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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Legado


Belo Horizonte: A silhueta dos prédios na avenida Raja Gabaglia com o pôr do sol. Belo! Sion e três vezes Santo Antônio. Meu irmão e o Mineirão. Doloroso e solitário. Talvez por ser a primeira, talvez por estar tão perto de São João del Rei, mas a capital mineira foi para mim árdua adaptação. Mas eu fiz quatro intensas e perpétuas amizades: Angélica, Denise, Márcia e Juliana! Aprendi a comer brócolis com a Josi, estudei publicidade, jornalismo e ganhei diplomas.
Resende: As águas ligeiras do Rio Paraíba do Sul vistas da minha janela. Da minha janela os carros velozes da Via Dutra. A vida não pára e a Dutra também não. Ao redor, altas montanhas e a cidade de Penedo com colonização Finlandesa. Na sala do apartamento pintei uma parede de verde. Fiz duas ou três amizades, aprendi fazer desenhos com o CorelDraw, aprendi um pouco de francês.
Lorena: Como a gente foi parar naquela cidade, onde ficava? Ficou saudades pra mim! Eu adorei aquele lugar pacato do interior de São Paulo. Ali parou para descansar o bendito desbravador taubateano Tomé Portes del Rei, para seguir para as Minas Gerias, e depois fundar São João del Rei. Carrego comigo o gosto do pastel de nata, o ar fresco que corria na casa antiga de teto alto e grandes janelas, a amizade de Marlene, e a sabedoria de gente simples que me ensinou a bordar. Fiz mais uma ou duas amizades e com Betina aprendi que calda de chocolate fica mais suave com creme de leite! Continuei a aprender francês. Na sala eu pintei uma parede de verde, no quintal derrubamos o muro que tampava o jardim, plantei grama e hortelã. O quintal era grande e vazio então veio o meu bulldog, Monti. E tudo ficou pleno. Um banheiro antigo cor de rosa, ficou suave e branco. As mangueiras por trás dos muros anunciavam as estações, o pé de acerola carregado de preciosos frutos adocicava com acidez o paladar, o meu coração provou do sossego como poucas vezes.
Rio de Janeiro: O subúrbio. Uma outra visão de cidade maravilhosa. Tudo longe e muito perto, minha prima amada. Eu tinha a praia, e almoços de domingo na sogra. Eu conquistei a mais importante das conquistas, uma amizade sincera e rica, uma alegria de viver ao lado de Priscila. Nas palestras do curso para ‘atualização da mulher’ aprendi muito mais que o ensinado, a lição foi dada pela convivência com outras meninas, de tantos outros lugares. Aprendi a correr, ganhei minha primeira medalha e um secador da cabelos.Na sala do apartamento eu não pintei uma parede de verde, porque seria só um ano.
Vila Velha: Linda! Tão sonhada... estou aqui agora! E posso fazer tudo diferente, embora já tenha pintado uma parede de verde e outra de lilás no quarto. Fizemos uma grande reforma, fiz uma ou duas amizades. Pratico Pilates, tenho a praia perto, a visão onipresente do Covento da Penha, muita poeira com minério da Vale, um vento desconcertantemente freqüente e um calor que eu adoro!
‘Nossa casa é nossa casa em qualquer lugar, basta fechar a porta’ disse uma vez um amigo também nesta vida de mudanças. Mas e nós? Somos os mesmos? Não desejo fechar a porta para os lugares em que habito. É preciso se doar, se reinventar, se deixar ser invadido, conquistar, passear por adjacências, conhecer gente, costumes, provar sabores. Aprendi que melhor que deixar paredes coloridas é deixar um pouco do que tem de bom dentro de si, dividir um ensinamento, um sentimento, e viver uma amizade com toda sua poderosa força! Essa amizade não é sempre que se encontra, mas me comprometo sempre a tentar!
Será que em algum destes lugares alguém aprendeu alguma coisa boa, tirada da minha essência? Deixei escapar algumas atitudes provenientes das minhas qualidades e será que alguém recolheu algo apropriado? E se eu, na condição de frágil ser humano, por ventura deixei cair de mim sentimentos pequenos, e provoquei mágoas e rancores, eu peço a Deus que eu não os repita jamais!
Sigo na mudança, para onde o destino convidar, na esperança de aumentar a fé e a generosidade, de deixar mais e poder voltar para minha São João del Rei com uma pesada bagagem de lembranças únicas e com o corpo leve. E eu rertornarei porque é em São João del Rei que está minha família, meus eternos amigos são-joanenses, meu lar sem paredes e portas. Onde eu caminho, respiro, e sorvo com toda força do meu ‘eu’ verdadeiro que está em cada esquina, em cada banco de igreja, em cada melodia ressonante do período colonial, nas montanhas do Lenheiro, o 'eu' mineiro sempre, intenso, sagrado e profano.
Foto: A parede pintada de verde da casa de Lorena-SP