segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Café fúnebre

Pode parecer meio mórbido, muitos não vão entender e podem me julgar, mas velório também é um lugar que dá fome. Desculpem-me todos os falecidos, os meus mais sinceros respeitos e saudades, espero que estejam todos gozando da paz celestial.
O costume é antigo, bem mineiro, mas com ocorrência também em outras regiões do país, e principalmente em áreas rurais: servir quitandas durante as noites em que se velava o morto, para dar sustança aos presentes que muitas vezes viam de longe. Tem até livro de receitas com o tema, ‘Os comes e bebes nos velórios das Gerais e outras histórias’ de Déa Rodrigues da Cunha Rocha (Auana Editora), traz 21 receitas e 18 histórias sobre a tal tradição.

E mesmo que os atuais velórios não se estendam mais à noite, o costume ainda persiste em pequenas cidades do interior. Tradicional como ela só, São João del Rei ainda guarda este hábito.
Após a confirmação do local do velório do ente querido, alguns familiares e amigos próximos, já providenciam duas garrafas de café, uma já adoçado e outra não, e para acompanhar roscas, pães, biscoitos, bolos, e toda sorte de produtos das nossas fartas e tradicionais padarias são-joanenses.
Eu comecei a reparar nesta tradição no triste dia que levou, inesperadamente, meu pai. O velório teve início no começo da noite e foi se estendendo madrugada adentro. De vez em quando alguém dizia ao pé do meu ouvido, ‘você precisa comer alguma coisa, vai lá na copa, tem café, biscoitos’... Eu achei aquilo estranho, mas fui lá e me servi de um forte café e comi algumas rosquinhas de polvilho, é o que recordo, e fiquei pensando qual das minhas bondosas tias teria tido esta preocupação de abastecer a copa, levado aquele café e aquelas rosquinhas.
Certa vez, num outro triste dia, no velório do pai de uma amiga muito querida, eu fiquei impressionada. A família era muito grande e com vários parentes fazendeiros de São Tiago, cidade próxima e conhecida como a ‘terra do biscoito’. E essa fama da cidade ficou evidente quando um dos parentes chegou num Gol daqueles antigos ainda quadrados, abriu o porta-malas e tirou de lá sacos enormes com todo tipo de biscoitos que se possa imaginar. Mais tarde, num dado momento, com a desculpa de ir ao toalete, fui até a copa conferir os tais biscoitos. E eram realmente deliciosos, diversos, abundantes, doces e salgados, uns mais durinhos, outros de desmanchar na boca!
Numa outra tarde muito dolorosa, velávamos minha mãe, no pequeno velório do Carmo, que não havia copa. Entre uma conversa e outra, sussurros e lágrimas, uma amiga sugeriu comprar alguma coisa pra comer na padaria do Carmo. Eu achava que nem estava com fome, mas quando ela voltou com um pacote de ‘enroladinho de presunto e queijo’, não resisti. E fomos aos poucos esvaziando o pacote, ao final restava apenas um, eu e esta minha amiga, nos entreolhamos numa pergunta calada: ‘quem fica com o último’? Fiz uma cara de filha que perdeu a mãe, e minha amiga não teve alternativa senão me oferecer aquele último salgadinho. Você já provou o enroladinho de presunto e queijo da padaria do Carmo? Não? Pois então prove, a vida é uma só! Este da padaria do Carmo, tem no recheio além do presento e do queijo, salsinha no lugar de orégano, que na minha opinião, faz toda a diferença.
Quando faleceu a mãe de uma outra amiga muito querida, eu estava fora de São João del Rei e cheguei às pressas no velório recém-reformado da Confraria de Nossa Senhora das Mercês, cansada da viagem e com fome. Após consolar a amiga, escutar as conversas de como tudo se deu, me informaram que na copa eu poderia fazer um lanche. Não aceitei prontamente, claro, mas mais tarde, com a desculpa do toalete... Foi nesta ocasião que provei uma inesquecível e perfeita combinação de um maravilhoso pão de queijo com mortadela! Era um pão de queijo muito macio, destes mais tradicionais, feito com legítimo polvilho azedo e pedações generosos de queijo bem branquinho. Dentro, finíssimas, quase transparentes, fatias de mortadela da boa, dessas que você pede ao funcionário da sessão de frios para cortar beeeeem fininha e ele te lança um olhar intolerante. A dupla casou muito bem, qual goiabada com queijo e olha que eu particularmente nem aprecio muito mortadela. Mais tarde ouvi alguém comentando que o delicioso pão de queijo foi feito pela senhora Nair Said, uma velha amiga da falecida, muito conhecida na cidade por sua bondade, educação, elegância e dom com as quitandas caseiras.
Recentemente subiu aos céus um anjo, a tia de uma amiga, que era como uma segunda mãe para ela. O velório que aconteceu no São Francisco, estava cheio de parentes e familiares, e já quase na hora do enterro, precisei ir ao toalete... Na copa, tomei um cafezinho bem forte e descobri que atualmente a própria funerária se encarrega da merendinha, o que deixa tudo um pouco sem graça. Mas me deparei com uma mesa razoável, um bolo simples, alguma outra coisa que não me lembro, e um prato com um tipo de salgadinho que me chamou a atenção, não sei bem se era uma rosquinha ou um salgadinho com algum tipo de recheio. Eu precisava conferir aquele, estiquei o braço e quando já estava prestes a pega-lo, alguém me puxou o braço. Era a irmã da falecida, mãe da minha amiga, ela estava preocupada com a filha que chegara de viagem e pediu que eu a chamasse para comer alguma coisa ali na copa. Atendendo ao seu pedido fui atrás da amiga que disse que já havia lanchado na estrada, e então eu fiquei sem graça de retornar à copa, fiquei só no cafezinho e na vontade daquele salgadinho-rosquinha que eu jamais saberei de fato o que era.
Quero deixar claro que não aguardo o próximo velório para conferir a copa, por favor, longe de mim. Gosto muito de levar meu abraço a quem carece nestas horas, de verdade, de coração, é um carinho que conforta como eu mesma já pude sentir nas ocasiões que faleceram meus pais. Desejo muita saúde a todos que me cercam!
Eu amo viver e não gosto de falar do dia em que eu deixarei este plano, mas me agradaria muito que no dia da minha despedida, os familiares escolhessem um velório com estrutura de copa, e que alguém se encarregasse de montar uma bela mesa ali, com bolos bem feitos, biscoitos de desmanchar na boca, broas macias, pão de queijo com fartos pedaços de queijo, salgadinhos tradicionais e um café muito cheiroso! Assim sendo eu não sei se vou conseguir me segurar e quem sabe eu não me levante do caixão para um ultimo deleite...


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Eu, eleitor


Somos o resultado do nosso meio, das nossas vivências e também das nossas preferências. Nosso modo de relacionar é moldado assim também e contém deslizes, etapas de sensatez, momentos intempestivos e atitudes erradas e outras certas, momentos de reflexão intensa e que podem tanto acarretar em bons resultados ou verdadeiros desastres. Mas o pior ( ou necessário) fator de desequilíbrio é a paixão, e eu me rendo, confesso de joelhos como em um confessionário do século XVIII na sacristia de uma tradicionalíssima igreja barroca do interior de Minas: Sim! Sou movida por paixões! E nesta semana estou apaixonada... Pelas eleições para presidente em segundo turno! Estou achando tudo extraordinário, mas também pesado e tenho críticas à respeito principalmente nas redes sociais (uma outra paixão minha). Mas o saldo é positivo eu acho, porque mesmo aos trancos e barrancos estamos exercendo a cidadania, estamos fazendo o que deve fazer um eleitor em vésperas de votação e aos mais atuantes e engajados estamos em campanha pelo voto dos indecisos e ainda outros mais audaciosos em busca de reverter um voto adversário. Fantástico isto, mas... somente até o momento da luta no âmbito das ideologias, quando esgotados os argumentos racionais, vem ela, a paixão falar mais alto e é aí que muitos escorregam (até eu, sim!), nós viramos de costas, usamos de agressividade, alguns de palavreado baixo, e atacamos na esfera do pessoal com ofensas imponderadas, externando essência primitiva, expondo a inveja às vezes, aquelas guardadas à sete chaves da tolerância nas profundas gavetas das iniquidades.
Mas voltando a minha paixão, como boa apaixonada leio tudo sobre as eleições, cada opinião, e veja bem, leio com cuidado opiniões favoráveis ao meu candidato e desfavoráveis também, cada texto polêmico de blogueiro polêmico partidário e apartidário (que são poucos), acompanho pesquisas e suas interessantes margens de erro, fico nervosa em debates na TV. Leio também o que sai na imprensa e esta parte é das mais tristes porque ela deveria ser isenta, como aprendi na faculdade, mas ela anda pobre e medíocre. No entanto é na loucura das redes sociais onde mais mergulho, e absorvo tudo, as artes em design tosco, as mais primorosas e inteligentes àquelas onde erraram feio na informação, no checar dos dados, e foram compartilhadas automaticamente. Tem de tudo! Tem o 'preto no branco' pra conferir pronunciamentos ditos com verdade nos olhos que não passam de mentiras descaradas. E alto lá, tem 'preto no branco' favorável a cada candidato porque como já disse a isenção na imprensa passa longe. Fantástico! É uma corrida maluca onde a maioria já escolheu um dos pilotos, e os defende aguerridamente porque foram escolhidos de acordo com suas convicções que por sua vez foram construídas a partir das suas vivências, do meio em que você viveu e das suas preferências. Numa destas leituras de depoimentos próprios (aqueles que dou mais atenção porque vieram de um pouco de reflexão pessoal mesmo que contenha algum índice ou foto de compartilhamento), uma professora quase me conquistou, ela chamava a atenção para a distorção exagerada, para a manipulação a todo custo, mas no fim, veio o desastre, ela declarou seu voto e fui analisar o porquê. O porque da maioria da classe médica ter escolhido um candidato é a mesma coisa da maioria dos professores terem escolhido o outro. A mesma coisa no fundo! Escolhas baseadas na vivência, no meio, nas preferências, nos estudos que fizeram durante a vida, dos autores que se identificavam e leram sempre, é individual, é e sempre foi consciente ou não um voto egoísta. Consciente ou não! Nós assimilamos o que nos convém de acordo com nossa bagagem, de acordo com nosso nível de conhecimento e acesso a este conhecimento, uns com mais capacidade, outros com menos. Somos todos diferentes e iguais ao mesmo tempo. No fim a minha verdade é igual a sua verdade e embora sejam diferentes verdades não somos mentirosos. Acreditamos na nossa certeza do que elegemos ser o melhor para nós e ao país ao mesmo tempo, equação longa daquelas que o x foi obtido de acordo com os anos vividos. Esta é nossa maior influência, o resto é blábláblá, mimimi. Desde que consciente e jamais vendido, não existe voto errado. Mas existe voto certo! Qual é o certo? Daqui a quatro anos conversaremos novamente sobre o assunto, isso se eu estiver apaixonada! Ah claro, e depois de quatro anos ainda assim poderemos discordar...



quinta-feira, 11 de setembro de 2014

José&Maria


Dividindo o ar e rompendo as vertentes ela vem fumegando, dançando em trilhos, há exatos 133 anos!
Impávido e estático muro de rocha, ele espera silencioso desde sempre.
Ela anuncia sua passagem em bruma leve das paixões que vem dentro... E com o estridente som de seu apito talvez faça um chamado.
Maria: Velha louca e menina ativa, locomotiva!
À vapor, à amor é movida, de partida, serpenteando o vale, ritmada qual batida de coração.
José: Disciplinado, altivo, de quartzito, em tons negros e azuis, sublime elevação!
Uma grande concha ou talvez uma onda petrificada, no seu lugar ele a vê passar em curva!
Maria, uma composição, alguns vagões, emoções, acenos e tantas saudades. 
Vai e volta, até a estação, de Tiradentes, de São João del Rei.
Ele, quieto, admirando, zelando, compondo a paisagem da linha de ferro. Entre os meses de agosto e setembro, oferta a ela buquês em forma de majestosos ipês amarelos, assim é José.
Maria, Maria,
É um dom,
Uma certa magia... em brasa
Uma força que nos alerta... e carrega
Uma mulher que merece
Viver e amar
José, José
É uma moldura
Um certo guardião da vila
Uma fortaleza que nos abraça e abriga
Um ser que merece
Viver e desejar
Em alguns instantes convivem no mesmo cenário, ela fugaz, ele constante.
José e Maria, um par divino, e entre eles um leito de rio, de nome ‘das Mortes’, é testemunha.
Eu sei, todo são-joanense e tiradentino também, embora afastados,
eles se completam exatamente naquela curva porque assim quis a geografia!
Maria, Maria
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que rí
Quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta
José, José
Uma energia que nos alenta
De um gigante que chora (cachoeira)
Quando deve ser sólido
E não caminha, apenas enfeita
Maria é Fumaça!
José é São e também Serra!
Apenas isso e esse trem todo!


Foto1:Trilhos de Minas
Foto2:Revista Sagarana
Foto3:Luis Macedo

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Dona da lua


Eu já fui dona da lua! É isso mesmo, a lua era minha, em todas as fases, mais especificamente a lua cheia e todo seu brilho envolvente, todo seu misterioso poder. Era eu quem apontava e dizia, vem cá, olha que linda a lua esta noite! Eu era soberana diante daquele disco de prata e a exibia orgulhosa. Era meu código, meu trunfo, um elo, uma sempre testemunha, uma mensagem, uma admiração mútua, uma vã certeza, uma esperança, a realidade do sonho, um sentimento satélite, uma poesia, um olhar, uma busca, um segredo. E como assim ela não é mais minha?
Pois a vida expôs as escolhas cruéis, a sociedade fez sua pressão hipócrita e o tempo foi implacável como é. Eu não estava pronta para ter a propriedade da lua e talvez nem ela estivesse pronta para ser minha (minha?!). Ela se escondeu na nuvem da dúvida, durante a tempestade das vaidades. Ela foi encoberta pelas mangueiras do jardim da solidão, e eu ainda fechei a janela para o rastro do seu brilho não me alcançar, tamanho era o medo do incerto!
A lua pertence aos amantes, aos que seguem o caminho que dita o coração, aos corajosos de plantão! Hoje ela ilumina outro rosto, está sobre outra sintonia, mesmo que o céu seja o mesmo, que sua órbita esteja inalterada, a lua inspira outro sussurro, acelera outro coração, invade outra alma. Eu aceito a condição e fico com as estrelas (e estrelas não são migalhas!), a lua já não me pertence mais. Mas um dia foi minha, legalmente e naturalmente, e ela reinou nas minhas noites, ela vigiou meus sonhos para torná-los real, eu lembro bem e essas coisas não se esquece. Vai lua cheia, a revelar as entranhas, a saudar os telhados, a pratear o córrego, a varrer os campos, a despertar as paixões, que eu na condição de ex-proprietária, não posso sentir inveja dos que a possuem agora (e talvez pra sempre) no olhar, só desejo que continue a ser chama suave entre os abraços e faça muitos outros amantes conhecerem a plenitude dos bons momentos!

terça-feira, 18 de março de 2014

‘Os Caveiras’ e a Colombina– Um conto de carnaval

Segunda-feira de carnaval (de um ano de sua preferência).

A música ritmada por tambores inebriava os foliões que se lançavam à chuva de confetes sob uma noite pontilhada de estrelas e carregada de suspiros e brisas amenas. Em meio a multidão, uma Colombina vive sua fantasia e sorri naturalmente, é carnaval, o salão do clube está cheio de alegria. O par da menina, claro, é um altivo Pierrô.  Os dois vão dançando enlaçados ou sambando lado a lado, se cortejando e compondo aquela atmosfera. Uma história está para ser contada, para alguns se tornará uma lenda...


Eis que de repente, o som de muitos guizos desconcerta os olhares. Os sinos adornam a fantasia de um garoto que adentrou o baile, é o colorido Arlequim, vestido de desordem e liberdade. Ele tem o brilho das coisas verdadeiras, o amor lhe cerca e o banjo lhe completa. Os aguçados ouvidos da inveja rapidamente o ouviram e olhos medrosos o avistaram. Como num truque barato, malvado, assaltado pela insegurança, o ciumento Pierrô muda o ritmo, rodopia estupidamente seu par e com movimentos bruscos conduz a Colombina para fora do salão. Ela cai no chão...
Tolo Pierrô, foi o temor de que o sorriso do Arlequim pudesse iluminar o rosto de sua amada ou talvez (quem um dia irá saber) de que o coração da Colombina redescobrisse a contagiante presença do Arlequim. Mas o que se deu foi que a menina não entendeu a insensatez, porque as coisas quando toscas não tem razão. Estava tão feliz, apenas se deixava levar pela magia do carnaval, o que a mais ela fez? Se perguntava com os olhinhos perdidos.
Pierrô, palhaço triste, viu a decepção no rosto pálido da Colombina e não aguentou fita-la mais, deixou-a ali no chão e saiu correndo com sua fantasia de covardia.
Sem graça, a Colombina se ergueu com a ajuda de outros, tinha algumas dores, mas não sabia onde, estava machucada, mas não havia feridas à mostra. E agora? Como voltar à dança? Melhor descer as escadas da realidade e deixar o salão. Nem sua fantasia esconderia sua desilusão.
 Ao chegar à rua ela ouviu uma marcha sombria e conhecida, estava prestes a desfilar na avenida um bloco típico. O cortejo era o qual na sua infância ela mais gostava, embora tivesse enorme pavor! Era um bloco, muito antigo, tradicionalíssimo na cidade, onde os foliões se fantasiavam de criaturas da noite, bizarras, mal assombradas, vivos-mortos, vampiros asquerosos, fantasmas medonhos, caveiras horrendas, almas penadas que talvez desfilassem desde sempre, como convém às coisas eternas.


A Colombina, exímia dançarina que dança conforme a música, sem pensar e apenas sentindo, foi assim se juntar àquela procissão de horrores. Desfilando suavemente sua dor no meio do bloco, foi desenhando sua coreografia, deixando cair sua mãozinha e outrora a levantando ao som mais agudo de um clarinete (o/), como se fosse um balé de uma pequena bailarina de antigas caixinhas de música.
E assim com coragem e leveza, integrada estranhamente ao bloco, desceu a avenida jurando aprender a seguir sozinha, pois passista não significa passiva! O desfile na avenida foi sua viagem, sua catarse, um legítimo enterro daquilo que ela não desejava mais, daquelas sensações mesquinhas, das ofensas, da solidão maquiada. Eram todas aquelas caveiras...


O Pierrô está chorando pelo amor da Colombina, no meio da multidão, na estrada da vida, e sua lágrima pendente se eternizou tal como tatuagem embaixo do olho esquerdo.

O Arlequim? Se vai ou não vai um dia tomar a cintura de Colombina numa sexta-feira, descendo a ladeira, não importa agora. Isso é assunto para outros carnavais, caros foliões! Já adentramos aos ritos quaresmais...

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Habitantes do centro histórico


Ah esses seres únicos do centro histórico! Indivíduos mansos, incomuns, de hábitos singulares, seculares e severos consigo mesmos. Vivem rodeados de sobrados, sombras, gradios portugueses rebuscados, beiras, seveiras e sob telhados coloniais. São animais que praticam a amizade, a temperança, a bondade e a solidariedade por longos 300 anos. Os vejo caminhando sem pressa pelas ruas de tortos paralelepípedos, nas esquinas, nos becos e nas alcovas das suas casas. Habitam também torres, guardam e zelam pelas capelas dos Passos. Se refugiam em bando nas igrejas para reza de terços, missas, novenas solenes e Te Deum Laudamos (Te Deum então, adoram! Com muito ajoelha-levanta) Não que sejam, ou querem ser santos, não se trata disso, porque eles carregam sim seus pecados, seus passados e espiam uns aos outros através de janelas baixas. Às 15h das sextas-feiras, sob o dobre dos sinos dos Passos, ascendem incensos no interior de seus estabelecimentos comerciais. Alimentam-se de frangos ensopados, rapadura, pão de queijo, queijo, doces em compota com queijo, doce de leite com queijo, goiabada com queijo, bolinho de feijão, amêndoas de cartuchos, e de toda a sorte de quitandas de padarias antigas. Só tomam café Tamandaré ou Soberano, só cozinham arroz soltinho se for Albarusca e só varrem a casa com vassoura piaçava Rossi! Estranhos... Que não se tente enjaula-los em belas mansões de condomínios no Alphaville ou em impessoais apartamentos do alto Leblon! Esses seres não serão felizes, apenas sobreviverão, eles precisam de horta para cultivar rosmaninho e ora pro nobis, precisam sentir o cheiro do adobe, da madeira de demolição, do ferro fundido e da Dama da Noite. Nas procissões, orgulham-se de vestir uma opa de irmandade e carregar uma lanterna, curvar-se diante de andores e lhes jogar pétalas de rosas. Querem apreciar os fogos iluminarem o céu e ver passar a banda no final. Que ninguém os julguem como segregadores, mas é que quem nasceu no centro histórico de São João del Rei nos arredores dos Largos das Mercês, Carmo, Rosário, da Cruz e do São Francisco, tem raízes mais profundas, proporcionais à altura de palmeiras imperiais, possuem ouvidos afinados por badaladas de bronze e violinos de bicentenárias orquestras. A vida não lhes é diferente, é hora difícil e hora leve, mas a fé é tradição e esperança do amanhã assim como uma peculiar alegria simples! 

terça-feira, 23 de julho de 2013

'Painando' no ar...


É um inverno poderoso o de São João del Rei, mas não, neve, nunca caiu! Porém um outro fenômeno mágico enche de encantamento os lugares, nos arredores do Largo das Mercês, campus Santo Antônio e onde uma paineira imponente orquestrar uma chuva de painas que levarão longe suas sementes. Assim, pairando no ar, ao sabor dos ventos, flocos de fino ‘algodão’ embelezam jardins e os caminhos, nossa neve são-joanense.
Na minha casa tinha um travesseiro de painas, coberto com fronha já muito gasta cujo branco já tinha perdido o tom e as tantas lavagens lhe conferiram um toque de seda. Eu lembro de ficar ‘catando’ as sementes enquanto o sono não vinha. E quando finalmente vinha, sonhos lindos o acompanhavam. Porque não sonho mais aqueles sonhos antigos? Será talvez porque os travesseiros são outros? Feitos de assustadores e misteriosos materiais sintéticos? Onde vai parar toda aquela paina das paineiras se não mais em artesanais travesseiros de cidadezinhas? Onde caem hoje as sementes que a paina, qual uma asa delta, carrega com a ajuda do vento frio de julho?
Eu já fiquei horas na janela daquele sobrado assistindo o voo daqueles blocos de pequenas nuvens. Ou seriam pedacinhos de algodão doce voadores? Os pardais sabiam muito bem, aquelas painas eram o aconchego do ninho, o forro perfeito para botar os ovinhos e depois, a caminha ideal para seus filhotinhos, enfim eram o amenizar das rudezas da vida. Por isso a pardoquinha, esperta como a natureza a fez, ficava no telhado só observando o deslizar da paina no céu de intenso azul e quando chegava a hora, num mergulho preciso, tomava o floco macio no bico e levava para seu ninho.
O sobrado ainda está lá, soberano daquela praça, mas a janela que agora tem grades, não é mais minha. As paineiras ainda florescem todo inverno e enchem de beleza os lugares. E os sonhos, alguns não me pertencem mais, mesmo assim ainda sismo de sonhar. Mas há de ter um dia, do mês de julho, perto do dia de Nossa Senhora do Carmo, quando o sol estiver brilhando forte num céu sem nuvens, e amenizando o frio, um vento irá soprar diferente. Ele começará a bater suavemente, fará uma curva na esquina e se tornará forte, bem diante da antiga paineira que existe atrás do cemitério de Nossa Senhora das Mercês. Vai então soprar com rigor e arrancar da casca do fruto do mais alto galho, um chumaço de paina com uma semente especial, ela vai viajar e cair em solo fértil.
Assim eu sonho, e sonhos - segundo Milton Nascimento, Lô e Márcio Borges - não envelhecem! Eles atravessam invernos, travesseiros sintéticos, grades, são testemunhas do brotar de outra paineira, seu crescimento ao longo dos anos e o amadurecimento de seus frutos. Vejo tudo, sinto a maciez das painas na leveza do ar, me reinvento num olhar da janela da alma daquele sobrado, e igual passarinho, forro o ninho. Que o meu e o seu caminho assim seja no inverno da jornada, repleto de pontinhos brancos encantados diante dos olhos, a plainar, a confortar, a amenizar!

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Estou indo

Não sabia se ia ou não, mas decidi! Vou! Eu vou para te ouvir os sinos às 6 horas da tarde, para ver tuas ruas com o brilho dos lampiões, eu vou porque lá minha alma canta. O caminho do Espirito Santo à Minas é longo, dispendioso, custoso, complicado para quem vai só e carrega consigo uma filha de dois anos. Mas teu entardecer tom laranja mesclado com azul e cheio de poesia me conclama. Não posso passar julho sem te ver envolta em translúcida neblina pela manhã, à tarde meu coração se enche de contentamento vendo no teu céu a dança das pipas, e as tuas aconchegantes noites frias me trazem estranha alegria!

Então eu vou, para rezar um terço na capela do Santíssimo, para passear distraída e encantada por tuas ruas, recordando do quanto fui feliz e sonhando com o quanto ainda poderei ser. Quero te respirar a exclusiva essência barroca, num aroma que é mistura de adobe molhado com os jasmins dos seus canteiros e centenárias madeiras dos seus sobrados. Assistir uma missa das 10 horas nas Mercês, com homilia de padre Geraldo e abrilhantada com os hinos tocados pela orquestra Lira São-Joanense! Vou porque tenho saudades das quitandas que só suas antigas padarias ainda assam em forno à lenha. Vou porque eu tenho um pedaço de mim que senta em um dos bancos da praça Barão de Itambé e chora de saudades. Nesta mesma praça vou caminhar-te sobre tapetes vermelhos que foram delicadamente tecidos pelas flores caídas de velhos conhecidos flamboyants! Estou indo te olhar como estão crescendo as novas palmeiras do largo de São Francisco, conferir se floriu teus ipês amarelos, rir com meus amigos, escutar o vento uivando no morro do Bonfim.
E é claro, renovar meu estoque de pacotes de cafés são-joaneneses! Vou deixar aflorar a menina que só existe quando está nos largos do seu centro histórico e aproveitar intensamente cada minuto nesta terrinha, com a força que só os ausentes conhecem. Vou aos shows e teatros do seu Inverno Cultural, vou agradecer e também pedir outras graças na noite do dia 16, quando Nossa Senhora do Carmo, rodeada de flores, passará por teus becos!


Eu vou, e quem me ver passando, provavelmente de cabeça baixa (só ando assim) apressada e encolhida num casaco, com um cachecol enrolado no pescoço, saiba que estou em casa, poderá constatar no brilho do meu olhar que estou em estado de graça, completamente feliz! Vou porque apesar de tanto caminhar longe de ti, meu olhar nunca se afastou, tamanho é meu amor! Estou chegando, e bem sei que me esperas atrás da Serra do Lenheiro, sempre!
Foto1: As torres da Matriz do Pilar, a igreja do Carmo e a neblina de inverno por Marcinho Lima
Foto2: Queima de fogos no Largo de São Francisco durante procissão de Nossa Senhora do Carmo/2008 por KK Freitas

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Esta estante



Nasci num simpático sobrado de tamanho satisfatório para uma família de seis pessoas.  Na sala, havia uma estante que chegou para nossa casa doada por alguma tia. Esta estante não era muito grande, tinha apenas três longas prateleiras de compensado revestido que se equilibravam em seis blocos. Mas para olhinhos que veem tudo da altura de uma criança, ela era enorme, linda, imponente, importante, cheia de classe, design e destaque!
Muitos eram os títulos, clássicos nacionais, internacionais , de muitos autores famosos dentre filósofos alemães, físicos americanos, romancistas populares, escritores consagrados, premiados, edições raras. Muitos livros infanto-juvenis, didáticos, dicionários e toda a sorte de manuais de televisão, rádio, e dezenas de outros aparelhos domésticos e até de máquinas industriais. Havia também os livros de autores são-joanenses, um ou outro livro de anedotas, alguns exemplares de antigas revistas, livros de culinária, ervas medicinais e a bíblia com capa de madeira! Não lembro de nenhum livro de autoajuda, mas devia ter algum. E ocupando grande espaço, as rainhas das antigas estantes: as enciclopédias!!! Sim, porque naquele tempo o senhor Google nem sonhava em ser concebido e nos restava, para pesquisa de todas as coisas, as limitadas páginas daqueles enfileirados e grossos livros com capas duras de cores vivas, letras douradas e encadernação de brochura.
Era assim nossa biblioteca particular, muitas eram as cores, as texturas das capas, os tamanhos, tudo com aquele cheiro de livro que eu não sei explicar, só quem lê sabe deste aroma!
Quando mudamos de casa para apartamento, a estante foi ocupar um corredor. E todos os livros continuaram conosco, crescendo cada vez mais em exemplares, e nós em conhecimento, desenvolvendo nossas preferências e afirmando nossas aversões. Mas o tempo foi corroendo aquelas prateleiras e um dia a estante foi desfeita, os livros guardados em caixotes. Ora! Lugar de livros é na estante! Livros não são apenas para serem lidos, consultados esporadicamente, precisam ser vistos, notados para não sejam esquecidos e nem roídos por abomináveis traças. Não que os livros sejam enfeites, não, eles são mais que isso, tem memória, alma, presença! Engraçado que eu nunca fui uma leitora assim tão assídua, mas conhecia bem cada um deles, sejam eles lidos por mim ou não.
Meus pais se foram, os filhos estão cada um num canto e a maioria dos livros da estante da minha família se perdeu, o tempo os levou, viraram pó, que triste, que pecado! Livro é bem precioso precisa ser conservado, respeitado! Onde foram parar todos aqueles livros? Para onde foi o ’Tronco do Ipê’ como todo aquele rebuscamento de José de Alencar? ‘Contam que...’ de Lincoln de Souza, ’Reinações de Narizinho’ de Monteiro Lobato? ‘O caso da Borboleta Atíria’ com aqueles olhos que tanto me olharam e eu nunca consegui ler, onde anda? Ah que pesar, porque eu não li todos eles? Até os manuais de televisão poderia ter lido, aprendido!
Felizmente alguns sobreviveram, foram cuidados, mantidos. Que honra poder ter hoje, na estante da minha casa, na biblioteca particular que agora eu monto aos poucos, a ‘Divina Comédia’ de Dante Alighieri, toda a Enciclopédia Século XIX, adquiridos por meu pai, alguns exemplares de capa dura de Machado de Assis, que foram da minha bisavó! Adoro folear o livro ‘Fogão de Lenha’ de Maria Stella Libanio Christo, que orgulho da bíblia de capa de madeira e dos livros sobre São João del Rei!!!
Se meu pai foi um grande leitor não sei, nas poucas vezes que o vi debruçado sobre algum livro, com certeza era um manual de um aparelho que ele ainda não dominava bem. Já minha mãe lia mais, devorava os famosos romances populares da coleção Sabrina e também outros títulos famosos da época como a série ‘Operação Cavalo de Tróia’ de J.J. Benítez.  O fato é que na minha casa existiu uma estante com muitos livros, e eles foram coadjuvantes na escrita da minha própria história. Hoje sou eu que tenho esta consciência ‘estante’, coleciono e leio livros, já tenho muitos e vou comprando mais outros porque quero deixa-los como uma herança.
Esta semana, por exemplo, me tomei de saudades pelos livros de Monteiro Lobato que li quando muito nova e me lembrei do quanto eles tornaram minha infância ainda mais encantadora. Como não fazem parte dos livros que resistiram ao desmoronamento da estante, quis comprar um daqueles títulos, fui à internet e vi de tudo, mas um exemplar de ‘A Chave do Tamanho’ de 1962, num sebo virtual me chamou a atenção. Parecia-se muito com aquele velho livro da nossa estante. Então comprei, fiquei ansiosa por sua chegada, e quando ele chegou voltei no tempo, eu era novamente aquela menina lendo encantada Monteiro Lobato, se identificando com a Emília e suas peripécias! Que assim aconteça com minha filha quando ela começar a ler porque a ‘A chave do Tamanho’, estará na estante!

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Dos vazios

À viver a vida à fora e à dentro de nós, vamos percebendo desalinhos que não se aprumam fácil ou que nunca se erguerão! Estou a te falar dos vazios que não se preenchem mais, e que doem dor fina e cortante, de dia e de noite, madrugada também, e sem avisar. Recordo-te das fomes de sabores suaves perdidos no tempo, dos lugares da infância da gente que não vai voltar mais e das pessoas carinhosas, entes amados e apaixonados que se foram para lá. São manhãs amenas sem esperança de dias vivos. Vazios que não se pode preencher. Você corre tanto atrás, compra sapatos de salto alto e finas sandálias, degusta um brigadeiro e depois uma barra de chocolate e ainda um pedaço de bolo, sente dores na barriga e um vazio imenso. Como dói o abraço que não alcança aqueles braços, que triste não ouvir mais a ternura em voz, onde está o colorido sentimento que te deu forças e te elevou a face naquela bonita foto? Vazio que não se consegue preencher, não te situa em lugar nenhum, ele te expõe a tristeza camuflada, a cicatriz debaixo do queixo, e você queixa-se do dia, do tempo, das olheiras, da palidez, e se vê em melancolia, à beira do mar salgado do passado que nunca aconteceu, ou à beira-seveira de enfileirados casarios do passado que você queria que fosse agora. O seu sofá parece um barco à deriva, a sua sala um grande lago plácido que não se vê a margem, você está mudo, insatisfeito, olhar que nada vê, e coração que insiste em bater o ritmo dos desacreditados. Não se preenche vazios sólidos, aprenda! Muitos são os frutos do abacateiro, encorpados, viçosos, viscosos e outros menores que não vão gerar novos frutos porque a semente simplesmente não vai germinar ou porque no lugar da semente há um vazio, e a culpa não é sua! E então, mágica e cíclica como somente a vida é, você estará distraída, de chinelos, de cabelo solto, conversando besteiras, numa tarde vazia como esta de hoje e o sol incendiará novamente sua alma, e seu sorriso atravessará o largo do Carmo novamente! Acredita? Os vazios continuarão lá em alguma esquina, mas você inconscientemente os deixará ignorados. Vazios não são bons lugares para se visitar enfim!