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sábado, 12 de março de 2011

Alma barroca, sagrada e profana

Sexta-feira depois do carnaval, é dia de trocar os cds dos compositores Jota Dangelo, Agostinho França, e outros tantos da nova geração de sambistas, pelos cds com os motetos, cânticos, matinas, laudes, e outras composições sacras dos são-joanenses como Padre José Maria Xavier e Maestro Ribeiro Bastos. É dia da primeira Via Sacra na rua, dia de contemplar a melodia dos dobres do sino dos Passos ao invés de tamborins, repeniques e tantãs de outrora. Eu sou são-joanense, adoro ser, minha alma é barroca, sagrada e profana!
Profano quer dizer tudo que não é sagrado, aquilo que é popular, da nossa gente, como as manifestações carnavalescas. Esta vertente tem raiz no fim do século XIX com os Ranchos ‘Boi Gordo’ e ‘Qualquer Nome Serve’, e mais tarde com as Escolas de Samba no século XX. Mas é chegado o tempo do sagrado, da outra vertente mais tradicional, vinda do século XVIII com a Lira Sanjoanense e a Orquestra Ribeiro Bastos. É a ocasião propícia do erudito, de se recolher contido e não mais de exibição, de desfrute, exaltação, hoje é dia também de Encomendação de Almas!

Fantasias e abadás que ontem nos vestiam dão lugar às opas roxas da Irmandade dos Passos. No lugar do bloco com seus coloridos estandartes, o cortejo da Via Sacra com sua cruz de madeira escura. As mãos que lançavam serpentinas, esguichavam espumas e jogavam confetes, agora carregam lanternas de prata e velas acesas. Aquele músico que comandava a eufórica bateria no sopro estridente do apito, passa a integrar a orquestra soprando passivamente as notas graves de seu trompete.
A imagem mágica da performance da bateria do ‘Unidos da Cambalhota’ nas escadarias da Matriz dá passagem para o desfile piedoso dos irmãos que irão refazer a via crucis de Jesus. No primeiro ato os sinos mudos nas torres apenas olham, e no segundo momento são protagonistas da devoção cristã (“pois o sineiro é o ritmista de São João!”). A paixão como sentimento que correu solta e inocentemente desavergonhada no coração dos foliões tem seu signo totalmente transformado, refletindo a dor, sofrimento e resignação pelo qual passou Nosso Senhor.

Eu sou são-joanense, do carnaval à quaresma, do samba à meditação, do enredo à oração, do ‘pular carnaval’ à contemplação, da alegria à ponderação, da razão ao coração!
Recolha-te folião, o tempo agora é de procissão, de terço na mão e não mais um copo de cerveja. Revele sua fé à luz de um lampião, abra sua alma, reconheça seus tropeços nestas ruas históricas, e peça perdão. Mas também perdoe porque todos nós às vezes sambamos na contramão e atravessamos no antigo refrão. Somos enfim todos barrocos, vivemos ainda debaixo destas telhas coloniais, cercados por paredes de adobe, mesmo que tenhamos deixado a terrinha, seguimos sagrados e profanos, são-joanenses!
Uma quaresma de reflexão, humildade, caridade, abstinência e oração para todos!
Foto 1: Bateria do bloco 'Unidos da Cambalhota' na escadaria da Matriz do Pilar, por Babi Diláscio
Foto 2: Um dos cortejos sacros da quaresma, por Adrianna Neves

quarta-feira, 18 de março de 2009

Passos do fim de semana

No próximo fim de semana em São João del Rei tem ‘Festa dos Passos’! As solenidades são: Depósito de Nossa Senhora das Dores na sexta, Depósito de Nosso Senhor dos Passos no sábado, Rasouras nas manhãs de domingo no Carmo e São Francisco, Procissão do Encontro e Sermão no Largo da Câmara, no domingo à tarde.
Anos atrás, num Largo do São Francisco de vastas, sadias, abundantes e verdejantes copas de palmeiras imperiais, um dedicado pai, que mais parecia um avô, explicava cada detalhe da ‘festa’ para sua filha durante a Rasoura de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos. Era preciso contar a história da comenda, aquela condecoração que se via pregada no manto de veludo roxo da imagem, e chamar a atenção para a Marcha dos Passos tocada com perfeição pela Banda do 11º BI. Ao dobrar os sinos, ensinou o porquê do chamado ‘combate’ que consiste na disputa entres os sinos das torres do Carmo, Matriz e São Francisco, cada qual reclamando sua imagem de volta, e lembrou ainda da vez que o badalo caiu no adro e quase feriu uma pessoa. Quando avistou o amigo de longa data, José Gaede, no início do cortejo, falou da sua grande dedicação à Ordem, e assim que verificou a abundância de hortênsias aos pés de Jesus, comentou que felizmente naquele ano os jardins da igreja produziram bonitas flores. Os olhos daquele apaixonado pai brilhavam, não sei se pelo belo espetáculo de fé que era a Rasoura, ao redor daquele monumento barroco com seu exuberante jardim, ou por estar ali na honrosa missão de passar adiante aquela piedosa tradição são-joanense.
Tantos anos se passaram, reformaram-se os jardins, palmeiras foram arrancadas pelo vento ou cortadas pelo homem, pessoas queridas se despediram, mas o Cristo continua sua marcha e o brilho está no olhar daquela filha!
O texto abaixo foi escrito após a Festa de Passos do ano de 2004.
Festa dos Passos
Os cheiros: Do rosmaninho espalhado no chão das igrejas do Carmo, Matriz e São Francisco, do incenso purificando as ruas por onde passa a procissão ou elevando as orações dos fiéis diante dos andores.
As cores: Das orquídeas que pendem da cruz de Nosso Senhor dos Passos, das flores do andor de Nossa Senhora das Dores, do roxo - cor da festa - que cobre as vestes das imagens e enfeitam os badalos dos sinos, dos trajes das Irmandades e Ordens, dos tons variados das hortênsias que formam o tapete onde se ajoelha Jesus.
Os sons: Da marcha dos Passos executada por nossas tradicionais bandas, do tocante silêncio dos Depósitos, dos sinos em combate que deixam mais vivas as tardes de sábado e domingo, dos cânticos da bicentenária orquestra Ribeiro Bastos, do burburinho das senhoras rezando o terço durante os cortejos, das palavras emocionadas de quem presencia tamanha manifestação de beleza e fé.
As lições: Foi um padre de São Paulo que acompanhara a festa pela primeira vez quem disse, em sermão, estar de fé renovada. Ele ateve-se a detalhes como a tradição daqueles que carregam o andor dizer “deu graça” no momento de parar, de chamar a representação do episódio do encontro da mãe e do filho de “festa”, da denominação “rasoura” para conceituar pequena procissão em torno da igreja, do carinho com que se preparam os andores, enfim de toda a emoção peculiar do evento. Coisas que para muitos de nós são-joanenses passam despercebidas. Este mesmo padre fez um apelo: Que o povo de São João del Rei preserve esta tradição. Amém, padre Carlão! AMÉM!
Foto: Imagem de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, exposta para veneração na Igreja de São Francisco-Festa dos Passos 2005

segunda-feira, 2 de março de 2009

O catolicismo fala de 3 práticas durante o período da quaresma: a oração, a esmola e o jejum.
Oração: Você se dedica a tantas coisas no dia-a-dia não é mesmo? Tem a hora de se alimentar, trabalhar ou estudar, malhar, encontrar os amigos e se divertir. Não pode também tirar uma hora para Deus? Você lê a Bíblia? Ela foi escrita para você, não para intelectuais. Você pode pegar um pequeno trecho por dia e aos poucos vai descobrir que maravilhas estão contidas ali. A oração diária não precisa ser uma repetição de coisas, das quais você não reflete nada. No momento de orar é preciso se dedicar por inteiro, ficar em paz, num canto qualquer, sozinho e em silêncio, assim vai se conectar com Deus de uma forma plena. Pratique! Essa experiência pode trazer percepções agradáveis e transformadoras para o seu corpo e mente! Especialmente na quaresma, as igrejas realizam as orações da via-sacra, que são belíssimas e propõem grande reflexão. Diz a história que Maria foi a primeira a fazer a via-sacra, relembrando os passos e Jesus e meditando sobre cada passagem. Se você não puder ir a uma igreja, leia o que diz as estações da via-sacra e veja o que você pode tirar desta lição para você e para sua vida.

Esmola: a caridade anda junto com a prática do catolicismo, da oração, se você está inserido neste contexto, o ‘doar-se ao irmão próximo’ será uma conseqüência natural. Procure ler alguma coisa sobre a Campanha da Fraternidade deste ano. Será que você pode fazer alguma coisa?

Jejum: o exercício do jejum é muito antigo. Trata-se de um sacrifício de abster-se de algum alimento ou prática. O jejum nos traz a sensação de liberdade, nos faz entender que não somos escravizados por tal coisa ou tal prática. Que tal deixar de lado um pouco a TV ou a internet, isso vale principalmente para os adolescentes. Todos nós somos capazes do autodomínio, do equilíbrio e da temperança. O meu sacrifício é não tomar refrigerante até sábado de aleluia. E o seu?
Tudo isto foi baseado no sermão do Padre Geraldo durante a missa das 19h da Matriz, ontem. Uma quaresma espiritualmente boa para todos!
Foto: V Estação da Via-sacra, Largo da Cruz, sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009