lugar que dá fome. Desculpem-me todos os falecidos, os meus mais sinceros respeitos e saudades, espero que estejam todos gozando da paz celestial.
O costume é antigo, bem mineiro, mas com ocorrência também em outras regiões do país, e principalmente em áreas rurais: servir quitandas durante as noites em que se velava o morto, para dar sustança aos presentes que muitas vezes viam de longe. Tem até livro de receitas com o tema, ‘Os comes e bebes nos velórios das Gerais e outras histórias’ de Déa Rodrigues da Cunha Rocha (Auana Editora), traz 21 receitas e 18 histórias sobre a tal tradição.

E mesmo que os atuais velórios não se estendam mais à noite, o costume ainda persiste em pequenas cidades do interior. Tradicional como ela só, São João del Rei ainda guarda este hábito.
Após a confirmação do local do velório do ente querido, alguns familiares e amigos próximos, já providenciam duas garrafas de café, uma já adoçado e outra não, e para acompanhar roscas, pães, biscoitos, bolos, e toda sorte de produtos das nossas fartas e tradicionais padarias são-joanenses.
Eu comecei a reparar nesta tradição no triste dia que levou, inesperadamente, meu pai. O velório teve início no começo da noite e foi se estendendo madrugada adentro. De vez em quando alguém dizia ao pé do meu ouvido, ‘você precisa comer alguma coisa, vai lá na copa, tem café, biscoitos’... Eu achei aquilo estranho, mas fui lá e me servi de um forte café e comi algumas rosquinhas de polvilho, é o que recordo, e fiquei pensando qual das minhas bondosas tias teria tido esta preocupação de abastecer a copa, levado aquele café e aquelas rosquinhas.
Certa vez, num outro triste dia, no velório do pai de uma amiga muito querida, eu fiquei impressionada. A família era muito grande e com vários parentes fazendeiros de São Tiago, cidade próxima e conhecida como a ‘terra do biscoito’. E essa fama da cidade ficou evidente quando um dos parentes chegou num Gol daqueles antigos ainda quadrados, abriu o porta-malas e tirou de lá sacos enormes com todo tipo de biscoitos que se possa imaginar. Mais tarde, num dado momento, com a desculpa de ir ao toalete, fui até a copa conferir os tais biscoitos. E eram realmente deliciosos, diversos, abundantes, doces e salgados, uns mais durinhos, outros de desmanchar na boca!
Numa outra tarde muito dolorosa, velávamos minha mãe, no pequeno velório do Carmo, que não havia copa. Entre uma conversa e outra, sussurros e lágrimas, uma amiga sugeriu comprar alguma coisa pra comer na padaria do Carmo. Eu achava que nem estava com fome, mas quando ela voltou com um pacote de ‘enroladinho de presunto e queijo’, não resisti. E fomos aos poucos esvaziando o pacote, ao final restava apenas um, eu e esta minha amiga, nos entreolhamos numa pergunta calada: ‘quem fica com o último’? Fiz uma cara de filha que perdeu a mãe, e minha amiga não teve alternativa senão me oferecer aquele último salgadinho. Você já provou o enroladinho de presunto e queijo da padaria do Carmo? Não? Pois então prove, a vida é uma só! Este da padaria do Carmo, tem no recheio além do presento e do queijo, salsinha no lugar de orégano, que na minha opinião, faz toda a diferença.
Quando faleceu a mãe de uma outra amiga muito querida, eu estava fora de São João del Rei e cheguei às pressas no velório recém-reformado da Confraria de Nossa Senhora das Mercês, cansada da viagem e com fome. Após consolar a amiga, escutar as conversas de como tudo se deu, me informaram que na copa eu poderia fazer um lanche. Não aceitei prontamente, claro, mas mais tarde, com a desculpa do toalete... Foi nesta ocasião que provei uma inesquecível e perfeita combinação de um maravilhoso pão de queijo com mortadela! Era um pão de queijo muito macio, destes mais tradicionais, feito com legítimo polvilho azedo e pedações generosos de queijo bem branquinho. Dentro, finíssimas, quase transparentes, fatias de mortadela da boa, dessas que você pede ao funcionário da sessão de frios para cortar beeeeem fininha e ele te lança um olhar intolerante. A dupla casou muito bem, qual goiabada com queijo e olha que eu particularmente nem aprecio muito mortadela. Mais tarde ouvi alguém comentando que o delicioso pão de queijo foi feito pela senhora Nair Said, uma velha amiga da falecida, muito conhecida na cidade por sua bondade, educação, elegância e dom com as quitandas caseiras.
Recentemente subiu aos céus um anjo, a tia de uma amiga, que era como uma segunda mãe para ela. O velório que aconteceu no São Francisco, estava cheio de parentes e familiares, e já quase na hora do enterro, precisei ir ao toalete... Na copa, tomei um cafezinho bem forte e descobri que atualmente a própria funerária se encarrega da merendinha, o que deixa tudo um pouco sem graça. Mas me deparei com uma mesa razoável, um bolo simples, alguma outra coisa que não me lembro, e um prato com um tipo de salgadinho que me chamou a atenção, não sei bem se era uma rosquinha ou um salgadinho com algum tipo de recheio. Eu precisava conferir aquele, estiquei o braço e quando já estava prestes a pega-lo, alguém me puxou o braço. Era a irmã da falecida, mãe da minha amiga, ela estava preocupada com a filha que chegara de viagem e pediu que eu a chamasse para comer alguma coisa ali na copa. Atendendo ao seu pedido fui atrás da amiga que disse que já havia lanchado na estrada, e então eu fiquei sem graça de retornar à copa, fiquei só no cafezinho e na vontade daquele salgadinho-rosquinha que eu jamais saberei de fato o que era.
Quero deixar claro que não aguardo o próximo velório para conferir a copa, por favor, longe de mim. Gosto muito de levar meu abraço a quem carece nestas horas, de verdade, de coração, é um carinho que conforta como eu mesma já pude sentir nas ocasiões que faleceram meus pais. Desejo muita saúde a todos que me cercam!
Eu amo viver e não gosto de falar do dia em que eu deixarei este plano, mas me agradaria muito que no dia da minha despedida, os familiares escolhessem um velório com estrutura de copa, e que alguém se encarregasse de montar uma bela mesa ali, com bolos bem feitos, biscoitos de desmanchar na boca, broas macias, pão de queijo com fartos pedaços de queijo, salgadinhos tradicionais e um café muito cheiroso! Assim sendo eu não sei se vou conseguir me segurar e quem sabe eu não me levante do caixão para um ultimo deleite...


12 comentários:

  1. Consegui me emocionar e ao mesmo tempo sorrir... Só vc mesmo, Maria... rs. Mto bom! Vou tentar descobrir que "salgadinho" era esse... rs.

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  2. Me lembrou de uma pitoresca figura sanjoanense apelidada de 'Meia-noite', um afro-descendente, que vivia com um uniforme de maquinista que, independente do dia ou da noite, usava sempre óculos escuros. Essa figura frequentava todos os velórios da cidade sua função era fechar o caixão para o inicio do translado do corpo até o cemitério, além, é claro, de ser um frequentador assíduo da cozinha.

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    1. Muito bem lembrado Leo. Lembro dele direitinho!

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  3. Em certos lugares de Minas, além do "café de velório" aqui tão bem relatado por KK Freitas, é também comum "beber o defunto" ou "beber o morto"... Parece-me que é resquício de hábito africano, do velório da umbanda (gurufim) no qual parentes e amigos comiam e bebiam o "marufo", bebida extraída da seiva de uma palmeira. Quanto mais importante fosse o falecido, mais completo seria o cardápio de quitutes e bebidas do velório dele. Para o velório dos mais pobres era servido apenas algum biscoito de polvilho com sal, broas de milho e alguma cachaça barata. Aqui pelas "roças" dos "sertões" do Campo das Vertentes de Minas Gerais ainda é possível perceber algo neste sentido de comer e beber em velórios. Assim, é importante registrar porque, infelizmente, estes rituais ou costumes já vem desaparecendo.

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    1. Que não se percam tais costumes, no caso da comida, ela também conforta! Obrigada pela visita e contribuição!

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  4. Muito bom KK, você descreve com ricos detalhes que dá para sentir como se estivéssemos presentes nos velórios.

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  5. Adoro seus textos KK...muitas emoções em 1 minuto de leitura...Parabéns

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  6. Kk, como sempre nos oferecendo criativamente memórias são-joanenses em textos preciosos. Kk, você tira a poeira e lustra nossas lembranças

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    1. Obrigada Emilio! Sua visita me deixa sempre feliz!

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