sexta-feira, 19 de março de 2010

Reluz



É verdade, ou pelo menos foi verdade. Aqui era terra rica em ouro. Não é lenda, caminhe pela serra do Lenheiro, você vai ver os veios. As marcas, as pistas da existência outrora deste metal precioso rasgam essa terra e aquelas rochas. Pergunte aos mais antigos, eles vão contar que era comum ver aquela cena no fim do dia: a silhueta dos últimos garimpeiros com os pés dentro do córrego, alheios ao burburinho do centro da cidade, calças erguidas, bateia nas mãos, lavando o fundo do filete d’água com espantosa esperança e olhos de águia. Em outros tempos - quando a vila contava apenas com algumas dezenas de casas - serpenteando as margens dos rios da redondeza chegavam toda sorte de gente, bandeirantes, aventureiros, garimpeiros, estrangeiros, quilombolas, índios, ladrões, gente trabalhadora e sonhadora, motivadas pela riqueza que proporcionaria o primeiro filão de ouro do Brasil. Era fim do século 17, e junto com Goiás e Mato Grosso, estes arredores onde hoje se encontram Tiradentes e São João del Rei responderam por 50% da produção mundial do minério dourado.
Suba o Alto das Mercês, ainda existem as profundas e misteriosas betas, onde escravos trabalharam exaustivamente ao estalar de chicotes, e fizeram emergir ouro e mais ouro. Ouro que virou pó e foi escondido de todo santo jeito até em santas ocas. Ouro nosso que por ordem da coroa fundiu e pesou no quinto, que fomentou os primeiros atos de corrupção e sonegação, que percorreu longo caminho no lombo dos muares, que foi também roubado, contrabandeado, extraviado no alto destas serras e picadas de mata da Estrada Real. Depois o que restou ganhou o mar e aqueles navios que conseguiram escapar dos ataques piratas, levaram nosso ouro a Portugal, que pagou dívida à Inglaterra e assim finalmente decorou famosos palácios de lá e riquíssimas jóias reais. Quem sabe se uma parte da genuína dourada riqueza está mesmo nas nossas igrejas, fazendo brilhar altares na matriz de Santo Antônio em Tiradentes e na matriz de São João? Quem o viu transformar em majestosa coroa que adorna a cabeça da imagem de Nossa Senhora do Pilar? Quem possui uma jóia oriunda deste leito de córrego, de alguns poucos ciscos vislumbrados no fundo da bateia? Para onde foi toda a fortuna da nossa terra?
A verdade é que o recurso natural foi totalmente explorado, se extinguiu, se exauriu, morreu assassinado e absorvido gananciosamente em sua plenitude reluzente, não brota mais, não reaparece, não renasce, não brilha mais no meio da lama. Quem viveu na época da corrida aurífera, se iludiu, se encantou, mas não deixou vestígios em barras de ouro.
Eikes Batistas de antigamente, mas sem nenhuma elegância, desbravaram as montanhas, sangraram as pedras, vasculharam as profundezas dos rios, construíram muitas minas, sugaram o que encontraram e ainda por algum tempo continuaram a sugar sem nada encontrar. A terra não deixou nenhuma jazida pra trás, não há porque abrir um garimpo, se esgotou a fonte.
Ah, quer saber? Ainda bem. Respiremos em paz. A riqueza da minha terra hoje é outra, menos lasciva, é coisa escultural, de arquitetura, de música, religião, política, o são-joanense na sua essência de fé e realização. Ambição pra mim, só literária; fome só aquela de café da tarde com broa; busca desenfreada só por cultura; loucura só por amor; corrida só por exercício do corpo e mente, ali na Leite de Castro; um ambiente social fervilhante, só no carnaval! A herança da época para mim basta em livros de história, nos museus, na lembrança, e porque não com um inofensivo orgulho. A abastança que fez fama no país e lá fora, que financiou as extravagâncias das irmandades religiosas, as orquestras, que construiu com luxo, beiras e eiras esses casarões, que talhou pedra-sabão e vestiu barrocamente estas igrejas, talvez tenha se quietado no tempo certo. Basta hoje contar a fábula já que nem todos têm o dom de desvendar o que numa terra realmente reluz!

Foto: Altar mor da Matriz do Pilar coberto por folhas de ouro. A igreja é a quarta mais rica do país.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Compositor



O cenário não poderia ser outro, o Largo do Rosário, diante das janelas cerradas e sacadas solitárias do Solar dos Neves. A história é sobre uns versos de 25 anos atrás e o personagem é um senhor discreto em meio à pulsante multidão de foliões do bloco Unidos do Cambalhota. Ele olha de longe para aquela bateria, para os estandartes, para o povo em êxtase, para tudo, anônimo, sem demonstrar muitas expressões em seu rosto. Traja vermelho e branco, as cores do Salgueiro, do Copo Sujo, da Chácara, do seu Cordão Encarnado e do seu Qualquer Nome Serve. São tantos os sábados de carnaval já vividos, aquele teria um gosto especial? O que será que passa na cabeça deste apaixonado pelo carnaval de São João, deste inquieto idealista, deste talentoso compositor que em 1985 criou um samba com cadência mágica de lavar a alma, com um refrão poderoso e contagiante que vem vencendo o tempo na garganta de quem tem gosto pela folia na terrinha. Como ele se sente observando aquela multidão que explode uníssona cantando o que ele compôs, ecoando alegremente no Largo as palavras que um dia ele escreveu e ritmou com maestria? Mesmo nos anos mais difíceis da festa momesca são-joanense este pedaço do samba sobreviveu, ele tem a força da superação. Não existe carnaval em São João Del Rei sem que se ouça, por estas esquinas, em rodas de samba, em quase todos os blocos que se arrastam pelas ruas, este ‘bis’ incansável. Emociona o músico da bateria, faz o puxador impor a voz, faz sorrir quem só assiste, faz balançar quem não sabe sambar.
Que momento de inspiração fantástico teria sido aquele de rimar e enredar aquela emoção do carnaval de 1985, o carnaval da ‘Alvorada’, da Nova República, da democracia consolidada principalmente e com tanto orgulho pelo são-joanense Tancredo Neves? O que aconteceu no nosso país durante estas décadas corresponde à esperança que tomava seu coração, naquele ano após o regime militar? Caro poeta, seja qual for sua resposta lembre que não há nada mais nobre do que semear a fé no amanhã, é isso que todos cantam com tamanho entusiasmo e continuarão cantando através das gerações. Se por ventura tens ainda cárceres e porões ocultos dentro de ti, liberte-se deles, o sol amanhã anunciará um novo dia para o qual eu, e todo este povo transtornado de felicidade, conclamamos você!!!
O bloco vai passando, a multidão continua se agitando eufórica, pulando e batendo palmas, e ele está ali parado, braços cruzados para trás, sozinho, vivendo aquele momento de modo particular. Meu querido carnavalesco, sinta-se agraciado, abençoado, abraçado por esta massa, afinal a festa é sua, hoje e sempre é pra valer, quando chegada a hora, deixa a festa acontecer!!!

Eis a letra do samba do Cordão Encarnado 1985:
‘Alvorada’ (Jota Dangelo)

O sol nasceu,
Já raiou a madrugada
Um novo dia amanheceu
Pintando de luz as cores da alvorada
Canta, voando livre a passarada
Um hino cheio de esperança
Que acorda a criança que existe no fundo
De quem espera que este mundo
Um dia seja mais feliz, feliz...
Quando chegar a paz hoje sonhada
E a liberdade conquistada abrir as asas sobre nós
Eu chamo
Chamo os batalhões de bóias frias
Eu peço a todas as Marias pra entrar no meu cordão
Chamo os afoxés e congadeiros
Todas as baianas dos terreiros e os bumbas do Maranhão
Clamo pela memória do passado e pelo sangue derramado
Meus companheiros de aflição
Chamo, eu chamo o povo brasileiro
Para mostrar ao mundo inteiro
O brilho do sol da manhã
A festa é nossa
Hoje é pra valer
Chegou a hora
Deixa a festa acontecer



Foto1: O bloco Cambalhota passando pelo Largo do Rosário
Foto2: Dá pra ver o compositor, como eu disse, de vermelho, viu?

sábado, 30 de janeiro de 2010

Do Verão, me dê o sol e a chuva!


Carlos Drummond de Andrade em ‘Caso pluvioso’ denominou Maria como a chuvosíssima criatura. Eu, Maria do Carmo, arrisco dizer que talvez seja destas criaturas de identidade pluvial de Drummond. Eu gosto de chuva de bom caráter, não só para dormir ou combinar com domingos de ressaca. Agrada-me a poesia da chuva, de vê-la faceira adentrando o vale pintando de branco minha cidade, irrigando com fartura as hortas e refrigerando a brisa. Quem não gosta de cheiro te terra molhada, bom sujeito não é.
As chuvas no tom máximo de mansidão para o verão, me confortam, embalam. Já as tempestades que ainda sabem como não causar o caos, me metem um medo infantil gostoso. Experimento uma sensação invasiva estranha diante daquela enorme massa de nuvens sinistramente escuras que roncam esbravejantes, galopantes, com iluminação própria de discoteca. Quando elas chegam preenchem a solidão do dia, rompendo o silêncio cruel de uma tarde. À noite promove melodiosa sinfonia de gotas tocando telhados e vidraças. Não as quero escalando com atrevimento as serras e desembestando trombas d’águas em nosso pacato Lenheiro, precipitando raivosas em cubos de gelo, com ventos assassinos de palmeiras imperiais e se transformando em desembaladas enchentes das goiabeiras.
Desejo chuvas que caem com graça cheias de encantamento, daquelas abençoadas por um São Pedro muito bem humorado. Chuvas assim sim todo fim de tarde! Vindas de todo canto, não só do ‘arauto pluvioso’ como Jota Dangelo definiu a Serra do Lenheiro. Chuvas amigas amenas, tempestades bem temperadas, chova linda nas esquinas da alma, ensinando a arte de ser intempestiva, de ser também aquosa e passageira, cessando quando convém para dar lugar à bonança!

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Passou...

Eu estava distraída, descompromissada com o raciocínio, olhando as faixas da estrada. Foi aí que surgiu no retrovisor aquela imagem. Atrás de mim vinha veloz o passado, arrebatando a respiração, provocando a imaginação, galopando sem respeito por cima dos meus desejos simples.
Ilógica e diabólica coincidência, logo hoje que a melancolia se apossa de mim. Nas curvas procurei encaixar nossos olhares, o estranho hoje e o nosso futuro improvável. Possíveis são as escolhas, desenfreadas as paixões, absurdas as ilusões. Veio então uma boa e dura real reta, dessas que se ultrapassam caminhões gigantescos, e você num vulto instante passou por mim... Da janela eu vi alegrias acopladas no seu sorriso iluminado. Passou por mim, como se não me visse e não me viu, nem me invadiu como almejava, nem me feriu a carne mas dilacerou a alma. Cortou em pedaços as lembranças e esperanças tolas. Você passou por mim, não como um raio mas como um clarão de tarde de sol. Eu senti calor quando você passou, e náuseas recorrentes na medida em que apertava o peito aquele ar que se deslocou no tempo quando você cortou pela esquerda de mim. Entrelacei as mãos já convencida do repentino desespero da sua ultrapassagem, era amarga aquela imagem do passado que passou, ultrapassou e virou distância ali bem na minha frente...
Você aos poucos se distanciou, distanciou... Passou na pressa certa por mim e não me viu, ultrapassou no momento que deixou de existir para mim.
Amadurecida? Convencida? E foi se distanciando nas curvas, distanciando, me deixando pra trás nas retas e também nos quebra-molas. Eu permaneci impotente na velocidade cravada de 90km por nada, sozinha no vazio tosco da mudez, do pensamento esmagado do castelo aerado. Sumiu sem rastros, sem trevos nem desculpas. Chegamos ao mesmo destino em horários diversos e vidas distintas, um desencontro com ponto final, sem voltas e agora sem sonhos. Quando você passou por mim eu vi alegrias acopladas no seu sorriso iluminado, daquelas que um dia deixou em mim fogos de artifício. ‘2009’ assim passou, ultrapassou e sumiu na estrada.

Obrigada a todos que passaram por esta 'Ambição Literária' em 2009. Para 2010 ambiciono 'revê-los' por estes versos... Muita fé, saúde, paz no coração, coragem para se reinventar nos dias ruins, mais realizaçãoes e menos 'sonhar'. É o que desejo pra mim e para você!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Coisas de natal



Há 2009 anos nasceu um cara, numa tal de manjedoura numa gruta. O cara era pobre, sua mãe estava fugindo de uma perseguição sei lá, e ele foi nascer nesta gruta que servia de abrigo para animais nos arredores de Belém. Por causa disto se estabelece uma atmosfera diferente nesta época do ano. Enfeita-se a casa, as lojas, as ruas e praças. Junta-se a família, vem a parentada toda de não sei onde para uma ceia ou almoço. Organizam-se festas, confraternizações e sorteios de amigo-ocultos. É uma agitação, uma arrumação, compras sem fim, trânsito engarrafado, fila no estacionamento do supermercado, horas para achar uma vaga no shopping... Um reboliço, uma correria, uma gostosa enorme confusão! Olha que coisa mais maluca. Porque isso? Porque o cara falava de amor ao próximo, de se doar simplesmente, de fazer o bem, e por isso sua fama correu o tempo, vem se arrastando, se perpetuando de geração em geração durante séculos.
No nascimento do cara apareceram três reis magos vindos de muito longe guiados por uma estrela e trazendo presentes. Daí a tradição da troca de presentes. O ato de presentear faz o próximo feliz. Veja bem que o ‘presentear’ não passa só pelo material ele pode ser bem maior e fazer ainda mais feliz quem for agraciado, é o tal amor ao próximo. Para quem não tinha condições um bom velhinho, séculos atrás, distribuía presentes que ele mesmo confeccionava. A indústria cultural embarcou nesta lenda e criou com sucesso a figura do Papai Noel, com roupa vermelha pra ser associado à marca de um refrigerante. Daí quando a gente é criança acredita que é ele que nos oferta os presentes desde que o nosso bom comportamento seja aprovado. Mas tudo isso é por causa do cara, que falava de amor, não esqueça.
E natal tem um monte de coisas engraçadas, um monte de lembranças alegres para muita gente e outras nem tanto para uma outra porção de gente. Eu lembro de um natal muito festivo, quando eu tinha uns 7 ou 8 anos, nossa casa cheia com a tal parentada, minha mãe e minhas tias na cozinha o dia todo falando, gesticulando, rindo, fofocando e também preparando a ceia. O salpicão era trabalhoso, tinha que picar tudo aquilo, desfiar frango, e imaginem, ainda fritar muita batata palha porque naquele tempo não existiam ainda os saquinhos com batata palha já pronta. E onde iam misturar todos aqueles ingredientes? Era preciso uma bacia grande e na falta de uma, alguém deu idéia de usar a gaveta da geladeira. Entre muitas gargalhas assim foi feito. As carnes, como a leitoa, iam assar no forno da padaria, a sobremesa era a mesma de todos os anos e não se poderia deixar de fazer o tradicional ponche. Essa era a parte que minha mãe e minhas tias mais se divertiam, pareciam bruxas animadas e risonhas inventando uma poção mágica. Levava guaraná, eu acho, frutas picadas, a calda que sobrou do pêssego que enfeitou o peru, a calda que restou da cereja que enfeitou o pêssego do peru, e espumante, ou pinga mesmo, porque não? Como ele ficava bonito naquela poncheira de cristal, e à medida que a noite ia adentrando, a conversa ia se elevando, as risadas pipocando, o ponche ia sumindo. Eu lembro que flagrei minha avó colocando presentes debaixo da árvore e indiretamente me revelando cruelmente a verdade: Papai Noel não existe.
Também lembro de um dia de natal baixo astral, que passei sozinha, fui almoçar num restaurante, o mesmo tava fechado, ainda por cima começou a chover e eu não levei guarda-chuva. Ah que bom que as boas lembranças rederam mais versos, muito mais encantadores do que a sem graça ou até engraçada frase da lembrança triste!
Tudo isso é por causa do ensinamento simples e essencial que varreu a humanidade, tocou milhões de corações no mundo todo seja lá como for. É o amor ao próximo que o cara recitou em parábola. E mais uma vez se mantêm a tradição de estar com as pessoas queridas para lembrar e celebrar isto, com enfeites, publicidade, caridade, presentes, engarrafamento, salpicão na gaveta da geladeira, roupa nova, correria e chuva, é natal! Parabéns, feliz aniversário Jesus, você é o cara!

Foto: Ornamentação de natal no Largo do Rosário, por Karlinha

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Sandra, Sandrão, Drão

O Gilberto tava meio mal de grana com poucos shows agendados, a censura do regime militar ainda na sua cola, e o pior, estava aborrecido pois sua mulher, Sandra, queria a separação. Enfim, o momento era difícil, mas não era de se recusar convites ou trabalhos por mais estranhos e longe que parecessem. E depois de tanto excursionar pelo exterior e ter um programa especial só dele na TV Globo, Gil foi convidado para ser jurado de um programa de auditório numa rádio no interior de Minas. Era o início dos anos 80, havia aos domingos um programa de calouros muito popular no auditório da Rádio São João, em São João Del Rei. O então diretor da rádio (não lembro o nome e não quis inventar nenhum!) numa visita à capital mineira encontrou por acaso, na Cantina do Lucas, um grande amigo e escritor. Este por sua vez estava com um ilustre amigo, o cantor baiano Gilberto Gil e assim se deu a coisa, o diretor que desejava promover o programa da rádio se entusiasmou, o convite foi feito e o cantor aceitou, aguçado pela curiosidade de conhecer a histórica cidade. Foi oferecido carro com motorista no dia seguinte, mas Gil dispensou e disse que não fazia questão da mordomia, foi logo naquele mesmo dia de ônibus numa linha intermunicipal normal. Já no terminal rodoviário, que ironia, a empresa da linha 'Belo Horizonte-São João del Rei' chamava-se ‘Viação Sandra’. Entrou no ônibus que não tinha luxo algum e como sempre fazia, logo cumprimentou o motorista: -E aí baiano? O motorista replicou ainda não reconhecendo o afamado artista: -Bom dia amigo, mas eu não sou baiano não... -Mas é que eu sou, e chamo todo mundo de baiano também, não se zangue não... -disse o cantor com sotaque carregado. O trocador se intrometeu na conversa e falou ao motorista sorrindo: -Mas até que você tem cara de baiano mesmo... Todos riram e foi este o apelido com que o motorista ficou conhecido dali em diante. Curva do Sabão, viaduto das Almas, à frente de Gil num encosto de cabeça, a palavra “SANDRA” em letras verdes. Ele ficava lendo sem parar aquele nome e relembrando toda sua vida com a mulher, o período do exílio em Londres, o nascimento dos três filhos e todas as dificuldades, agruras e alegrias que dividiram. Na parada à beira da BR040, na localidade de Murtinho, comeu meio sem vontade um pastel de carne. Achou graça do mineiro ‘Maranhão’, nome do lugarejo próximo à Congonhas do Campo, onde Sandra estacionou para descer um passageiro. Deliciou-se com a simplicidade da cidadezinha de São Brás do Suiaçuí e ficou imaginando que Drummond teria escrito o pequeno poema‘cidadezinha qualquer’ inspirado naquelas ruas de São Brás do Suaçuí... Suaçuí... Suaçuí. “Que gostoso de pronunciar” pensou. Sandra prosseguiu e parou novamente, agora na Terra do Fogo, onde embarcou uma velhinha de lenço na cabeça, carregando alguns sacos de sementes, uma sacola e uma trouxa de pano. Um dos sacos era de feijão e este já ficou na cabine do motorista (o Baiano!) que lhe pagou por ele. Depois que se acomodou, lançou da sacola um queijo embrulhado em saco plástico e saiu oferecendo aos passageiros: -Qué compra quêjo? Tem fresquim e curadim -foi repetindo a senhorinha ao longo do corredor. Gil logo se interessou, queria levar um queijo de minas! Mas quis saber a diferença: - Como é curadim e como é o fresquim? - Indagou à senhora. -O fresquim ainda mina água e o curadim já tá mais firmim. Tudo produzido na minha roça mesmo - explicou sorridente. Veio Desterro de Entre Rios, Sandra freou. Como seria um desterro no meio de rios, que emaranhado de caminhos eram esses? Gil pensou. E logo depois Sandra fez parada novamente, desta vez em Entre Rios de Minas, sem desterro e berço da raça Campolina foi o que Gil leu numa placa pequena pregada numa cerca branca. Já outras placas enormes estariam por vir nas diversas curvas que se seguiram, elas surgiam assustando e anunciando com letras gigantes ‘o legítimo rocambole’, ‘o famoso rocambole’ de Lagoa Dourada. O cantor lembrou logo de sua filha Preta, louca por doces. Será que Sandra iria parar naquela terra do bolo com doce de leite em forma de caracol? Claro, Sandra pára em todo lugar, lugarejo, vilarejo, ponto, porta, porteira, clareira, fogueira, bananeira. Basta balançar o braço, erguer a mão e Sandra pára... Ás vezes Gil esperava que ela fosse parar até quando um galho de árvore balançasse na beira da estrada! Mas ele não se arrependeu um instante se quer de não ter aceitado a carona do diretor, ele estava apreciando aquela um tanto demorada viagem, as pitorescas paisagens daquelas bandas, aquela gente simples entrando e saindo, e “SANDRA” sempre segurando seu olhar o fazendo matutar, reviver o passado e imaginar o futuro. Aqueles ares fizeram muito bem a Gil. Ele compreendeu que não poderia mais segurar aquele enlace com Sandra - Drão como ele carinhosamente a chamava - e resolvera aceitar a separação sem mágoas. Estava inspirado, renovado e tinha pronta em suas mãos, letra e melodia, a canção que fez naquela viagem e que seria um de seus maiores sucessos! Já o programa na rádio... Bem, Gil apesar de achar a cidade encantadora, só pensava na viagem de volta quando iria comprar para Preta Gil alguns três ou quatro rocamboles, também queijo ‘curadim’ e outro ‘fresquim’. Queria olhar de cabeça erguida para “SANDRA” na poltrona da frente, consciente de que tudo passa entre uma parada e outras tantas e o que foi vivido permanece nos corações. A vida segue seu rumo torto e às vezes reto e sereno. A estrada escura, a caminhada dura ainda permanece para os são-joanenses que volta e meia, vão à capital, na companhia de Sandra ou não. A paisagem dos campos das vertentes como vista, um açucarado legítimo bolo-rolo numa suposta dourada lagoa, uma passada sem graça e longe dos profetas em Congonhas, um suspiro que escorrega e se perde na curva do Sabão, uma saudade que cai vitimada do viaduto das Almas. Isso tudo, a não ser, que agora você pegue o avião. Saudosista que sou, ainda prefiro ir de BH à São João, e vice-versa sem pressa, pensando de leve sobre a vida, olhando tudo da janela de Sandrão!!!

Fim da história. Entrou por uma porta e saiu por outra, quem quiser que conte outra!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Bastardos inglórios



- A primeira coisa que tenho para dizer do filme é que ele é bem... Tarantino. Tem todas aquelas ceninhas 'tarantinas' com congelamentos e caracteres no meio da trama, musiquinhas 'tarantinas', enredo amarrado 'tarantinamente', e -como não poderia faltar-sangue, seja jorrando, seja expirrando, escorrendo ou espalhado pra todo lado.

-O Brad Pitt continua um espetáculo e um ator forçado.

-Uma excelente atuação é a do ator Christophe Waltz, que interpetra Hans Landa, um coronel nazista caçador de judeus.

-Adorei os modelitos da atriz e espiã Bridget Von Hammersmark, principalmente o da noite de estréia do filme alemão num pequeno cinema de Paris: o vestido preto, a estola de pele branca de algum pobre animalzinho e a orquídea phalaenopsis no cabelo! Show!

- Enfim, saí do cinema com um nozinho de leve na garganta, um sentimento meio isquisito, o que significa que a arte da telona me tocou mais uma vez e o filme é bom.

P.S.: Sempre achei leite meio indigesto e vou desconfiar de pessoas que nunca tiram seus chapéus, boinas e bonés.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Fla x Flu

Eu sou Cruzeiro! Não porque meu pai era, mas minha mãe! A primeira vez que fui ao estádio do Mineirão foi ela quem me levou junto com minha madrinha. Como descrever aquela sensação única de se ver o gramado enorme, verde e iluminado, a torcida unida num só grito, tudo pela primeira vez! Não se esquece. E era assim, na minha família as mulheres eram as maiores entusiastas do futebol. Reza a lenda familiar que minha avó materna certa vez estava um tanto exaltada com o juiz do clássico ‘Minas e Athletic’ e acabou sendo expulsa do campo.
Meu pai preferia falar de outras coisas e fazer outras coisas muito mais importantes, de acordo com seu julgamento, que torcer para um time. O que ele mais temia numa roda de amigos era que se começasse a discutir sobre as ‘últimas’ do esporte, ele certamente ficaria sem dar opinião. Durante uma partida em que todos estivessem ligados na TV reclamando enfurecidos um pênalti não marcado ou um chute pra fora, meu pai se limitava a dizer, sei lá porque: “Joga no miolo, tem que jogar no miolo”. Mas da época da Copa ele gostava, mas só porque gostava de festa.
Bom, mas pela minha mãe e pelos meus três irmãos, desde pequena eu gosto de futebol. Como é de tradição são-joanense, dois de meus irmãos torciam pelos times do Rio, um flamenguista e o outro tricolor, lembrando que o coração de todos era azul. E daí começou meu fascínio pelo clássico carioca mais comentado, mais charmoso, tenso, cheio de mandingas e histórias, o mais descrito por jornalistas como Mário Rodrigues Filho e posteriormente por Nelson Rodrigues: o FlaxFlu. A partida que mais atrai as multidões, que mais vende jornais e rende audiência. Gigante, pungente, o duelo bateu o recorde mundial de público em partidas entre clubes com 194.603 espectadores, na final do Campeonato Carioca de 1963.
Nem ‘Grenal’, muito menos ‘Bavi’ ou até mesmo o temido ‘atlético e cruzeiro’ me arrebata tanto.
Vejo a torcida rubro-negra loucamente apaixonada, aguerrida, atrevida, um amor sem regras e pudores, cheio de altos e baixos, mas presente e eterno.
Já a torcida ‘pó de arroz’ do Fluminense parece-me adorar com um sentimento mais centrado, pés no chão, contida e ausente por vezes e quando convém explosivamente e elegantemente eufórica. Posso comparar o Fla x Flu ao inesgotável debate entre e a emoção e a razão, a paixão e a lucidez. A turma do urubu é marginalizada, abrangente nas classes desfavorecidas, já a do cartola está acima, como se descendesse de família nobre, vista num pedestal social que ninguém sabe como foi alcançado.
Ah como é delirantemente tentador o furor de um flamenguista e como é agradavelmente pacificador o carinho de um tricolor!
Lamartine Babo me sentenciou que uma vez flamengo, sempre flamengo, flamengo sempre hei de ser, é meu maior prazer. Mas também deixou claro que sou tricolor de coração, sou do clube tantas vezes campeão, fascina pela disciplina, o fluminense me domina.
Nas alturas do campeonato para qual time você torce? Para o rubro-negro chegar ao G4 ou para o tricolor não ser rebaixado (se é que isto ainda é possível)?
Eu? Eu sou Cruzeiro!!!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Legado


Belo Horizonte: A silhueta dos prédios na avenida Raja Gabaglia com o pôr do sol. Belo! Sion e três vezes Santo Antônio. Meu irmão e o Mineirão. Doloroso e solitário. Talvez por ser a primeira, talvez por estar tão perto de São João del Rei, mas a capital mineira foi para mim árdua adaptação. Mas eu fiz quatro intensas e perpétuas amizades: Angélica, Denise, Márcia e Juliana! Aprendi a comer brócolis com a Josi, estudei publicidade, jornalismo e ganhei diplomas.
Resende: As águas ligeiras do Rio Paraíba do Sul vistas da minha janela. Da minha janela os carros velozes da Via Dutra. A vida não pára e a Dutra também não. Ao redor, altas montanhas e a cidade de Penedo com colonização Finlandesa. Na sala do apartamento pintei uma parede de verde. Fiz duas ou três amizades, aprendi fazer desenhos com o CorelDraw, aprendi um pouco de francês.
Lorena: Como a gente foi parar naquela cidade, onde ficava? Ficou saudades pra mim! Eu adorei aquele lugar pacato do interior de São Paulo. Ali parou para descansar o bendito desbravador taubateano Tomé Portes del Rei, para seguir para as Minas Gerias, e depois fundar São João del Rei. Carrego comigo o gosto do pastel de nata, o ar fresco que corria na casa antiga de teto alto e grandes janelas, a amizade de Marlene, e a sabedoria de gente simples que me ensinou a bordar. Fiz mais uma ou duas amizades e com Betina aprendi que calda de chocolate fica mais suave com creme de leite! Continuei a aprender francês. Na sala eu pintei uma parede de verde, no quintal derrubamos o muro que tampava o jardim, plantei grama e hortelã. O quintal era grande e vazio então veio o meu bulldog, Monti. E tudo ficou pleno. Um banheiro antigo cor de rosa, ficou suave e branco. As mangueiras por trás dos muros anunciavam as estações, o pé de acerola carregado de preciosos frutos adocicava com acidez o paladar, o meu coração provou do sossego como poucas vezes.
Rio de Janeiro: O subúrbio. Uma outra visão de cidade maravilhosa. Tudo longe e muito perto, minha prima amada. Eu tinha a praia, e almoços de domingo na sogra. Eu conquistei a mais importante das conquistas, uma amizade sincera e rica, uma alegria de viver ao lado de Priscila. Nas palestras do curso para ‘atualização da mulher’ aprendi muito mais que o ensinado, a lição foi dada pela convivência com outras meninas, de tantos outros lugares. Aprendi a correr, ganhei minha primeira medalha e um secador da cabelos.Na sala do apartamento eu não pintei uma parede de verde, porque seria só um ano.
Vila Velha: Linda! Tão sonhada... estou aqui agora! E posso fazer tudo diferente, embora já tenha pintado uma parede de verde e outra de lilás no quarto. Fizemos uma grande reforma, fiz uma ou duas amizades. Pratico Pilates, tenho a praia perto, a visão onipresente do Covento da Penha, muita poeira com minério da Vale, um vento desconcertantemente freqüente e um calor que eu adoro!
‘Nossa casa é nossa casa em qualquer lugar, basta fechar a porta’ disse uma vez um amigo também nesta vida de mudanças. Mas e nós? Somos os mesmos? Não desejo fechar a porta para os lugares em que habito. É preciso se doar, se reinventar, se deixar ser invadido, conquistar, passear por adjacências, conhecer gente, costumes, provar sabores. Aprendi que melhor que deixar paredes coloridas é deixar um pouco do que tem de bom dentro de si, dividir um ensinamento, um sentimento, e viver uma amizade com toda sua poderosa força! Essa amizade não é sempre que se encontra, mas me comprometo sempre a tentar!
Será que em algum destes lugares alguém aprendeu alguma coisa boa, tirada da minha essência? Deixei escapar algumas atitudes provenientes das minhas qualidades e será que alguém recolheu algo apropriado? E se eu, na condição de frágil ser humano, por ventura deixei cair de mim sentimentos pequenos, e provoquei mágoas e rancores, eu peço a Deus que eu não os repita jamais!
Sigo na mudança, para onde o destino convidar, na esperança de aumentar a fé e a generosidade, de deixar mais e poder voltar para minha São João del Rei com uma pesada bagagem de lembranças únicas e com o corpo leve. E eu rertornarei porque é em São João del Rei que está minha família, meus eternos amigos são-joanenses, meu lar sem paredes e portas. Onde eu caminho, respiro, e sorvo com toda força do meu ‘eu’ verdadeiro que está em cada esquina, em cada banco de igreja, em cada melodia ressonante do período colonial, nas montanhas do Lenheiro, o 'eu' mineiro sempre, intenso, sagrado e profano.
Foto: A parede pintada de verde da casa de Lorena-SP

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Setembro das Mercês


Setembro é bom.
Quem não gosta? A cigarra canta, a primavera se aproxima, a flor desponta, o sol se enobrece. Eu sempre gostei. Quando criança esperava setembro e as luzes enfeitando as barraquinhas no Largo para a festa de Nossa Senhora das Mercês. Era bonito ver o jardim, as árvores e os cordões de lâmpadas, da janela no sobrado da rua Dr. José Mourão, 164. Setembro era e é bonito em São João del Rei.
Num dia de setembro à tarde, fui brincar na pracinha e tinha hora pra voltar pra casa: assim que as luzes das barraquinhas se acendessem, ditou meu pai. Eu me distraí e voltei muito mais tarde do que o combinado. Levei uma bronca como poucas vezes na vida e aprendi que deveria prestar mais atenção às luzes.
Num dia depois da novena, fomos para as barraquinhas. Eu adorava a barraca do aviãozinho. A brincadeira era apostar uma ficha num país da mesa redonda e o aviãozinho de lata colorida tinha que parar no tal país para se levar a prenda. Geralmente um frango assado de padaria em meio a alfaces e fios de ovos ou uma garrafa de vinho tinto. Eram prendas doadas por vizinhos, simples, o negócio era ajudar nas despesas da festa das Mercês. E então girava a hélice, o aviãozinho com sua luzinha levantava vôo diante de vários olhinhos admirados - não voava muito alto, era preso - e voava em círculos, rodava, rodava e a gente torcia, torcia para ele pousar e parar no país escolhido na grande mesa-mundo. Fecho os olhos e posso ouvir o som do motorzinho e as crianças gritando o nome dos países escolhidos. Rússia!!! Ali o aviãozinho parou e com sua luzinha iluminou o nome escrito em vermelho. Ganhamos um frango. Depois de algumas apostas, papai percebeu que a mesa estava tombada para um lado e o aviãozinho só parava nos países deste lado. Nesta noite voltamos para casa com 3 frangos e duas garrafas de vinho, às gargalhadas, não pelos prêmios, mas pela descoberta dos países tombados na mesa-mundo!
O dia maior da festa, 24, era muito esperado. Alvorada, banda, sinos, fogos. O andor rodeado de flores. Naquele tempo Nossa Senhora das Mercês parecia ter os braços mais abertos... Ou eu parecia ter mais fé? Ela descia as escadarias da igreja com seus cabelos de cachinhos balançando. O hino, cuja letra nunca mais esqueci, era cantado pelos fiéis e a banda executava também a Marcha das Mercês. Assim que ela acabava de descer o último degrau eu corria para casa, para a varanda de trás. A procissão passava pela rua Resende Costa e por cima do muro dava para ver só as luzes da sua coroa. Eu acompanhava aquelas luzes até elas desaparecem na inclinação da rua. Por fim, a chegada da procissão, a emocionante benção aos enfermos no hospital, a subida das escadarias com os fogos pipocando por todos os lados num conjunto de luzes coloridas iluminando o largo, o céu e meu rosto. Todo ano é assim, em setembro!
É um presente o ano ter sempre setembro.
Desejo pra você, amigo de ‘Ambição’, um mês 9 cheio de luz e encantadores pequenos momentos da vida!


Foto: Imagem de Nossa Senhora das Mercês por KK