Despede-se o mês de fevereiro, apaga-se todo o brilho de qualquer purpurina remanescente. Restam as recordações e o carnaval foi tão bom que alguns recortes ainda estão bem vivos no coração. Eu vou pensando, lembrando de outros anos e me pergunto quando aflorou esta paixão momesca. Ainda muito pequena, lembro de assistir das arquibancadas, as escolas desfilarem na avenida com meus pais, minha tia, comendo milho verde. Lembro do ano em que meu avô Lindolfo de Freitas, fundador do Rancho Qualquer Nome Serve foi homenageado na decoração da avenida com seu rosto pintado num imenso pandeiro. Lembro das matinês no Minas, as fantasias cheias de plumas. Mais adiante me vejo cortando e amarrando as pontas das fronhas velhas para vestir de gatinho. Depois os anos dos primeiros bailes, Vermelho e Branco no Athletic, e Hawaí na praça de esportes. E como parecia infinita a sexta-feira de carnaval, com o ‘Pão Molhado’ e ‘Alvorada’ no final. Foi neste ponto que em meio a tantas boas lembranças me entristeceu lembrar que a Banda do Pão Molhado não existe mais.
Era um bloco tão grande, mostrava-se tão forte, pulsante, com entusiasmo inesgotável, perene. Saia do Tijuco, arrastando uma multidão que invadia as ruas e desfilava num caminhão seu enorme pão, teoricamente molhado (seja com caldo de galinha ou cachaça), e ainda com distribuição de outros pãezinhos menores aos foliões!
Com início nos anos 70, desfilou por mais de 30 anos, mas acabou. O que faltou? Faltou passar o bastão, fazer despertar nos jovens o amor à batucada, faltou alimentar a magia de celebrar a vida com os amigos. Não faltou farinha, mas o fermento da renovação. Faltou entregar o anel de bamba a quem merecesse usar.
Não! Não ouso nem imaginar ver meus dois blocos mais queridos, ‘Copo Sujo’ e ‘Unidos da Cambalhota’ virar lembrança de um carnaval pro outro. Não! Não se pode deixar órfãos os foliões de hoje, não podemos desmerecer nossa riqueza cultural, nosso tradicional carnaval. Se a voz está cansada ensine alguém a cantar, mas veja bem, com a mesma emoção! Deixe a direção para alguém que também carregue o espírito do bloco, não cabe vaidade no samba. Deixe outro ritmista tomar seu lugar na bateria se seu braço não tem mais a mesma força pra tocar o surdo. Espontaneamente queira botar seu bloco na rua, chore sem vergonha de mostrar sua paixão, mas quando a bateria não mais te deixar arrepiado com as tradicionais paradinhas, é hora de dar um passo atrás e deixar passar à frente outro irmão ainda contagiado.
Para ser bloco de carnaval são-joanense é preciso amor incondicional e alegria, entender de harmonia, ter serpentinas e confetes escondidos em algum lugar durante o ano todo. Ser conjunto, massa, mas com algo de peculiar, seja um pão gigante ou um colchonete no chão para dar cambalhotas; um trocadilho com a ‘praia’ local; uma alegria inexplicável contida num refrão! Seus foliões podem estar de fraldas e chupetas; há de ser de faz de conta para homem vestir-se de mulher ou ainda unir a juventude pelo abadá cheio de cor. Abraçar uma respeitável velha guarda, outrora da ‘bandalheira’, com espírito infantil! Precisa desfilar na contramão da primeira hora da manhã ou protestar contra a política num deboche de que tudo continua sempre a mesma... ‘lerda’!
Não! Só não pode se deixar morrer, achar ridícula a fantasia e assim esquecê-la em casa, deixar cair pela ladeira ou da ponte da cadeia, o entusiasmo num samba menor, porque aí, não só cantaremos as lágrimas que o Roberto derramou, mas também as de centenas e centenas de arrebatados foliões. Pense nisso, você tem a quaresma, o ano inteiro, até o próximo fevereiro... se ascender!
Samba do Pão Molhado:
“Eu vim de longe só pra te ver
Dei a volta por cima e voltei pra você
Eu quero poder ainda ser feliz
Ouvir o sino da Matriz
Oh minha terra querida
Eu andei vagando por aí
Mas nunca me esqueci do meu lado verde e branco
Oh Pão Molhado
Esperei o ano inteiro
Pra chegar em fevereiro e reviver minha raiz”Fonte: Vídeo 'Bloco do Pão Molhado'
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
sábado, 10 de dezembro de 2011
Meio 'Clarisse'

Se uma ousada coragem me dominasse por completo... ah, que dia diferente seria! Levantaria da cama e esqueceria ainda dormindo a boa educação que a Dona Edna me deu e mandava logo às favas quem viesse com injustos desaforos pro meu lado. Vestiria calça, camiseta, um All Star. Não pentearia os cabelos, nem esconderia minhas olheiras com maquiagem. Falaria de futebol com muita propriedade e muitos palavrões com boca cheia, daqueles só proferidos dentro de estádio em final de campeonato. Fingiria nunca ter assimilado o rigoroso catecismo da Dona Célia Sena na paróquia de Nossa Senhora do Pilar e não me arrependeria de pecados tão bons de cometer, nem teria compaixão dos que atravancassem esse meu dia. E por suposto não esperaria benevolência divina.
Muito espirituosa e desinibida sentaria sozinha num boteco pé sujo, pediria uma cerveja e uma porção de fígado acebolado! Contaria casos extraordinários estilo ‘Floduardo Pinto Rosa’ (pai de Guimarães Rosa) para quem estivesse ao redor! Pularia carnaval sem o menor bom senso e não lembraria um instante sequer da possibilidade de uma ressaca física ou moral. Sem medo de qualquer conseqüência falaria tudo que eu sinto, pra quem eu amo e também pra quem desprezo. Traduziria minha raiva em verbetes chulos impronunciáveis a uma moça de boa família e em certos casos partiria também para murros bem acertados e chutes em traseiros merecidos, porque não? Iria decididamente despir de todo meu olhar acanhado, do véu de santinha e exibiria orgulhosa minha carcaça de escorpiana com veneno mortal.
Compraria brigas de pessoas queridas, participaria de passeatas com bandeiras ecológicas, cuspiria em políticos, e teria sempre boas respostas na ponta da língua. Vomitaria todos os sapos que engoli e ressuscitaria antigas discussões só pra ter o gostinho da frase final. Vingaria-me satisfatoriamente e com requintes de crueldade de todas as pessoas que um dia me fizeram sofrer. Desde a professora do primário que gritou comigo na aula de matemática, passando pelo fora daquele amor não-correspondido, até a amiga hipócrita que mexeu com afetos sagrados. Enfim vagaria perdida sem dar satisfações, sem estabelecer metas, sem regras, sem horários, seguindo só o coração, rumo ao futuro, até encontrar com ela, Clarisse, e obter resposta à pergunta: Valeu à pena?
P.S.: Este texto fi inspirado na crônica "Se eu fosse eu" do livro "Clarice na cabeceira" e antes de postá-lo aqui no blog percebi que havia escrito 'Clarisse' com dois 's'. Resolvi deixar assim propositalmente, como se minha Clarisse com dois 's' fosse diferente desta tão popular 'Clarice' de hoje. É como se eu fosse uma admiradora diferenciada, fosse mais íntima dela, um ato egoísta eu sei, mas essa minha 'Clarisse' é só minha! Hoje ela completaria 91 anos. Minha homenagem!
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terça-feira, 25 de outubro de 2011
Águas do Lenheiro

Quisera eu parar o tempo, estando no meio da ponte dos Suspiros, em noites de luar, e contemplar o brilho oscilante dos reflexos em tuas águas! Em harmonia e como testemunhas, os prédios da Câmara e Prefeitura, mais atrás as palmeiras do Centro Cultural do 11º-BI. Se por descuido lhe deixar cair uma lágrima de saudade, de tristeza ou de felicidade, favor conduzi-la ate o mar para que seja uma eterna prova das emoções vividas aqui. Apascenta alguma angustia minha com o burburinho de sua pequena queda ao declinar junto com a avenida, no coração de São João.
Corre córrego do Lenheiro, passa dia e noite sem pedir licença e sem cessar, desde a nascente na Serra ao desaguar em outras águas. Vedes os filhos desta terra de geração em geração, daqueles garimpeiros que de teu misterioso âmago fez surgir ouro, àqueles que inconfidente, presidente, ou simples gente somente sonharam.
Tento acompanhar-te no olhar a deslizar por este verdejante leito, placidamente, ou por vezes mau caráter, abundante e indignado quando lhe ordena os céus! Poluentes e detritos não te tirem a perenidade nem a saúde de teus peixes, nem a transparência de sua alma. Que terras clandestinas não te assoreiem as margens e percurso. Sejais sempre teimosa serpente enveredando por estas vertentes, buscando algum sentido. És encantadora praia ao nosso modo são-joanense de enxergar, inspiração das brumas de inverno e razão destas imponentes pontes de pedra com arcos romanos. Pra findar o Tijuco, te atravessa Rosário e pra reviver a lenda de quem assenta, Cadeia!
No teu destino, segues dividindo, segregando, rasgando, partindo ao meio minha cidade, és dela o sangue, a seiva, a vida que não ousou jamais descansar!
Ah, pouco me importa se és um moleque filete d'água e não há barcos charmosos a desfilar sobre tuas águas como no Sena, mesmo assim São João del Rei é, e sempre será, minha cidade luz!
É somente nas tuas águas Lenheiro, que mato minha sede de viver!

Foto 1: Luar e Córrego do Lenheiro por José Antônio de Àvila Sacramento
Foto 2: Ponte da Cadeia por Bárbara Diláscio
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domingo, 31 de julho de 2011
Sony, a babá
A babá da minha filha Aninha é uma figura! O nome dela é Sony. Ela é super na dela e muito competente no que faz, disso não posso reclamar. Ela me deixa super segura, principalmente à noite. É que às vezes estamos cansadas e o sono é pesado, pode ser que a gente não escute o choro do bebê, mas com a Sony por perto fico tranqüila, qualquer choramingo da Aninha ela avisa. Ela está conosco desde o nascimento da nossa pequena.
Mas Sony é só babá mesmo, não ajuda em nenhuma outra tarefa de casa, nada. Passa o dia todo me olhando andar pra lá e pra cá, com aquele ar meio soberbo como se soubesse a hora exata em que minha filha irá chorar. O pior é que estranhamente ela sabe mesmo, mais que eu que sou mãe, isso me aborrece um pouco. Outra coisa que me irrita bastante na Sony é uns sons estranhos que ela faz, tipo ruído de avião, e também aquele som de interferência de celular. E quando estou ouvindo música? Ela cisma em cantar junto, sabe todas as letras e imita até os instrumentos, que raiva. Pode ser implicância minha, mas às vezes eu pego ela me olhando sinistramente com uma expressão assim como quem diz: ‘Aninha pode chorar a qualquer momento, mas não foi desta vez’!
Numa destas madrugadas em claro, de chororô sem fim da Aninha, ela estava comigo o tempo todo, me fez companhia na angustia de não saber o motivo do choro. Lá pelas três da manhã, depois de muito desespero, depois de rezar para todos os santos, e de tentar de tudo, da troca da fralda à chupeta de funchicória, quando eu quase caía exausta, Aninha finalmente adormeceu. Fui aliviada dormir e sabia que a Sony estaria atenta por mim, a pilha dela é forte, agüenta a noite toda! Mas antes que eu me deitasse e apagasse a luz do abajur ao lado da minha cama, ouvi a Aninha rindo, e a Sony sussurrar alguma coisa, num timbre de voz igualzinho ao da minha já falecida e querida mãe. Era como um resto de frase que poderia ter sido: ‘Durma bem meu amor’! Aquilo me deixou arrepiada! Olhei pra Sony admirada e ela muda, imóvel, como se não tivesse dito nada. Fui, com um certo medo, até o quarto da Aninha e ela estava no berço bem serena, linda, dormindo como um anjinho, tranquila como se estivesse mesmo sob o olhar protetor e carinhoso da avó. Bom, ainda bem que a Sony nunca mais resolveu imitar a voz da minha mãe, eu hein? Mas também pode ter sido coisa da minha cabeça, efeito de tamanho cansaço e estresse daquela noite.
Enfim sou grata à Sony, mesmo com suas esquisitices, ela é fiel, obstinada, séria e até hoje nunca me decepcionou, nunca ficou sem energia, está sempre alerta, seja dia ou seja noite! Só quem já precisou de uma babá para ajudar com os filhos entende o que é a Sony pra nós. O meu marido é que vive se confundindo e a chama de secretária eletrônica! É engraçado, mas Sony é babá!
Mas Sony é só babá mesmo, não ajuda em nenhuma outra tarefa de casa, nada. Passa o dia todo me olhando andar pra lá e pra cá, com aquele ar meio soberbo como se soubesse a hora exata em que minha filha irá chorar. O pior é que estranhamente ela sabe mesmo, mais que eu que sou mãe, isso me aborrece um pouco. Outra coisa que me irrita bastante na Sony é uns sons estranhos que ela faz, tipo ruído de avião, e também aquele som de interferência de celular. E quando estou ouvindo música? Ela cisma em cantar junto, sabe todas as letras e imita até os instrumentos, que raiva. Pode ser implicância minha, mas às vezes eu pego ela me olhando sinistramente com uma expressão assim como quem diz: ‘Aninha pode chorar a qualquer momento, mas não foi desta vez’!
Numa destas madrugadas em claro, de chororô sem fim da Aninha, ela estava comigo o tempo todo, me fez companhia na angustia de não saber o motivo do choro. Lá pelas três da manhã, depois de muito desespero, depois de rezar para todos os santos, e de tentar de tudo, da troca da fralda à chupeta de funchicória, quando eu quase caía exausta, Aninha finalmente adormeceu. Fui aliviada dormir e sabia que a Sony estaria atenta por mim, a pilha dela é forte, agüenta a noite toda! Mas antes que eu me deitasse e apagasse a luz do abajur ao lado da minha cama, ouvi a Aninha rindo, e a Sony sussurrar alguma coisa, num timbre de voz igualzinho ao da minha já falecida e querida mãe. Era como um resto de frase que poderia ter sido: ‘Durma bem meu amor’! Aquilo me deixou arrepiada! Olhei pra Sony admirada e ela muda, imóvel, como se não tivesse dito nada. Fui, com um certo medo, até o quarto da Aninha e ela estava no berço bem serena, linda, dormindo como um anjinho, tranquila como se estivesse mesmo sob o olhar protetor e carinhoso da avó. Bom, ainda bem que a Sony nunca mais resolveu imitar a voz da minha mãe, eu hein? Mas também pode ter sido coisa da minha cabeça, efeito de tamanho cansaço e estresse daquela noite.
Enfim sou grata à Sony, mesmo com suas esquisitices, ela é fiel, obstinada, séria e até hoje nunca me decepcionou, nunca ficou sem energia, está sempre alerta, seja dia ou seja noite! Só quem já precisou de uma babá para ajudar com os filhos entende o que é a Sony pra nós. O meu marido é que vive se confundindo e a chama de secretária eletrônica! É engraçado, mas Sony é babá!
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sábado, 12 de março de 2011
Alma barroca, sagrada e profana
Sexta-feira depois do carnaval, é dia de trocar os cds dos compositores Jota Dangelo, Agostinho França, e outros tantos da nova geração de sambistas, pelos cds com os motetos, cânticos, matinas, laudes, e outras composições sacras dos são-joanenses como Padre José Maria Xavier e Maestro Ribeiro Bastos. É dia da primeira Via Sacra na rua, dia de contemplar a melodia dos dobres do sino dos Passos ao invés de tamborins, repeniques e tantãs de outrora. Eu sou são-joanense, adoro ser, minha alma é barroca, sagrada e profana!
Profano quer dizer tudo que não é sagrado, aquilo que é popular, da nossa gente, como as manifestações carnavalescas. Esta vertente tem raiz no fim do século XIX com os Ranchos ‘Boi Gordo’ e ‘Qualquer Nome Serve’, e mais tarde com as Escolas de Samba no século XX. Mas é chegado o tempo do sagrado, da outra vertente mais tradicional, vinda do século XVIII com a Lira Sanjoanense e a Orquestra Ribeiro Bastos. É a ocasião propícia do erudito, de se recolher contido e não mais de exibição, de desfrute, exaltação, hoje é dia também de Encomendação de Almas!

Fantasias e abadás que ontem nos vestiam dão lugar às opas roxas da Irmandade dos Passos. No lugar do bloco com seus coloridos estandartes, o cortejo da Via Sacra com sua cruz de madeira escura. As mãos que lançavam serpentinas, esguichavam espumas e jogavam confetes, agora carregam lanternas de prata e velas acesas. Aquele músico que comandava a eufórica bateria no sopro estridente do apito, passa a integrar a orquestra soprando passivamente as notas graves de seu trompete.
A imagem mágica da performance da bateria do ‘Unidos da Cambalhota’ nas escadarias da Matriz dá passagem para o desfile piedoso dos irmãos que irão refazer a via crucis de Jesus. No primeiro ato os sinos mudos nas torres apenas olham, e no segundo momento são protagonistas da devoção cristã (“pois o sineiro é o ritmista de São João!”). A paixão como sentimento que correu solta e inocentemente desavergonhada no coração dos foliões tem seu signo totalmente transformado, refletindo a dor, sofrimento e resignação pelo qual passou Nosso Senhor.

Eu sou são-joanense, do carnaval à quaresma, do samba à meditação, do enredo à oração, do ‘pular carnaval’ à contemplação, da alegria à ponderação, da razão ao coração!
Recolha-te folião, o tempo agora é de procissão, de terço na mão e não mais um copo de cerveja. Revele sua fé à luz de um lampião, abra sua alma, reconheça seus tropeços nestas ruas históricas, e peça perdão. Mas também perdoe porque todos nós às vezes sambamos na contramão e atravessamos no antigo refrão. Somos enfim todos barrocos, vivemos ainda debaixo destas telhas coloniais, cercados por paredes de adobe, mesmo que tenhamos deixado a terrinha, seguimos sagrados e profanos, são-joanenses!
Uma quaresma de reflexão, humildade, caridade, abstinência e oração para todos!
Foto 1: Bateria do bloco 'Unidos da Cambalhota' na escadaria da Matriz do Pilar, por Babi Diláscio
Foto 2: Um dos cortejos sacros da quaresma, por Adrianna Neves
Profano quer dizer tudo que não é sagrado, aquilo que é popular, da nossa gente, como as manifestações carnavalescas. Esta vertente tem raiz no fim do século XIX com os Ranchos ‘Boi Gordo’ e ‘Qualquer Nome Serve’, e mais tarde com as Escolas de Samba no século XX. Mas é chegado o tempo do sagrado, da outra vertente mais tradicional, vinda do século XVIII com a Lira Sanjoanense e a Orquestra Ribeiro Bastos. É a ocasião propícia do erudito, de se recolher contido e não mais de exibição, de desfrute, exaltação, hoje é dia também de Encomendação de Almas!

Fantasias e abadás que ontem nos vestiam dão lugar às opas roxas da Irmandade dos Passos. No lugar do bloco com seus coloridos estandartes, o cortejo da Via Sacra com sua cruz de madeira escura. As mãos que lançavam serpentinas, esguichavam espumas e jogavam confetes, agora carregam lanternas de prata e velas acesas. Aquele músico que comandava a eufórica bateria no sopro estridente do apito, passa a integrar a orquestra soprando passivamente as notas graves de seu trompete.
A imagem mágica da performance da bateria do ‘Unidos da Cambalhota’ nas escadarias da Matriz dá passagem para o desfile piedoso dos irmãos que irão refazer a via crucis de Jesus. No primeiro ato os sinos mudos nas torres apenas olham, e no segundo momento são protagonistas da devoção cristã (“pois o sineiro é o ritmista de São João!”). A paixão como sentimento que correu solta e inocentemente desavergonhada no coração dos foliões tem seu signo totalmente transformado, refletindo a dor, sofrimento e resignação pelo qual passou Nosso Senhor.

Eu sou são-joanense, do carnaval à quaresma, do samba à meditação, do enredo à oração, do ‘pular carnaval’ à contemplação, da alegria à ponderação, da razão ao coração!
Recolha-te folião, o tempo agora é de procissão, de terço na mão e não mais um copo de cerveja. Revele sua fé à luz de um lampião, abra sua alma, reconheça seus tropeços nestas ruas históricas, e peça perdão. Mas também perdoe porque todos nós às vezes sambamos na contramão e atravessamos no antigo refrão. Somos enfim todos barrocos, vivemos ainda debaixo destas telhas coloniais, cercados por paredes de adobe, mesmo que tenhamos deixado a terrinha, seguimos sagrados e profanos, são-joanenses!
Uma quaresma de reflexão, humildade, caridade, abstinência e oração para todos!
Foto 1: Bateria do bloco 'Unidos da Cambalhota' na escadaria da Matriz do Pilar, por Babi Diláscio
Foto 2: Um dos cortejos sacros da quaresma, por Adrianna Neves
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Presépio
Após algumas boas voltas pelo shopping Praia da Costa, em Vila Velha, carregando duas sacolas de presentes, bateu uma insegurança de gestante de primeira viagem e resolvi que era prudente sentar e descansar um pouco. Avistei uma cadeira e lá fui eu. Quando me joguei naquela poltrona me deparei com a exposição do lindo presépio do shopping.
Ele estava escondidinho, relegado ao final do corredor de lojas do terceiro andar, atrás da parede de uma cafeteria. Um lugar bem menos privilegiado que a movimentada praça central daquele centro de compras, onde estava montada uma gigantesca e luminosa árvore de natal, outras instalações natalinas típicas e uma pista de patinação no gelo. Mas acho que o lugar escolhido para acolher o presépio era mesmo condizente com a realidade daquela família, humilde, discreta.
Fiquei ali contemplando aquele tradicional cenário de natal, mas pela primeira vez com olhos diferentes, um olhar de quem carrega no ventre uma nova vida. Pela primeira vez via a figura de Maria com um entendimento maior, eu também estava perto de ser mãe!
O presépio representa o nascimento, um momento tão importante na vida de uma família, imagine da Sagrada Família! Eles estavam ali diante da manjedoura não só admirando o filho recém nascido, mas simplesmente o redentor do mundo, o messias!
Presépios me fascinam, desde criança, talvez seja coisa de herança, já que sou sobrinha-neta de Sebastião Teixeira de Assunção e Ivo Teixeira, os irmãos Teixeira, que confeccionaram o antigo Presépio da Muxinga.

Como é hoje passear pelo Largo de São Francisco iluminado, era uma tradição da cidade no mês de dezembro, visitar o presépio da Muxinga com suas dezenas de pequenos personagens em movimento. Os mais antigos devem lembrar-se da grande fila que se formava na rua Maestro Batista Lopes, onde moravam meus tios. A lembrança que tenho já é da exposição do presépio na avenida, ia sempre com meus pais, e recordo do meu tio sentado num banquinho e do seu orgulho quando via os parentes prestigiando. Inesquecível o instante encantado quando se colocava uma moeda na urna e os sininhos do presépio dobravam, as luzinhas se acendiam, a porta da igrejinha se abria e aparecia o menino Jesus!
Fora da época do natal, o presépio ficava guardado no velho sobrado da Muxinga, coberto por um lençol branco, e era debaixo dele o meu esconderijo preferido na brincadeira de esconde-esconde com a prima Viviane. Ah, posso sentir o cheiro da madeira, o sol passando por entre as gretas e em meio a toda aquela engenhoca de fios e pauzinhos. Pronto, contei meu segredo, mas infelizmente o tio não está mais entre nós, e não poderá se zangar comigo.
Outro presépio que lembro com carinho era da casa da minha bisavó, do meu também tio-avô, Elpídio. Ele plantava arroz em potes de margarina para colocar entre as figuras coloridas do presépio, eu achava aquele verdinho lindo e que tornava o cenário mais real! Lembro ainda do presépio do vizinho, o maestro Pedro de Souza, era um presépio grande, rico de detalhes e que mais me impressionava era o lago feito de espelho, com areia branca em volta e cheio de patinhos. Mas o presépio do meu coração só poderia ser mesmo o presépio da minha casa, que meu pai guardava com tanto zelo. Cada peça era embrulhada em não sei quantas folhas de papel para que não quebrasse nada. O menino Jesus só era colocado na véspera de natal, depois da meia-noite, num ritual de fé, em que meu pai levava a imagem para que todos beijassem, rezassem, e só depois tomar o lugar junto à Maria e José.
Se você sair por aí hoje e encontrar mais árvores e papai Noel do que presépios, monte a cena do nascimento de Jesus na sua mente e reflita sobre o verdadeiro protagonista de toda esta loucura que é dezembro, com suas compras, estresses, festas, confraternizações, abraços, família e troca de presentes. Ou recorde da sua infância, da fila do presépio da Muxinga ou de qualquer outro lugar que só as lembranças mais doces de natal podem proporcionar.
E então me diga, qual é o presépio do seu coração? Aonde anda guardado o seu Menino Jesus?
FELIZ NATAL aos amigos do ‘Ambição Literária’!
Foto: Presépio da Muxinga por Claudio Marcio Lopes. O presépio teve o início de sua confecção em 1929 e passou por algumas pequenas mudanças e reformas ao longo dos anos. Em 2001 ganhou o segundo lugar do concurso “Natal de Luz nas Gerais – Presépios de Minas”, realizado pela CEMIG. Hoje não tenho a informação se o presépio ainda tem condições para exposição.
Fonte de consulta: São João del Rei Transparente
Ele estava escondidinho, relegado ao final do corredor de lojas do terceiro andar, atrás da parede de uma cafeteria. Um lugar bem menos privilegiado que a movimentada praça central daquele centro de compras, onde estava montada uma gigantesca e luminosa árvore de natal, outras instalações natalinas típicas e uma pista de patinação no gelo. Mas acho que o lugar escolhido para acolher o presépio era mesmo condizente com a realidade daquela família, humilde, discreta.
Fiquei ali contemplando aquele tradicional cenário de natal, mas pela primeira vez com olhos diferentes, um olhar de quem carrega no ventre uma nova vida. Pela primeira vez via a figura de Maria com um entendimento maior, eu também estava perto de ser mãe!
O presépio representa o nascimento, um momento tão importante na vida de uma família, imagine da Sagrada Família! Eles estavam ali diante da manjedoura não só admirando o filho recém nascido, mas simplesmente o redentor do mundo, o messias!
Presépios me fascinam, desde criança, talvez seja coisa de herança, já que sou sobrinha-neta de Sebastião Teixeira de Assunção e Ivo Teixeira, os irmãos Teixeira, que confeccionaram o antigo Presépio da Muxinga.

Como é hoje passear pelo Largo de São Francisco iluminado, era uma tradição da cidade no mês de dezembro, visitar o presépio da Muxinga com suas dezenas de pequenos personagens em movimento. Os mais antigos devem lembrar-se da grande fila que se formava na rua Maestro Batista Lopes, onde moravam meus tios. A lembrança que tenho já é da exposição do presépio na avenida, ia sempre com meus pais, e recordo do meu tio sentado num banquinho e do seu orgulho quando via os parentes prestigiando. Inesquecível o instante encantado quando se colocava uma moeda na urna e os sininhos do presépio dobravam, as luzinhas se acendiam, a porta da igrejinha se abria e aparecia o menino Jesus!
Fora da época do natal, o presépio ficava guardado no velho sobrado da Muxinga, coberto por um lençol branco, e era debaixo dele o meu esconderijo preferido na brincadeira de esconde-esconde com a prima Viviane. Ah, posso sentir o cheiro da madeira, o sol passando por entre as gretas e em meio a toda aquela engenhoca de fios e pauzinhos. Pronto, contei meu segredo, mas infelizmente o tio não está mais entre nós, e não poderá se zangar comigo.
Outro presépio que lembro com carinho era da casa da minha bisavó, do meu também tio-avô, Elpídio. Ele plantava arroz em potes de margarina para colocar entre as figuras coloridas do presépio, eu achava aquele verdinho lindo e que tornava o cenário mais real! Lembro ainda do presépio do vizinho, o maestro Pedro de Souza, era um presépio grande, rico de detalhes e que mais me impressionava era o lago feito de espelho, com areia branca em volta e cheio de patinhos. Mas o presépio do meu coração só poderia ser mesmo o presépio da minha casa, que meu pai guardava com tanto zelo. Cada peça era embrulhada em não sei quantas folhas de papel para que não quebrasse nada. O menino Jesus só era colocado na véspera de natal, depois da meia-noite, num ritual de fé, em que meu pai levava a imagem para que todos beijassem, rezassem, e só depois tomar o lugar junto à Maria e José.
Se você sair por aí hoje e encontrar mais árvores e papai Noel do que presépios, monte a cena do nascimento de Jesus na sua mente e reflita sobre o verdadeiro protagonista de toda esta loucura que é dezembro, com suas compras, estresses, festas, confraternizações, abraços, família e troca de presentes. Ou recorde da sua infância, da fila do presépio da Muxinga ou de qualquer outro lugar que só as lembranças mais doces de natal podem proporcionar.
E então me diga, qual é o presépio do seu coração? Aonde anda guardado o seu Menino Jesus?
FELIZ NATAL aos amigos do ‘Ambição Literária’!
Foto: Presépio da Muxinga por Claudio Marcio Lopes. O presépio teve o início de sua confecção em 1929 e passou por algumas pequenas mudanças e reformas ao longo dos anos. Em 2001 ganhou o segundo lugar do concurso “Natal de Luz nas Gerais – Presépios de Minas”, realizado pela CEMIG. Hoje não tenho a informação se o presépio ainda tem condições para exposição.
Fonte de consulta: São João del Rei Transparente
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quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Cronista

Ah, eu sou não poeta
Quem me dera ser poeta e poetar
Falar e não dizer
Palavrear com encantamento um pensamento
Não sou poeta
poeta é Pessoa, Drummond e José Antônio
eu falo de afetos sem calor ou sabor e cor
poeta é Vinícius, Quintana, Elisa Lucinda e Adélia Prado
Eu não sou poeta não
Sou errante e dedilho letras com insensatez
Conclamo a dor sem pudor
mas não sofro pra desabafar, e sim pra tudo guardar
Não sou poeta
sou o segredo escondido debaixo do comprido cabelo
sou o sorriso que escapa inteligentemente mentiroso
não recito meus verbos arranjados, nem os aprecio
Não sou poeta
sou a prisão conveniente sem grades rígidas
sou o guardião do meu outro eu vilão
não caminho ligeiro, mas tenho tanta pressa
Não sou poeta
sou a escuridão da noite vestida de branco-lua cheia
sou a caçada encurrala e calada
não sou a sombra, mas sei onde ela cai
Não sou poeta
sou a lágrima que cai sem cerrar os olhos
sou um lamento quase silencioso com som de gargalhada aguda
não sou a solidão, mas ela me conhece bem
Não sou poeta
o que escrevi já perdi
não tem rascunho nem reverso meu verso
sou a menina doce com gosto amargo
Não sou poeta
meu livro é um lírio que não abriu
que exala um perfume forte que às vezes sufoca
sou a fada boa com espada afiada e embainhada
Não sou poeta
nem flor, nem beija-flor
mas aprendi brincar de lirismo num liceu antigo
sou um resto de sonho ansioso e morno
Não sou poeta
é acanhado meu vocabulário
minha rima miúda mendiga pela rua
sou a força de um monossílabo profanado na fraqueza da alma
Não sou poeta
não sei desejar puramente como tal
descrevo com adjetivos os rancores e carrego um baú de troços
sou um despertador de manhã anunciando um novo amor, mas volto a dormir
Não sou poeta
confronto a palavra aniversariante e agonizante
não danço no ritmo e improviso a canção no refrão
não sei conter a empolgada vida que brota, disfarço com brandas rotinas
Não sou poeta
nem água da chuva ou fonte
escrevo um rio que deságua no seu mar
não sou a saudade, mas ela é uma amiga
Não ouso ser poeta
sou indiferente com frases tolas e teimosas reticências
sou o querer versus poder igual a delírio
Eu não sou poeta, mas queria tanto
Não sei manter a espinha ereta
por isso não sou poeta
mas minha janela está aberta
e eu vejo tudo, sinto tudo, quieta...
Foto: Drummond e eu, Copacabana, dezembro de 2008
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quarta-feira, 4 de agosto de 2010
'Twitando'...
É tarde e a vida é cedo. O tempo te assalta, te leva tudo e você mudo!
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quarta-feira, 21 de julho de 2010
Bispo, titã, ovelha negra e camaleoa
Julho deste ano, sexta-feira.
Um vento calmo e devoto acompanhou o cortejo de Nossa Senhora do Carmo pelas ruas. E no céu se desenhou fogos, se fez cachoeira de pétalas de rosas nas janelas coloniais e uma bela chuva de papel picado platinado brilhou no largo.
Já o sábado amanheceu nublado, mas foi encorajado, animado e ritmado com tambores de congo, bandas, fanfarras e baterias de escolas de samba. Estava assim inaugurado o 23º Inverno Cultural com o tema ‘Paisagens Sonoras – ouvir, ver, sentir’.
No meio da tarde o frio se agigantou, mas não desanimou as centenas de fiéis que tomaram as escadarias da igreja das Mercês para assistir a posse do novo Bispo. Viu-se tapete vermelho, a imagem de Cristo Crucificado e mais de 250 padres. Ouviram-se os cânticos da cerimônia e dobres diferenciados nos sinos. Mais uma vez o vento, desta vez feroz, se encarregou de alongar tais paisagens sonoras.
Quando a noite caiu impiedosa, uma roqueira ovelha negra de família cantou o amor pop e outras coisas da vida na avenida. A multidão agora era outra e aplaudiu a Rita quando ela musicou a cidade com elogios graciosos. A paisagem que ela avistava do alto do palco era a imponente ponte de pedra iluminada, as duas ruas que ladeiam a margem gramada do córrego, totalmente tomadas pelos fãs, castanheiras enfileiradas, e o sereno cobrindo tudo mansamente. Era mesmo um cenário para conceituar de ‘muito bonitinho’. O que a Rita não viu foi a segregação involuntária não-combinada, ou pior, já prescrita no preconceito que cada um leva no peito diante da inclusão social. O Lenheiro de filete d’água foi à muro invisível e quase intransponível.


Em outra semana Arnaldo Antunes vai aportar aqui para o festival. Um artista exótico e talentoso que manipula as palavras do jeito que só se faz quando se conhece profundamente a sutileza da língua. Ele sabe orquestrar adjetivos e cadenciar rimas que culminam num descolado verso. O que ele dirá destas nossas abundantes paisagens sonoras?
O inverno de São João Del Rei assim vai se apresentando, é gelado, humano, cultural, sagrado, profano e nós são-joanenses nos adaptamos feito camaleão e camaleoa, numa boa! Nesta época os filhos caçulas como Rita Lee, talvez também ovelhas negras da família, sempre vão voltar, seja pra terrinha ou de um tombo qualquer. Existirá alguém que muito caminhou, estudou, rezou, pastoreou e tomará posse como novo bispo. Outros simplesmente vão repetir a frase do ex-titã poeta “O desejo é o começo do corpo” significando com causa ou não, o mistério mágico de nos reunirmos aconchegantes em julho.

Foto1:Posse canônica/Diocese de São João del Rei
Foto2:Show Rita Lee/André Fossati
Foto3:Cortejo de abertura do 23ºInverno Cultural da UFSJ/Netun Lima
Um vento calmo e devoto acompanhou o cortejo de Nossa Senhora do Carmo pelas ruas. E no céu se desenhou fogos, se fez cachoeira de pétalas de rosas nas janelas coloniais e uma bela chuva de papel picado platinado brilhou no largo.
Já o sábado amanheceu nublado, mas foi encorajado, animado e ritmado com tambores de congo, bandas, fanfarras e baterias de escolas de samba. Estava assim inaugurado o 23º Inverno Cultural com o tema ‘Paisagens Sonoras – ouvir, ver, sentir’.
No meio da tarde o frio se agigantou, mas não desanimou as centenas de fiéis que tomaram as escadarias da igreja das Mercês para assistir a posse do novo Bispo. Viu-se tapete vermelho, a imagem de Cristo Crucificado e mais de 250 padres. Ouviram-se os cânticos da cerimônia e dobres diferenciados nos sinos. Mais uma vez o vento, desta vez feroz, se encarregou de alongar tais paisagens sonoras.
Quando a noite caiu impiedosa, uma roqueira ovelha negra de família cantou o amor pop e outras coisas da vida na avenida. A multidão agora era outra e aplaudiu a Rita quando ela musicou a cidade com elogios graciosos. A paisagem que ela avistava do alto do palco era a imponente ponte de pedra iluminada, as duas ruas que ladeiam a margem gramada do córrego, totalmente tomadas pelos fãs, castanheiras enfileiradas, e o sereno cobrindo tudo mansamente. Era mesmo um cenário para conceituar de ‘muito bonitinho’. O que a Rita não viu foi a segregação involuntária não-combinada, ou pior, já prescrita no preconceito que cada um leva no peito diante da inclusão social. O Lenheiro de filete d’água foi à muro invisível e quase intransponível.


Em outra semana Arnaldo Antunes vai aportar aqui para o festival. Um artista exótico e talentoso que manipula as palavras do jeito que só se faz quando se conhece profundamente a sutileza da língua. Ele sabe orquestrar adjetivos e cadenciar rimas que culminam num descolado verso. O que ele dirá destas nossas abundantes paisagens sonoras?
O inverno de São João Del Rei assim vai se apresentando, é gelado, humano, cultural, sagrado, profano e nós são-joanenses nos adaptamos feito camaleão e camaleoa, numa boa! Nesta época os filhos caçulas como Rita Lee, talvez também ovelhas negras da família, sempre vão voltar, seja pra terrinha ou de um tombo qualquer. Existirá alguém que muito caminhou, estudou, rezou, pastoreou e tomará posse como novo bispo. Outros simplesmente vão repetir a frase do ex-titã poeta “O desejo é o começo do corpo” significando com causa ou não, o mistério mágico de nos reunirmos aconchegantes em julho.
Foto1:Posse canônica/Diocese de São João del Rei
Foto2:Show Rita Lee/André Fossati
Foto3:Cortejo de abertura do 23ºInverno Cultural da UFSJ/Netun Lima
terça-feira, 29 de junho de 2010
Brasil x Chile

Copa 2010 na África do Sul, oitavas de final. Vinte e três minutos do primeiro tempo, zera a zero.
Tem um tempinho que não escrevo nada, mas se não estou com inspiração não escrevo mesmo. E não é que hoje, dia de jogo, deu vontade de escrever?! Gosto de futebol, adoro Copa, fico nervosa em jogos e não gosto quando se fala de muito favoritismo do Brasil.
Trinta e um minutos, ainda zero a zero. O Falcão está criticando o Ramires, mas eu sou mais o Ramires que o Felipe Melo, que não está jogando por causa de uma torção, ah, não sei detalhes não. O jogo está cheio de faltas.
Tenho boas lembranças de outras Copas, mas as melhores, claro, são do tetra e do penta.
Gooooooooooooooooooooool!!! Adoro o Juan!!!! E eu não vi porque estava digitando. Mas tudo bem, tudo em nome da minha ‘Ambição Literária’.
Goooooooooooooooooooooooool!!! Luiz Fabiano, o Fabuloso!!!
Ai minha Nossa Senhora do Carmo, Sagrada Família do Altar, medo de contra-ataque! Não foi nada. Difícil escrever e torcer, mas vamos lá.
Eu falava das minhas lembranças. Em 94, eu tinha 18 anos, estava em São João Del Rei na final, a turma armando a maior festa pra ver o jogo na casa de uma amiga. Depois de me vestir de verde e amarelo fui despedir rapidinho da minha mãe. Ela iria assistir sozinha e vendo ela ali sentada em frente à TV, doeu o coração, acabei assistindo com ela. A farra com as amigas ficaria pra depois se o Brasil fosse campeão. Sábia decisão, uma das melhores decisões que já tomei e nem precisou pensar muito, o coração ditou e de imediato o cérebro processou com convicção. Não poderia ter melhor fim, eu e minha mãe, abraçadas, chorando numa eufórica felicidade depois que Baggio isolou a bola. Que lindo foi aquilo ao som do hino da vitória de Ayrton Senna. Naquele dia eu não sabia, mas era a nossa última copa, nunca mais tive a companhia dela para torcer. Talvez por isso não lembre do resto, de ter saído, aproveitado com as amigas, ficou para mim apenas o momento especial em que dividi com ela a explosão de gritar e pular o tetra.
Fim do primeiro tempo, 2x0 pro Brasil!!!
Em 2002, foi animada a coisa da Copa. Lembro da sensação aconchegante da reunião de amigos no meu apartamento, a corrente positiva, as brincadeiras, a alegria. A competição foi no Japão e por causa da diferença no fuso horário os jogos, quando não eram de madrugada, eram de manhã cedo. Nas primeiras partidas recordo de como a turma estava bem comportadinha, tomando um belo café da manhã, com chás, chocolate quente, pães, biscoitinhos. Mas a seleção foi pra final contra a Alemanha, e final é final, não teve jeito, só tinha cerveja e assim foi, desde às 7 horas da manhã. O Brasil ganhou e saímos pelas ruas da cidade buzinando, gritando. Eu tinha comprado duas bandeirinhas daquelas que fixam no vidro do carro, mas elas me foram furtadas na véspera, nos restou agitar uma blusa do Cruzeiro (o que estava valendo pois o Cruzeiro tinha perdido o Mundial de Clubes para um time alemão, vingança!). E às 18 horas eu não aguentava mais comemorar, eu não aguentava mais a dor de cabeça, eu não agüentava nada, nada mesmo (risos) e fui dormir imensamente feliz e pentacampeã mundial!
Começa o segundo tempo.
Hoje estou longe dos amigos, tenho como companhia meu cachorro, devidamente ornado com as cores do Brasil e totalmente assustado com os fogos e vuvuzelas dos vizinhos. E tem também meu marido supersticioso e metódico. Ele vê o jogo sempre com a mesma camisa, o laptop no colo para conferir, no site da FIFA, todas as estatísticas referentes à partida e também para estar pronto no caso de dúvidas irrelevantes de uma torcedora feminina.
-O Valdívia não jogava num time brasileiro? Perguntei sobre o jogador chileno que acabava de pegar na bola.
_ Jogava no Palmeiras.
- E onde ele joga agora?
_ Só um momento que já te respondo.
E depois de consultar a internet respondeu como se ele mesmo soubesse a resposta: No Al-Ain dos Emirados Árabes.
Era mesmo uma pergunta irrelevante!
Goooooooooooooooooooooooool!!! Robinho finalmente desencantou nesta Copa!!! Passe de quem? Ramires! Ramires que aprendeu a jogar na Toca da Raposa! Há!
Fim do jogo, vou voltar para os meus afazeres, minhas coisas, minha casa, feliz. O Brasil ganhou e vamos enfrentar a Holanda nas quartas de final, depois vem semifinal, final. Desejo uma comemoração ao lado de pessoas especiais para você e que seja assim memorável como as ótimas lembranças que carrego, afinal seremos... HEXAAAAAAAAAAAA! E crônica em tempos de copa é isso, não está assim com essa jabulani toda não!
Foto: Monti na torcida para acabar logo o jogo, e os fogos, e as vuvuzelas!
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